Presidente sírio diz que ataque norte-americano foi "tolo e irresponsável"

Assad reage à decisão de Trump, de atacar base militar síria esta madrugada. Entre quatro e nove pessoas terão morrido

O presidente sírio, Bashar al-Assad, considerou hoje o ataque norte-americano contra uma base militar do país como "tolo e irresponsável".

Os Estados Unidos lançaram na quinta-feira um ataque com 59 mísseis de cruzeiro contra a base aérea de Shayrat, de onde terão partido os aviões envolvidos no ataque com armas químicas que na terça-feira matou pelo menos 86 pessoas em Khan Sheikhun, no noroeste do país.

Um comunicado do gabinete da presidência síria considera que o ataque foi "míope", sem ter em conta o que pode acontecer no futuro, e reflete a continuação de uma política que, independentemente da administração, se baseia em "subjugar pessoas", cita a agência noticiosa AP.

A presidência síria alega ainda que o ataque não se baseou em factos reais, negando assim o envolvimento no ataque com gás tóxico que ocorreu na última terça-feira em Khan Sheikhun, onde morreram pelo menos 86 pessoas.

Segundo o Pentágono, foram lançados pelo menos 59 mísseis de cruzeiro Tomahawk de navios de guerra no Mediterrâneo, visando a base aérea al-Shayrat, na província de Homs, de onde se pensa ter partido o ataque do início da semana com armas químicas.

"É do interesse vital para a segurança nacional dos Estados Unidos impedir e parar a proliferação do uso de armas químicas", justificou o presidente norte-americano, Donald Trump, para quem "anos de tentativas para mudar o comportamento de Assad falharam, de forma dramática".

Entre quatro e nove mortos

A agência oficial síria Sana avançou entretanto que o ataque matou nove pessoas, entre as quais quatro crianças. "A agressão norte-americana provocou a morte de nove civis, incluindo quatro crianças, fez sete feridos e provocou importantes estragos em habitações das aldeias de Al-Shayrat, Al-Hamrat e Al-Manzul", próximas da base atacada, escreveu a agência.

O Exército sírio avançou a morte de seis pessoas e danos significativos. Considerou ainda que o ataque constitui uma "agressão flagrante" e que os Estados Unidos se tornaram aliados do Estado Islâmico e de outros grupos terroristas.

O Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH, oposição), com sede em Londres, disse que o ataque matou quatro soldados, incluindo um general.

Já o governador da província de Homs, Talal Barazi, referiu que o ataque matou cinco pessoas: três soldados e dois civis. Em declarações à agência noticiosa Associated Press (AP), Talal Barazi disse também que sete pessoas ficaram feridas.

A televisão libanesa al-Mayadeen, por seu lado, informou que a maioria dos aviões estacionados na base aérea militar atacada haviam sido retirados do local. No entanto, as Forças Armadas russas indicaram que os mísseis norte-americanos sobre a base aérea síria de Shayrat destruiu seis caças sírios estacionados nas instalações e que a pista ficou intacta.

A mesma fonte acrescentou ainda que apenas 23 dos 59 mísseis lançados atingiram aquelas instalações militares sírias.

Televisões sírias e russas estão a divulgar imagens do que dizem ser a base aérea de al-Shayrat após o ataque:

Rússia considera ataque uma agressão

Esta decisão do presidente Trump poderá agravar as suas relações com a Rússia, uma vez que ainda esta quinta-feira o regime de Vladimir Putin afirmara que não havia provas de que Assad tivesse usado armas químicas, dizendo mesmo ser "inaceitável fazer uma acusação infundada sem uma investigação detalhada e imparcial".

O Kremlin já defendeu que o ataque é ilegal e feriu seriamente a relação entre a Rússia e os Estados Unidos. Pediu ainda uma reunião de emergência do Conselho de Segurança das Nações Unidas. O porta-voz de Vladimir Putin considerou a ação militar "uma agressão contra a soberania de uma nação" a partir de um pretexto encenado" " e uma forma de distrair a comunidade internacional das mortes de civis no Iraque.

"Isto faz lembrar a situação de 2003, quando os EUA e o Reino Unido, com os seus aliados, invadiram o Iraque sem a autorização do Conselho de Segurança" da ONU, disse Serguéi Lavrov, ministro dos Negócios Estrangeiros russo.

Os EUA garantiram, entretanto, que Moscovo foi avisado antes do ataque para evitar que militares russos fossem atingidos. "Os russos foram avisados", disse o porta-voz do Pentágono, Jeff Davis.

Reações da comunidade internacional

O presidente da Comissão Europeia revelou num comunicado que a União Europeia foi informada de que os ataques norte-americanos foram limitados e tiveram como objetivo impedir o uso de armas químicas. Juncker reiterou a condenação ao ataque químico e disse "compreender os esforços para impedir mais ataques" deste género.

Portugal disse que "compreende" os aliados que atuam em retaliação a "crimes de guerra" disse hoje o ministro dos Negócios Estrangeiros referindo-se ao bombardeamento norte-americano contra a Síria sublinhando que são precisas posições unidas da ONU e da União Europeia.

O Governo britânico já manifestou o seu apoio à decisão da administração norte-americana de atacar a base militar síria, tendo considerado a ação "uma resposta apropriada ao bárbaro ataque com armas químicas levado a acabo pelo regime sírio e tem o objetivo de impedir novos ataques".

A França, por seu lado, fez saber que foi informada do ataque com mísseis antes de este acontecer, tendo-o considerado um "aviso" a um "regime criminoso". "O uso de armas químicas é terrível e deve ser punido porque é um crime de guerra", disse o ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Jean-Marc Ayrault.

O chefe da diplomacia da Alemanha disse que o bombardeamento norte-americano contra a Síria é compreensível mas apelou a uma situação política sobre a égide das Nações Unidas.

Numa declaração conjunta, François Holande e Angela Merkel defenderam que o presidente sírio, Bashar al-Assad, tem a "inteira responsabilidade" pelos ataques norte-americanos "devido ao uso repetido de armas químicas e pelos crimes contra o seu povo".

(Em atualização)

Exclusivos