Presidente do Ruanda antecipa vitória a "100%"

6,9 milhões de ruandeses votam hoje em presidenciais. Apenas dois adversários enfrentam Paul Kagame, no cargo desde 2000.

Presidente desde 2000, mas de facto homem forte do Ruanda desde 1994, Paul Kagame tem garantida a vitória e um terceiro mandato consecutivo nas eleições que hoje decorrem neste país da África centro-oriental.

No último comício, realizado na capital, Kigali, Kagame, de 59 anos, antecipou "uma vitória a 100%" do seu partido, a Frente Patriótica do Ruanda (FPR) e formações aliadas. A terceira eleição consecutiva do atual presidente, que prometeu ontem "mais sete anos de desenvolvimento", só se tornou possível após um referendo, em dezembro de 2015, para alterar a Constituição e permitir a sua candidatura. O referendo, em que a alteração constitucional foi aprovada com 98% dos votos, foi considerado pouco transparente por observadores europeus e pela oposição. Assim, em princípio, Kagame pode permanecer no poder por mais dois mandatos, de sete anos cada, até 2034, quando fará 76 anos.

Kagame enfrenta dois adversários: Frank Habineza, dirigente da única formação política tolerada pelo poder, o Partido Democrático Verde (PDV), criado em 2009 a partir de trânsfugas da FPR, e o independente Philippe Mpayimana, um antigo jornalista exilado até recentemente. Uma mulher, Diane Rwigara, tentou candidatar-se mas não conseguiu reunir as assinaturas necessárias depois de terem surgido fotos suas praticamente nua na Internet. Rwigara negou que fossem suas, mas sem sucesso. Duas figuras da oposição, um ex-padre católico no exílio, Thomas Nahimana, e um funcionário da agência que gere a ajuda externa dos Estados Unidos, USAID, Gilbert Mwenedata, foram impedidos de concorrer.

É unanimemente reconhecido que as candidaturas de Habineza e Mpayimana não têm qualquer hipótese de pôr em causa a hegemonia de Kagame e da FPR neste pequeno país de cerca de 12 milhões de habitantes e 6,9 milhões de eleitores.

Num país traumatizado pelo genocídio de 1994, quando milícias hutu mataram mais de 800 mil tutsis e hutus moderados, Kagame soube impor-se, após a vitória sobre as forças governamentais hutus, como homem forte do Ruanda e sinónimo de estabilidade. As agências referiam ontem que, apesar da repressão, o país tem conhecido um apreciável nível de crescimento económico e uma atmosfera social relativamente tranquila.

Vice-presidente e ministro da Defesa desde 1994, Kagame foi eleito uma primeira vez em 2000 pelo Parlamento; em 2003 e 2010, ganhou as eleições presidenciais com maioria absoluta. Nas eleições de 2003, a oposição ainda conseguiu apresentar candidatos, mas não em 2010. Algo semelhante sucedeu nas legislativas de 2008 e 2013, quando foram presos candidatos da oposição e condenados a pesadas penas de prisão, enviados para o exílio ou, inclusive, mortos.

Os apoiantes de Kagame garantem que o presidente pretende cumprir apenas mais um mandato, mas vozes críticas consideram que aquele neutralizou toda a oposição e irá assistir-se "a uma coroação", disse ontem à AFP o jornalista ruandês Robert Mugabe. Uma ideia repetida numa recente manchete do diário queniano The Standard: "É uma coroação, não é uma eleição". As urnas encerram às 14.00, hora portuguesa, mas os resultados não serão imediatamente conhecidos.

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