Bolsonaro demite o contestadíssimo ministro da Educação

Ricardo Vélez, um dos representantes da ala ideológica do governo, caiu após controvérsias umas atrás das outras. É a segunda baixa no governo, em menos de 100 dias de trabalho.

Pelo Twitter, Jair Bolsonaro anunciou a demissão de Ricardo Vélez Rodríguez, ministro da educação, e a sua substituição imediata por Abraham Weintraub, que funcionava como número dois do ministério da Casa Civil e ficou conhecido por sugerir que socialistas e comunistas sejam insultados.

Uma demissão, literalmente, anunciada, depois do presidente do Brasil, em pequeno-almoço com a imprensa na sexta-feira passada, ter dito que, logo após o fim de semana, analisaria a situação do ministro, enfatizando, no entanto, que "é muito claro que não está dando certo". Com a sua saída, sobem para dois os ministros demitidos, depois de Gustavo Bebianno, secretário-geral da presidência ainda em fevereiro, após zanga com Carlos Bolsonaro, filho do presidente.

Bolsonaro teve em conta o histórico de polémicas de Vélez desde a posse. E não só: o ministro cessante, estava no olho do furacão da guerra entre a chamada ala pragmática do governo, constituída por militares e por técnicos, e a ala ideológica, liderada pelo filósofo Olavo de Carvalho, considerado o guru do presidente e o mentor da sua nomeação.

Uma das maiores controvérsias foi a ideia de enviar uma carta a orientar todas as escolas do país a tocarem o hino nacional, a saudar a bandeira e a ler uma mensagem que terminava com a frase "o Brasil acima de tudo, Deus acima de todos", o lema de campanha de Bolsonaro. Para concluir, ainda sugeria que os professores enviassem trechos desse ritual, em vídeo, para o ministério.

No meio da chuva de críticas, Vélez teve de recuar do uso do slogan, sob a acusação de estar a enviar uma mensagem eleitoral para as escolas, o que é ilegal, e dos vídeos, uma vez que a lei também proíbe filmagens de menores.

Na sequência da crise, a ala militar e técnica responsabilizou a ala ideológica pela ideia da carta e o ministro começou a demitir ex-alunos de Olavo de Carvalho. O mestre e os alunos reagiram com violência ao que chamaram de "expurgo" e de "traição". O próprio Olavo dramatizou a situação e mandou os seus acólitos abandonarem os seus postos "o mais cedo possível e voltar à sua vida de estudos": "O presente governo está repleto de inimigos do presidente e inimigos do povo", concluiu. Acabaria por ganhar a batalha, porque quem acabou com mais baixas foi o grupo protegido pelos técnicos e pelos militares, numa novela que levou à queda, três vezes, do número dois do ministério.

O mais enfraquecido de todos no processo, porém, foi o próprio Vélez.

Já antes o ministro havia dado um tiro no pé por sua iniciativa. Em entrevista à Veja, disse que "o brasileiro, viajando, é um canibal": "Rouba coisas dos hotéis, rouba o assento salva-vidas do avião; ele acha que sai de casa e pode carregar tudo. Esse é o tipo de coisa que tem de ser revertido na escola", afirmou. A declaração caiu mal, sobretudo, tendo em conta que Vélez nasceu na Colômbia.

A polémica mais recente resultou de entrevista ao jornal Valor Econômico, no início do mês, em que Vélez afirmou que pretendia mudar a forma como o golpe de 1964 e a ditadura militar são retratados nos livros didáticos, "para dar uma visão mais ampla da história".

Antes, uma portaria do ministério anunciara que uma prova que avaliaria a alfabetização de crianças, parte do Sistema de Avaliação da Educação Básica prevista para este ano só seria efetuada em 2021.

Na internet, uma resposta contundente de uma deputada novata, Tábata Amaral, 25 anos, a Vélez em audiência no parlamento ajudou ao quadro de fragilidade do ministro.

Nascido em Bogotá e naturalizado brasileiro em 1997, o ex-ministro tem carreira académica e é autor de mais de 30 obras.

O sucessor, Abraham Weintraub, "possui ampla experiência em gestão e o conhecimento necessário para a pasta", diz Bolsonaro.

É formado em ciências económicas pela Universidade de São Paulo, mestre em administração na área de finanças pela Fundação Getúlio Vargas e passou quase toda a carreira a trabalhar no mercado financeiro até ser chamado a desempenhar a função de número dois de Onyx Lorenzoni, o ministro da Casa Civil.

Durante a fase de transição entre o governo Temer e o governo Bolsonaro comparou em palestra socialismo com SIDA e sugeriu à audiência que sempre que ouvisse um comunista ou socialista a falar que o insultasse, conforme pede Olavo de Carvalho.

Exclusivos

Premium

Espanha

Bolas de aço, berlindes, fisgas e ácido. Jovens lançaram o caos na Catalunha

Eram jovens, alguns quase adultos, outros mais adolescentes, deixaram a Catalunha em estado de sítio. Segundo a polícia, atuaram organizadamente e estavam bem treinados. José Manuel Anes, especialista português em segurança e criminalidade, acredita que pertenciam aos grupos anarquistas que têm como causa "a destruição e o caos" e não a luta independentista.