Presidenciais de 2018 no Brasil são cada vez mais assunto para outsiders

Com Temer, Lula e PSDB ocupados com a Lava-Jato, terreno para candidatos não tradicionais está facilitado. Analista acredita na formação de um novo partido, ao jeito do de Macron

Enquanto o presidente da República Michel Temer (PMDB) consome o tempo a tentar salvar o mandato e a fazer visitas de Estado pela Europa, o líder das sondagens Lula da Silva (PT) busca escapar dos processos em que é réu e os barões do PSDB empenham-se em não serem ainda mais envolvidos na Operação Lava-Jato, depois de o mais barão de todos eles, Aécio Neves, ter sido irremediavelmente atingido, os concorrentes não tradicionais vão investindo neles próprios. Com a aproximação de 8 de outubro de 2018, data das presidenciais, ganha força a tese de que dos escombros da política brasileira atual emergirá um vencedor outsider.

"Há crise sistémica nos partidos, não só no PT mas também no PSDB e no PMDB. Esse cenário é propício, mais do que à eleição de um indivíduo, à criação de uma nova formação política, um modelo inspirado no caso de Emmanuel Macron, em França", defende ao DN Dmitri Dimoulis, professor de Ciência Política da Faculdade Getúlio Vargas. "Mas o tipo de outsider brasileiro pode ser diferente de outros outsiders, como Macron, Donald Trump ou Maurício Macri, alguém que surja mais como vingança contra o sistema político, que seja contra tudo", diz por sua vez o cientista político da Faculdade Damas Elton Gomes, ouvido pelo Jornal do Commércio.

O populista de direita Jair Bolsonaro (PSC) é o caso mais evidente de outsider em ascensão. Há mais de um ano vem fazendo digressões pelos estados carentes do Nordeste onde é recebido como estrela de cinema. "Bolsonaro chega no Recife como popstar", titulou o Diário de Pernambuco. Em Teresina, capital do Piauí, o desembarque no aeroporto de Bolsomito, como também é chamado pelos acólitos, causou alvoroço sem precedentes.

O maior jornal do Brasil, o Folha de São Paulo, destacou mesmo dois enviados para acompanhar uma viagem de Bolsonaro a Natal, no Rio Grande do Norte, onde encontrou uma claque eufórica com camisas "É Melhor Jair Se Acostumando". E a maior parte dos jovens que entrevistou nos arrebatados comícios do militar definiam-se como ex-eleitores de Dilma Rousseff. Gabam a Bolsonaro "o discurso sem papas na língua", como sublinhou a estudante Marina, adepta da proposta do pré-candidato de castrar violadores.

Partidário do uso de armas, Bolsonaro defende também que as mulheres que pressintam maldade num homem usem uma pistola para se protegerem "em vez de sacar do bolso a lei do feminicídio". E, orgulhoso da farda do exército, afirma que o serviço militar ensina os recrutas a ter higiene porque é pela falta dela, lamenta, que "mil jovens por ano têm os seus pénis amputados", baseando-se, garante, em dados da Sociedade Brasileira de Urologia.

Mas nem só Bolsonaro conta espingardas. Joaquim Barbosa, ex-juiz do Supremo que precedeu Sergio Moro no coração do povo ao defender, implacável, a condenação dos réus do Mensalão em 2012, vem-se reunindo com a ecologista e terceira classificada nas duas últimas eleições Marina Silva, do Rede, para compor uma dupla de candidatos de peso a presidente e a vice. Um grupo de artistas, entre os quais Caetano Veloso, reuniu-se na casa da produtora Paula Lavigne para desafiá-lo a entrar na corrida. "Disse-lhe que se ele não concorrer e o Bolsonaro for eleito a culpa será dele", brincou Lavigne.

Entretanto, Lindbergh Farias, o senador do PT que perdeu as últimas eleições no partido para Gleisi Hoffmann, a candidata de Lula, vem mantendo reuniões com o PSOL, partido ainda mais à esquerda, e com dirigentes do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, no que foi entendido como tubo de ensaio de uma candidatura. Lula ficou "furioso", segundo a imprensa.

O esquerdista Ciro Gomes (PDT), que espera oportunidade no caso de Lula não avançar, rodeia-se de ilustres. Mangabeira Unger, ministro dos Assuntos Estratégicos no governo do ex-sindicalista e no de Dilma e professor do jovem Barack Obama em Harvard, é uma espécie de seu mandatário.

E ao liberal de direita João Doria (PSDB), outro dos fenómenos que se revelou nas cinzas da política tradicional brasileira, basta manter a agenda como prefeito de São Paulo, um dos cargos com mais visibilidade no país, para ir alimentando eventual candidatura.

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