Preços disparam na Beira e governo promete "mão dura" contra especulação

Interrupção dos transportes terrestres e inutilização de bens pelos efeitos do mau tempo usados como justificar aumento de preço, que chegam aos 500% em alguns casos. Autoridades prometem vigilância reforçada.

Aumentos de 200% nos produtos hortícolas, mudanças de valor para o dobro em produtos indispensáveis em situações de catástrofe natural, como purificadores de água, e multiplicação por seis ou sete do preço do frango - os efeitos do ciclone Idai estão a afetar o quotidiano da população da Beira que luta com a escassez de bens essenciais devido ao isolamento da cidade por via terrestre durante mais de uma semana.

Nesta terça-feira, no mercado de Maquinino, um dos mais importantes da Beira, por exemplo, o tomate, cujo preço corrente costuma correr à volta dos cem meticais (1.40 euros), estava a ser transacionado a 250 meticais (cerca de 3.5 euros). Um consumidor, ouvido pela STV moçambicana, indicava que o preço tinha vindo a subir desde a semana passada.

Uma vendedora de legumes pedia 120 meticais por uma couve quando o preço habitual, como a própria reconhecia, costuma ser entre os 60/70 meticais. Mas justificava o novo valor com a escassez de produtos frescos devido ao corte das ligações terrestres, só restabelecido no final da semana e principal fonte de abastecimento diária da segunda principal cidade de Moçambique.

De facto, além da interrupção de circulação na estrada N.6, única ligação rodoviária da Beira com o resto de Moçambique, a quase totalidade dos armazéns e silos de cereais da segunda cidade do país ficaram destruídos pelos efeitos do mau tempo. A generalidade das superfícies comerciais também sofreram danos e muitos produtos guardados pelos comerciantes ficaram inutilizados pelas cheias ou foram arrastados pela força das águas.

As ligações ferroviárias, que estiveram interrompidas desde a passagem do Idai, a 14 de março, começaram a ser restabelecidas a 19 e foram totalmente normalizadas a 22 de março.

Purificador de água ao dobro do preço

Mas não é apenas nas zonas mais afetadas pelo Idai que se fazem sentir os efeitos da especulação, Na capital, Maputo, uma das cadeias de supermercado da cidade estava a comercializar por 55 meticais um produto empregue para purificar a água e cujo preço de venda no dia anterior era de 25 meticais, escrevia nesta terça-feira o Carta de Moçambique.

O argumento invocado pelos funcionários da loja é que a procura se tinha acentuado nos dias mais recentes. Muitas pessoas estariam a adquirir o produto não só para o usarem elas próprias (Maputo também sofreu os efeitos do Idai) como para o enviarem para familiares nas zonas mais flageladas pelo ciclone, como foi o caso da província de Sofala, de que a Beira é capital.

A subida de preços generalizada dos produtos alimentares, muitos deles não perecíveis como o arroz, feijão, cebolas, batatas, pepino, gengibre, farinhas e óleo alimentar e adquiridos antes da passagem do ciclone, levou a Inspeção Nacional das Atividades Económicas (INAE) moçambicana a destacar mais equipas para a região centro do país para controlar o surto especulativo.

Em regra, de todo o cabaz de produtos antes citado, os preços conhecidos nestes dias apontam para, pelo menos, para a comercialização ao dobro do preço comum. A título de exemplo, as cebolas, que se vendem à volta dos 60 meticais estavam a ser comercializadas a mais de 150 meticais e o pepino e o gengibre, que costumam rondar os 40/50 meticais, sofreram um agravamento de mais de 100%.

Aumento de 500%

Um exemplo da especulação denunciada pela própria INAE, ao anunciar o reforço da vigilância no centro do país, é o caso do frango congelado, cujo preço passou de cerca de 200 meticais para mil meticais - um aumento de 500%.

Perante este quadro, o primeiro-ministro Carlos Agostinho do Rosário garantia na segunda-feira que o governo terá "mão dura" para com os especuladores e apelou ao sentimento de solidariedade que deve atravessar um país confrontado com uma catástrofe destas dimensões. O objetivo do governo "é desencorajar os comerciantes que se aproveitam da situação de desgraça. Não queremos isso (...) e vamos intensificar a fiscalização. Queremos que os comerciantes sejam incluídos nesse movimento de solidariedade", disse o governante moçambicano.

Por seu turno, a INAE anunciou para os próximos dias "novidades" sobre o controlo dos preços.

Abel Coelho Morais é jornalista da Plataforma