Praia, ginásios, banho turco: esquecer guerra e desemprego em Gaza

Aliviar o stress e ficar em forma leva mais pessoas a fazer exercício físico. Outros preferem um mergulho no mar

Praias brilhantes do Mediterrâneo, restaurantes caros e ginásios de luxo não são a primeira coisa que vem à mente quando se pensa na Faixa de Gaza.

Mas com as suas fronteiras vigiadas por Israel e Egito, os palestinianos que vivem num enclave conhecido pelos problemas económicos e pela guerra não têm outra alternativa a não ser aproveitarem o descanso perto de casa.

Alguns desportos estarão fora do orçamento da maior parte dos 1,9 milhões de habitantes de Gaza, especialmente porque o desemprego anda nos 42%. Mas o mar é grátis e há milhares de praias para onde fugir diariamente do calor do verão, onde reger tendas e fazer churrascos.

"Estamos fartos e este é o único sítio onde nos podemos divertir. Os outros sítios exigem dinheiro", explica Ibrahim Shweideh, um desempregado de 26 anos.

Ao fim do dia, os cafés enchem-se de homens, muitos sem emprego, que jogam às cartas e bebem café ou chá.

Os que podem pagar mensalidades que vão dos cem aos 150 shekels (22 a 35 euros) podem inscrever-se nos ginásios e clubes em número cada vez maior.

O treinador de body building Hussam Hammada, que trabalha no Super Gym, reparou no aumento de clientes desde a guerra de 2014 entre Israel e os palestinianos do Hamas, o grupo integrista que controla o território desde 2007. "Os motivos variam. Algumas pessoas têm diabetes e tensão alta, outras - e são a maior parte - querem ficar em forma e aliviar o stress", diz Hammada antes de acrescentar que só neste ano já abriram quatro ginásios novos.

Os habitantes de Gaza podem ainda viajar no tempo e ir até um hammam ou banho turco, uma atividade com mais de mil anos. "O Hammam tornou-se o destino histórico preferido das pessoas, onde podem esquecer as dores, relaxar os músculos, melhorar o humor e conviver", explica Saleem Al-Wazeer, cuja família é dona de um banho turco há mais de cem anos.

Junto à praia, vários restaurantes e hotéis de luxo atraem a população de classe média e alta, com refeições que podem chegar aos 90 shekels (20 euros). Alguns dos empregados foram treinados nas escolas de hotelaria egípcias.

As luzes dos cafés iluminam a marginal, num contraste com inúmeras zonas de Gaza onde falta a luz várias vezes ao dia devido à falta de combustível para a sua única central elétrica.

Os residentes do território - com 40 km por dez de largura - garantem que os conflitos entre Hamas e a Fatah, o movimento político do presidente palestiniano Mahmoud Abbas, no poder na Cisjordânia, são responsáveis pelas falhas de abastecimento. Os dois grupos culpam-se mutuamente.

E para os jovens desempregados que se sentam em grupos à beira da estrada ou nos jardins públicos, a boa vida é apenas um sonho. As restrições impostas por Israel e a rivalidade entre Hamas e Fatah contribuem para o destino de Gaza, afirmou um homem de 25 anos que se identificou apenas como Ashraf. Três anos depois de terminar o curso de Gestão de Empresas, continua sem emprego.

Jornalista da Reuters em Gaza

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