Pós-Brexit. Eurodeputados portugueses falam em negociação difícil

Nos corredores do Parlamento Europeu, em Estrasburgo, eurodeputados portugueses antecipam as dificuldades de chegar a acordo com o Reino Unido antes do final do prazo.

Agora que o Brexit já é uma realidade, o próximo passo é a negociação da futura relação com o Reino Unido e, nomeadamente, de um acordo comercial. Negociação que, para os eurodeputados portugueses, será difícil, com a maioria dos partidos a apostar na união entre os 27 países para demonstrar uma posição de força diante dos britânicos.

O eurodeputado socialista, Pedro Silva Pereira, considera que esta será "certamente, uma negociação difícil" e que "só no final é que saberemos se o cenário de não existir acordo foi evitado ou se está apenas adiado". Já Paulo Rangel, do PSD, fala em "áreas problemáticas", como o mercado interno ou a pesca, "onde as dificuldades vão ser muito grandes".

O calendário é apertado: o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, rejeita a ideia de pedir um alargamento do prazo de negociações, pelo que o acordo terá que ficar concluído até 31 de dezembro, correndo-se o risco de as relações comerciais passarem a ser realizadas com as regras da Organização Mundial do Comércio.

"Há uma posição de força muito grande. Para se conseguir uma negociação equilibrada e talvez a tempo, é preciso mostrar que não se tem medo de passar para uma zona de não acordo"

"Acho que a UE não se vai deixar intimidar por o prazo ser muito curto", defende Rangel. "A UE estava inicialmente a pensar fazer tudo para prolongar o prazo, o que dava a ideia de que estava numa posição de fraqueza", explica, lembrando que 47% das exportações das exportações inglesas vêm para a Europa e apenas 7 a 8% das exportações europeias vão para o Reino Unido. "Há uma posição de força muito grande. Para se conseguir uma negociação equilibrada e talvez a tempo, é preciso mostrar que não se tem medo de passar para uma zona de não acordo", indica.

Silva Pereira defende que esta negociação será feita "com a ambição de construir uma relação política e económica sólida" com o Reino Unido, sempre tendo em conta as "linhas vermelhas" europeias "isto é, com os nossos padrões de proteção social, ambiental e laboral e, sobretudo, com as condições de um comércio sem distorções da concorrência". E reitera: "O Reino Unido vai ter de aceitar essas condições se quiser ter acesso ao mercado europeu."

Nuno Melo, do CDS, defende que "a grande dificuldade num acordo europeu está na circunstância dos diferentes interesses estratégicos" dos 27 países europeus, explicando que não é o mesmo a relação entre França e Reino Unido, Portugal e o Reino Unido ou de um país de Leste com o Reino Unido.

Em relação ao facto de as negociações poderem gerar brechas dentro da UE, Silva Pereira lembra que "as posições da UE são sempre uma concertação de interesses diferentes" e que "foi possível manter uma voz unida durante todo o processo de negociação do Acordo de Saída." Na sua opinião, a UE dará uma "mensagem de unidade na negociação" porque "somos mais fortes se estivermos unidos".

"Há uma coisa que o Brexit demonstrou, e para mim com grande surpresa, devo dizer, que foi uma grande capacidade de coesão entre os 27"

Rangel também acredita que não haverá divisão, apesar de existirem interesses diferentes. "Há uma coisa que o Brexit demonstrou, e para mim com grande surpresa, devo dizer, que foi uma grande capacidade de coesão entre os 27", afirmou em Estrasburgo, deixando contudo o alerta: "É preciso ser muito sensato para acomodar os interesses dos pequenos e dos grandes, porque obviamente os dos grandes nós sabemos que estão sempre acautelados".

Nuno Melo diz que responder aos diferentes interesses "é a grande dificuldade" que Michel Barnier e a Comissão Europeus enfrentam, já que isso "quase que motiva os países a tentar parcerias bilaterais, que salvaguardem as suas circunstâncias". Na opinião do eurodeputado do CDS, "essa tentação, a seu tempo, surgirá", mesmo que para já a negociação esteja no lado da Comissão. "Veremos é se é capaz de ser um guarda-chuva para todos os interesses desta diversidade que será agora a 27"

O eurodeputado do Bloco de Esquerda, José Gusmão, alerta para o risco que representa a "inversão das prioridades" dos negociadores europeus. "A equipa negocial da UE parece hoje mais preocupada em proteger as mercadorias europeias do que os cidadãos europeus. E o que nos parece é que a margem negocial que a UE tem, que é muita, que é considerável, deve ser usada em primeira ordem de prioridade em proteger os cidadãos europeus", defendeu.

Francisco Guerreiro, do PAN, fala em "grandes dificuldades em compreender como é que se consegue fazer, num ano, um acordo tão complexo como este". Ainda assim, apesar da dificuldade, acredita que "a UE está unida, está a trabalhar no sentido de fazer uma proposta razoável para todas as partes e Michel Barnier está a fazer um trabalho de excelência". Na opinião do eurodeputado do PAN, a UE deve "continuar a falar numa voz só e não tentar começar com acordos bilaterais antes de este acordo coletivo ser negociado".

Portugal deve começar já a "salvaguardar, por via bilateral, a construção de um quadro de cooperação futura com o Reino Unido", diz o eurodeputado comunista João Ferreira

Ideia diferente defende o eurodeputado comunista, João Ferreira, que acredita que Portugal deve começar já a "salvaguardar, por via bilateral, a construção de um quadro de cooperação futura com o Reino Unido" se quer "acautelar os interesses de Portugal e da comunidade portuguesa que vive e trabalha no Reino Unido". Sempre "participando também nas negociações que decorrem ao nível da UE".

"Um dos aspetos, em nosso entender, muito negativos que a resolução que amanhã será votada tem é que procura amarrar os Estados, impedindo-os de bilateralmente construir esse quadro de cooperação", acrescenta, considerando isso "gravoso e inaceitável".

Sobre se o primeiro-ministro britânico é ou não de confiança, o socialista Silva Pereira diz que "não há razões para desconfiar" de Boris Johnson. Contudo, ele "tem de se confrontar com a realidade das coisas. Há muitas ilusões do Brexit que, simplesmente, não podem ser cumpridas".

O eurodeputado do PAN considera "belicosas" as declarações de Johnson, acreditando que "não são comprometedoras de um acordo que seja benéfico para ambas as partes" e defendendo que "ele está a tentar puxar um "hard Brexit"".

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