Portugal no Sahel. Inevitável

Análise de Raúl M. Braga Pires, politogo e arabista, sobre o envolvimento militar português no Sahel.

Inevitável por várias razões, sendo a primeira uma consequência da opção lógica pela chamada "Diplomacia Económica", a que a crise político-económica de 2011 obrigou. Novo Governo obriga sempre a novas ideias, que se querem o mais criativas possíveis e a entrada em Mercados não Tradicionais, obedece sempre a um caminho moroso e que se faz caminhando, passo a passo, fase por fase. Por isso mesmo há tropas portuguesas na República Centro Africana e a GNR também já está no Sahel a dar formação, integrado no GARSI-Sahel, o Grupo de Acção Rápida Vigilância e Intervenção.

E, por isso mesmo também, Portugal decidiu integrar a "Task-Force Takuba" (Sabre em Tamasheq), a operar no Níger e no Mali, juntamente com a França, Bélgica, Dinamarca, Estónia, Países Baixos e provavelmente Suécia, caso a proposta de participação seja aprovada no "Riksdagen", o Parlamento sueco.

A segunda razão para esta investida em terrenos porosos e desconhecidos, prende-se com a histórica competitividade que sempre tivemos em África com a França. Se estes estão sempre a tentar interferir nos nossos interesses lusófonos, chegou a hora de lhes entrarmos pelo "quintal" adentro e pela porta da frente. Assim se estabelece uma primeira base para uma projecção de força económica e comercial futura mais ampla e segura. Em África, o segredo é ter um amigo no Partido hegemónico e um General "no bolso", o que por vezes se torna ainda mais barato quando ambos são coincidentes! E, depois, há que saber tirar vantagens da relação amor-ódio entre ex-colonizado e ex-colonizador, a qual não nos é nada estranha.

Uma terceira razão, tem a ver com a necessidade que temos em ter uma voz mais forte e assertiva no seio da União Europeia (UE). Ou seja, Portugal foi dos primeiros países da UE a rejeitar por completo a proposta franco-alemã para a constituição de um Exército Único Europeu. Duas conclusões imediatas a tirar desta decisão:

- A primeira, é a de que no debate Académico sobre "Afinal o que é este bloco a que chamamos UE?", Portugal tacitamente está a dizer/assumir que se sente bastante mais confortável em fazer parte de uma Confederação, não demonstrando interesse para que seja dado o passo seguinte no sentido da constituição de uma Federação "de facto" com a consequente perda de Soberania sobre a sua/nossa Defesa. Já agora, foi por isso mesmo que se gastaram Mil Milhões de Euros em dois submarinos. Caso este mar todo à nossa frente não fosse monitorizado por nós, alguém teria que o fazer! ​- A segunda conclusão, sendo nós um Membro Fundador da NATO, reafirmamos desta forma a nossa vertente atlantista e não europeísta, mantendo o pé esquerdo em Bruxelas o direito em Washington e um olhar clínico sobre os nossos interesses em África, que agora já não se resumem apenas aos PALOP"s.

Em conclusão deste raciocínio, Portugal sai das "meias-tintas" habituais, definindo-se perante os seus parceiros sobre quem é e o que quer da Europa, deixando também claro o que estes podem esperar de nós, pelo menos no âmbito securitário.

Competências da "Task-Force Takuba"

Anunciado em finais de Março, com intenções para estar no terreno já no Verão, pretende estar completamente operacional no início de 2021 e terá como competências principais acompanhar as acções das tropas malianas na luta contra os grupos jihadistas que grassam pelo território norte do Mali. Para além deste acompanhamento, "a Takuba" terá também a função de formar e aconselhar os militares malianos (é o que está no papel), sendo que, com o decorrer do tempo é possível que este acompanhamento, formação e aconselhamento também se estenda à Força Multinacional que compõe a MINUSMA (Missão Multidimensional Integrada da Nações Unidas para a Estabilização do Mali), sobretudo constituída por tropas locais mas também do Bangladesh e do Senegal. Não se tratam de tropas menores, mas de contingentes que muito poderão beneficiar dos métodos e, sobretudo, da tecnologia usada pelos europeus. Por outro lado, os europeus também muito terão a aprender com os locais, sobre o terreno em que actuam, concretizando assim a cooperação e o paradigma dos ganhos mútuos.

Ainda sobre a MINUSMA, referir que a Força Aérea Portuguesa (FAP) também integra esta Missão das Nações Unidas e tinha prevista para Maio o envio de mais um Destacamento com um avião C-295, por 6 meses, mas cujo vírus adiou. Acrescentar também 2 Oficiais da FAP, 2 da PSP e 1 da GNR, destacados no Estado-Maior da MINUSMA em Bamako, Capital do Mali. Dito isto, Portugal não poderia ficar fora "da Takuba", pelo que confirma o seu interesse no "não tradicional" para Portugal em África.

O que não ficou claro aquando do anúncio desta iniciativa europeia/francesa, foi sob que alçada ficaria esta Força Multinacional, parecendo agora claro, já que também já está no papel, que ficará sob comando da Força Barkane, outro Actor importante na Região, já que integra mais de 5 Mil militares franceses e respectivos aparatos aéreos e terrestres. Esta definição hierárquica, deixa claro quem manda e quem define as prioridades para toda esta vasta Região de fronteiras porosas que inclui a Mauritânia, o Mali, o Burkina-Faso, o Níger e o Chade, todo um "Espaço Vital" para a França em África, que vê cada vez mais a presença portuguesa a impor-se pela porta da Cooperação Internacional.

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O Autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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