Porta-aviões dos EUA no Vietname com duplo recado para a China

Navio passou por águas reivindicadas por Pequim numa parte da Ásia marcada pelo conflito de interesses entre vários países.

A visão do USS Carl Vinson ao largo de Danang, no Vietname, é um facto histórico. Pela primeira vez desde 1975, um porta-aviões dos Estados Unidos está em águas territoriais vietnamitas, o que sucede num momento de escalada de tensões entre o Vietname e a China, devido às reivindicações territoriais deste último país no Mar da China do Sul.

A visita, que termina hoje e teve início na segunda-feira, tem uma dupla finalidade: sublinhar a importância das relações bilaterais, que comportam uma vertente económica que não tem cessado de se reforçar desde a normalização diplomática em 1995, e a convergência de interesses geoestratégicos entre Washington e Hanói numa região onde Pequim tem importantes ambições e considera águas territoriais 90% do Mar da China do Sul.

Além da China e do Vietname, também a Malásia, Taiwan, Brunei e as Filipinas têm reivindicações territoriais na mesma área. Em 2016, este último país ganhou no Tribunal Permanente de Arbitragem de Haia um caso contra a China, com aquela instituição a declarar "sem base legal" as reivindicações de Pequim. O que não foi aceite pelas autoridades chinesas, que declararam a intenção de prosseguir a construção de estruturas nos ilhéus e recifes naquele mar.

No espaço de uma década, as pequenas ilhas e recifes foram ampliados, erguidas várias estruturas na sua área, construídas pistas de aterragem, estações de radar e colocados sistemas de defesa.

O Mar da China do Sul não interessa só aos poderes regionais. É importante para a economia mundial: por aqui passa um terço do total do comércio internacional.

A presença do USS Carl Vinson mostra também que Hanói - cauteloso nas relações com a China, país que de aliado no período da Guerra do Vietname passou a adversário e com o qual travou uma breve mas sangrenta guerra (em 1979), a que se seguiram confrontos fronteiriços até início dos anos 90 - quer demonstrar uma independência de decisão face a Pequim e sublinhar a importância da relação com os EUA. No passado, outros navios de guerra americanos já visitaram portos vietnamitas, mas a presença de um elemento de projeção de força como é um porta-aviões nuclear tem uma outra dimensão. A própria escolha de Danang é duplamente significativa. É a cidade vietnamita mais próxima da área onde se situam os ilhéus e recifes reivindicados por Hanói e Pequim, sendo que num deles, o de Johnson South, nas ilhas Spratly, as tropas dos dois países enfrentaram-se, em março de 1988, numa batalha pelo controlo deste, que acabou conquistado pelas forças chinesas.

A presença do porta-aviões dos EUA em Danang tem forte simbolismo histórico - pelo que aí sucedeu no passado e pelas expectativas do que podem ser as relações bilaterais no futuro. No primeiro aspeto, foi em Danang que desembarcaram tropas americanas, pela primeira vez em março de 1965, para ajudarem o Vietname do Sul na luta contra o Vietname do Norte comunista. Foi junto desta cidade que os EUA ergueram uma das suas principais bases no Vietname do Sul. Quanto ao segundo aspeto, a visita do USS Carl Vinson e dos navios da sua escolta, que sucedeu a pedido de Washington, insere-se no quadro da Parceria Estratégica EUA-Vietname assinada em 2013, e que comporta uma vertente na área da Defesa. Em 2016, o então presidente Barack Obama visitou o Vietname e anunciou o fim do embargo de armamento a este país. Poucos meses após a tomada de posse, o presidente Donald Trump enviou uma carta ao seu homólogo vietnamita, Tran Dai Quang, a defender a intensificação da cooperação bilateral; e ainda antes da tomada de posse, falara pelo telefone com o primeiro-ministro Nguyen Xuan Phuc sobre a importância das relações comerciais. Aqui, há todavia um ponto de potencial tensão: os EUA são o principal destino das exportações vietnamitas, apresentando excedentes no valor de milhares de milhões de dólares de forma consistente. Atendendo às políticas protecionistas defendidas por Trump, as relações económicas poderão não se desenvolver ao ritmo até agora verificado. O que poderá refletir-se no relacionamento bilateral Hanói-Pequim, já que a China é o parceiro comercial mais importante do Vietname, e isso não deve sofrer alteração no futuro, com ou sem atrito de interesses nos mares.

Se a presença do USS Carl Vinson no Vietname, proveniente das Filipinas e navegando por áreas reivindicadas pela China, pretende "garantir a liberdade dos mares e a segurança regional", como explicou em comunicado o comandante do grupo de combate do porta-aviões, contra-almirante John Fuller, a esta deslocação está associada uma dimensão benevolente: a tripulação encontrou-se com vítimas dos ataques americanos com agentes químicos na década de 70 e conviveu ainda com militares vietnamitas.

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