Políticos seguem David Cameron e fazem striptease fiscal

Na sequência do caso Papéis do Panamá, primeiro-ministro britânico prometeu apertar as leis contra a evasão fiscal

Depois de David Cameron, ontem foi a vez de Jeremy Corbyn, líder dos trabalhistas, de George Osborne, ministro das Finanças, e de Boris Johnson, presidente da Câmara de Londres, revelarem as suas declarações de rendimentos.

Tudo aconteceu num dia marcado pela ida do primeiro-ministro ao Parlamento com o intuito de prestar declarações sobre o seu envolvimento no caso Papéis do Panamá.

Dirigindo-se aos deputados, David Cameron afirmou que a decisão de revelar o IRS foi necessária, mas salvaguardou que, no seu entender, não é uma regra que se deva aplicar a todos os políticos. Na opinião do chefe do Governo, pode, no entanto, haver razões de transparência para que alguns políticos o façam: o primeiro-ministro, o ministro das Finanças, o líder da oposição e o ministro sombra das Finanças.

Cameron classificou ainda como "cruéis e falsos" os comentários que nos últimos dias foram feitos sobre o seu pai (falecido em 2010). Em causa está o fundo de investimento que Ian Cameron criou em 1980, com sede no Panamá, e que - segundo o que veio a público - nunca pagou impostos no Reino Unido.

BBC e The Guardian na mira

O primeiro-ministro decidiu também desferir uma alfinetada contra a comunicação social, visando em especial os meios que têm estado na linha da frente na divulgação dos Papéis do Panamá. "Há milhões de pessoas no Reino Unido que detêm ações destes fundos através de portfólios financeiros. Basta uma análise rápida para chegarmos à conclusão que a BBC, o grupo Mirror e o The Guardian também participam neste tipo de investimentos no exterior".

Cameron anunciou ainda que tenciona "apertar a lei" de forma a combater a fuga aos impostos. Uma das hipóteses em cima da mesa é a criminalização das empresas que não forem capazes de prevenir que os seus funcionários colaborem em esquemas de evasão fiscal.

Ao mesmo que prometeu intensificar a luta à fraude, o primeiro-ministro fez questão de sublinhar que é preciso "defender o direito de as pessoas ganharem dinheiro" e acrescentou que "riqueza não é uma palavra feia".

Seguiu-se o ataque de Corbyn. Classificando Cameron como um "mestre na arte de desviar as atenções", o líder da oposição entende que quem tem mais dinheiro consegue dar a volta às leis: "Não tenho a certeza se o primeiro-ministro tem noção da raiva que as pessoas sentem lá fora. Temos uma regra para os muito ricos e outra para os restantes".

A polémica estalou no Reino Unido na semana passada quando se soube que o pai de David Cameron aparecia mencionado nos Papéis do Panamá. Depois de ter classificado o assunto como "matéria privada", o primeiro-ministro viu-se obrigado a admitir que teve ações do fundo em causa, mas que as vendeu em 2010. Alegando que nada fez de ilegal, Cameron garantiu que pagou todos os impostos devidos pelas mais-valias da transação.

Declarações postas a nu

Tentando travar a polémica, o líder do Executivo britânico revelou no domingo a sua declaração de rendimentos. A estratégia não lhe correu bem e aumentaram as acusações dos adversários políticos. Em causa passaram a estar também as 200 mil libras (250 mil euros) que o primeiro-ministro recebeu da mãe depois da morte do pai. Agora questiona-se se as transferências maternas poderão ter sido uma forma de evitar o imposto sucessório.

Dos quatro políticos que decidiram tornar públicos os seus rendimentos, Boris Johnson é o mais abastado, tendo declarado mais de 612 mil libras (aproximadamente 760 mil euros). No ano passado, o autarca londrino pagou mais em impostos - 276 mil libras (cerca de 345 mil euros) - do que a totalidade do rendimento de David Cameron, 200 mil libras (250 mil euros).

O mais modesto é Corbyn, que teve como rendimento anual 70 mil libras (88 mil euros). Osborne, ministro das Finanças, pagou 72 mil libras (90 mil euros) sobre um rendimento total de 199 mil libras (248 mil euros).

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