Polícia brasileira aperta o cerco às primeiras damas do PCC

Cynthia Giglioli, mulher do líder da maior organização criminosa da América do Sul, é acusada de lavagem de dinheiro. Advogada, casou-se na prisão com Marcola, cuja primeira mulher fora morta numa luta pelo poder dentro do grupo especializado em tráfico de drogas.

Cynthia Giglioli da Silva foi o principal alvo de uma operação de busca e apreensão da polícia de São Paulo nesta semana. Ela é a mulher de Marcos Herbas Camacho, conhecido como Marcola e líder do Primeiro Comando da Capital (PCC), a maior organização criminosa do Brasil e da América do Sul. As autoridades, que suspeitam de crimes de lavagem de dinheiro na aquisição de casas e carros de luxo, visaram sobretudo um salão de beleza, na Casa Verde, bairro de classe média na zona norte da cidade, e um apartamento no valor de perto de um milhão de euros no condomínio Alphaville, onde apreenderam dinheiro, documentos e três veículos.

Além de Cynthia, que em 2008 já fora condenada a oito anos de cadeia por formação de quadrilha e lavagem de dinheiro, também é investigada pela polícia Francisca Alves da Silva, mulher de Alejandro Juvenal Herbas Camacho Júnior, o irmão de Marcola, que é chamado de Marcolinha e também faz parte da cúpula do PCC, grupo formado nas prisões paulistas nos anos 90. Entre as nove pessoas na mira dos agentes estão ainda os pais e os tios de Cynthia, em nome dos quais está o apartamento de luxo.

Segundo reportagem do jornal Folha de São Paulo esta operação marca uma nova etapa na relação entre polícia e PCC: até então havia uma espécie de acordo tácito para inibir ações contra os familiares dos criminosos. As autoridades, sobretudo desde a posse em 2019 de João Doria como governador do estado, que declarou guerra ao PCC na campanha eleitoral, pretendem asfixiar financeiramente a organização criminosa. De acordo com as palavras, numa operação recente, do delegado Elvis Secco, coordenador-geral de repressão às drogas, armas e fações criminosas de São Paulo, "dinheiro é poder e tirando o dinheiro, você tira o poder".

Para tal montaram um complexo esquema - com cerca de cinco núcleos, 15 níveis, 52 suspeitos e 153 empresas citadas - de combate "às primeiras damas" do grupo, incluindo as mulheres de Marcola e Marcolinha, por ostentarem património imobiliário incompatível com as suas atividades.

Outras operações anteriores à que visou Cynthia, atingiram 310 familiares de criminosos, entre os quais uma senhora de 82 anos.

Cynthia Giglioli da Silva já fora notícia no início do ano por ter enviado um email ao ministério da justiça, então sob gestão do ex-juiz Sérgio Moro, a advertir para um eventual suicídio de Marcola na Papuda, prisão de Brasília onde se encontra desde 2019. "Meu marido vem há um ano relatando que está em depressão e com pensamentos suicidas, até greve de fome estava cogitando fazer e ele afirma estar sem motivação para continuar a viver", escreveu Cynthia.

"Me encontro desesperada porque já faz 15 dias que meu marido está sem visita e atendimento de advogado", continuou. "Como se encontra em isolamento total, sem nenhum contacto com o mundo externo, sem visitas, estou muito preocupada com ele... concordo com o isolamento social mas a falta de notícias é inadmissível".

Desde que chegou à capital do país, Marcola foi levado em duas ocasiões para fazer exames médicos, sob forte aparato de segurança, num hospital da cidade.

Em agosto, tornou-se réu (mais uma vez) por ter dado ordem, da prisão, para matar um promotor de justiça, conforme apurado em bilhetes intercetados pela polícia. Nesses bilhetes também era planeado o resgate de Marcola com recurso até a helicópteros.

O líder do PCC cumpre pena por formação de quadrilha, tráfico de drogas, roubo a banco, roubo à mão armada e homicídios. Os crimes somam mais de 330 anos de prisão.

Reportagem de 2016 do jornal Repórter Diário contava as rotinas das visitas aos principais líderes do PCC: a cada fim de semana ou data importante, além de cinco autocarros alugados repletos de parentes, Cynthia destacava-se por chegar num automóvel de alto padrão, guiado por um motorista particular, assim como Luciane Seixas, a mulher do também chefe Wanderson de Paula Lima, conhecido por Andinho e condenado a mais de 750 anos de cadeia, num cadastro que, impresso, ultrapassa os 50 metros de extensão.

O casamento entre Marcola e a hoje advogada Cynthia, na altura estudante de direito, foi celebrado numa cerimónia em janeiro de 2007 na prisão de segurança máxima da cidade de Presidente Bernardes. Marcola, então com 38 anos, e Cynthia, com 30, não se puderam tocar nem trocar alianças - o tradicional "sim" foi feito pelo telefone para contacto entre presos e visitas ao lado do vidro à prova de bala.

À data do casamento, de que resultaram três filhos, Marcola era viúvo.

Marcola, hoje com 52 anos, começou a carreira criminosa aos nove, idade em que ficou órfão, na cidade de Osasco, na Grande São Paulo. Viciado em cola enquanto criança, razão da sua alcunha, entrou no PCC, como tantos outros fora da lei, logo numa das primeiras detenções - o PCC foi fundado por presos, em 1993, como retaliação ao Massacre do Carandiru, quando 111 detidos desarmados foram assassinados pela polícia na cadeia com o mesmo nome, e tornou-se ao longo dos anos especializado em tráfico de droga, roubos a bancos, execuções, sequestros e rebeliões em prisões.

Inicialmente liderado por Idemir Ambrósio, o Sombra, o PCC passou para as mãos da dupla Cesinha e Geleião, com Marcola como terceiro na hierarquia, após Sombra ser espancado até à morte na prisão em 2001.

A 31 de agosto de 2002, os festejos dos nove anos da fundação da organização num bar vizinho à penitenciária de Carandiru sob o lema "paz, justiça e liberdade", marcou o início da guerra entre Cesinha, Geleião e Marcola a partir de desentendimentos entre as mulheres deles - o protagonismo das "primeiras damas" do crime vem, portanto, de longe.

A advogada Ana Olivatto, primeira mulher de Marcola, foi assassinada com dois tiros de pistola à porta de casa, em Guarulhos, nos arredores de São Paulo, por supostamente ter passado os contatos telefónicos de Cesinha e Geleião à polícia.

O autor dos disparos, segundo um retrato falado, terá sido Ceará, irmão de Neti, a mulher de Cesinha. Marcola descobriu que também Petrô, casada com Geleião, estaria por trás do crime e jurou todos de morte.

Geleião é o último fundador do PCC ainda vivo mas preso; Cesinha foi morto na prisão de Avaré com um golpe de uma lança construída a partir de uma vassoura.

Sob a liderança de Marcola, o PCC protagonizou a 12 de maio de 2006 uma onda de atentados a forças de segurança e alvos civis em seis estados causando 289 como retaliação à prisão e isolamento de líderes do grupo.

Em 2012, por mais de 30 dias um polícia, em trabalho ou de folga, foi morto em ações atribuídas ao PCC.

Nos últimos anos, a organização envolveu-se numa guerra de poder com o Comando Vermelho, grupo semelhante mas com sede no Rio de Janeiro, resultando em chacinas por penitenciárias do país.

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