Seis mortos. Nova pneumonia também já chegou a Taiwan e causa alarme

Doentes mais do que triplicaram nos últimos dias em várias cidades da China. Depois da Tailândia, do Japão e da Coreia do Sul, Taiwan regista o primeiro caso. Contágio entre humanos está confirmado. OMS convocou reunião de emergência para quarta-feira

Ascendem já a mais de 300 os casos da nova pneumonia viral surgida no final de dezembro na cidade chinesa de Wuhan e da qual já há novos casos noutras cidades da China e em mais quatro países asiáticos, incluindo Taiwan, que reportou esta terça-feira o seu primeiro caso - uma mulher que viajou da cidade de Wuhan.

A doença já alastrou à capital da China, Pequim, a Xangai e, mais a sul, a Guangdong, bem perto de Hong Kong e de Macau, e também à Coreia do Sul, para além da Tailândia e Japão. Esta terça-feira fez mais três vítimas mortais, fazendo subir o número total para seis. Os especialistas já não têm dúvidas: o contágio entre humanos é uma realidade. Resta apenas saber até que ponto é alto ou apenas moderado.

Em plena época da mais importante festividade da cultura chinesa, a do novo ano lunar, que se celebra a 25 de janeiro, e durante a qual se estima que mais de 400 milhões de pessoas viajem não só para a China, mas também no interior do seu território e para fora dele, crescem os receios de que essa mobilidade generalizada - a maior que acontece anualmente no mundo - leve ao descontrolo da situação.

O número de vítimas mortais de um novo tipo de pneumonia na China subiu esta terça-feira para seis, enquanto o número total de infetados ascendeu a 291, revelaram as autoridades. A Comissão Nacional de Saúde do país asiático indicou que o país registou 77 novos infetados esta terça-feira.

A juntar a isso, há um grande desconhecimento sobre a própria origem da doença e a sua forma transmissão, o que acrescenta ainda mais incertezas. Nesta altura, sabe-se que esta infeção pulmonar é provocada por um novo coronavírus, aparentado daquele que em 2002 e 2003 causou a epidemia que ficou conhecida por SARS, a sigla em inglês de síndrome de infeção respiratória aguda.

No início da primeira década do milénio, a SARS, que surgiu também na China, e na mesma altura das celebrações do novo ano chinês, acabou por alastrar a 26 países, infetando mais de oito mil pessoas, das quais 774 acabaram por morrer. A similaridade entre o novo coronavírus, do qual as autoridades de saúde chinesas já divulgaram uma primeira versão do genoma, e o que provocou a epidemia de SARS há quase 20 anos é, por isso, mais um motivo de grande preocupação.

Um coronavírus é um tipo de vírus que provoca infeções respiratórias em humanos e animais, em que algumas podem ser graves, como aconteceu com a SARS e parece ser o caso desta nova pneumonia, e outras causam simplesmente constipações benignas. Até agora eram conhecidos seis coronavírus capazes de infetar humanos. O da nova pneumonia é o sétimo.

Tudo indica que a fonte primordial do agente patogénico tenham sido animais vivos comercializados - embora não se saiba quais, exatamente - num mercado específico de Wuhan, uma cidade de 11 milhões de habitantes no interior da China.

Nesta altura decorrem testes para perceber qual o animal de onde provém o novo coronavírus - no mercado de Wuhan agora encerrado são tradicionalmente vendidos muitos animais vivos, desde aves de capoeira e coelhos a morcegos e cobras - mas ainda sem resultado.

Até agora as autoridades chinesas, bem como a Organização Mundial da Saúde, consideravam que o contágio entre humanos deste novo coronavírus seria, senão inexistente, pelo menos muito baixo, mas vários especialistas manifestaram receios de que não fosse assim, e o grande aumento de novos casos parece desmentir esse cenário.

Na segunda-feira Zhong Nanshan, cientista da Comissão Nacional de Saúde da China, confirmou, aliás, o contágio entre humanos, sem margem para dúvidas. "Neste momento podemos dizer que existe um fenómeno de transmissão [da doença] entre humanos", afirmou à televisão nacional CCTV, citado na AFP. A OMS já convocou, entretanto, para esta quarta-feira uma reunião de emergência para avaliar a situação.

Em Portugal a Direção-Geral de Saúde reforçou segunda-feira as recomendações que tinha emitido antes em relação às pessoas que viajem para aquela região da China para que "evitem contactos próximos com pessoas que sofram de infeções respiratórias agudas", que "lavem as mãos com frequência" e que, no caso de apresentarem sintomas de infeção respiratória, procurem atendimento clínico e reportem ao médico a viagem realizada.

Pequim, Xangai, Guangdong, o vírus alastra

Declarado o surto a 31 de dezembro, e localizada a sua fonte, o mercado foi prontamente encerrado e sujeito a desinfeção. Até à semana passada, os últimos casos identificados datavam de 3 de janeiro e por isso havia uma expectativa otimista - o contágio humano parecia inexistente ou, quando muito, baixíssimo. Até que, a 15 de janeiro surgiram dois novos casos fora da China - na Tailândia e no Japão. Os doentes tinham viajado de Wuhan, mas não tinham estado no dito mercado, o que levantava novas incertezas sobre o reduzido contágio.

Nessa mesma altura, investigadores do centro de investigação de doenças infecciosas do Imperial College de Londres divulgaram uma estimativa segundo a qual pelo menos 1723 pessoas poderiam ter sido contagiadas, só na cidade de Wuhan - e os casos começaram, efetivamente, a surgir poucos dias depois, com 136 novos casos em Wuhan, com os primeiros infetados a surgirem também (14) entre o pessoal clínico que lidou com estes doentes, o que é um novo dado a causar preocupação.

Entretanto, vários casos foram reportados também em Pequim, Xangai e Guangdong, bem como na Coreia do Sul e, pela primeira vez, o presidente chinês Xi Jinping referiu-se na segunda-feira ao surto de pneumonia de Wuhan afirmando que a segurança da população "é uma prioridade máxima" e que a epidemia "deve ser resolutamente contida".

Medidas de controlo dos viajantes nos aeroportos, estações de comboios e de autocarros das cidades onde já foram detetados casos da nova pneumonia, com rastreio de temperatura, foram implementadas com vista a isso mesmo, e as autoridades de saúde chinesas continuam convictas de que a epidemia "ainda pode ser controlada". Foi isso mesmo que afirmaram neste domingo. Resta saber se vão mesmo conseguir.

Em Macau, as autoridades anunciaram que vão verificar individualmente os passageiros provenientes de Wuhan, "por via aérea, marítima ou terrestre".

O principal conselheiro para o ministério da Saúde da Austrália, Brendan Murphy, anunciou também que o país aumentou já a triagem nos aeroportos. A Austrália recebe um número significativo de viajantes da China, e conta com três voos diretos por semana de Wuhan para Sydney. Os passageiros estão a ser recebidos por equipas médicas para avaliações, disse Murphy, citado pela imprensa australiana.

As autoridades do Ministério da Saúde do estado australiano de Queensland disseram à agência de notícias espanhola EFE que colocaram em quarentena um homem que apresentava sintomas desta doença respiratória. "Como esse homem viajou para Wuhan, passou por uma série de testes de coronavírus e permanecerá isolado até que os seus sintomas melhorem", disse um porta-voz do Ministério.

[atualizada às 10.45 com subida do número de mortos e de infetados, e às 16. 50 com o novo caso de Taiwan]

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