PMDB abandona o governo em discurso de três minutos

O até ontem maior aliado do PT entra na oposição a semanas de votar impeachment de Dilma. Executivo teme efeito dominó.

Dilma cancelou a viagem para Washington, onde participaria em reunião da Cúpula de Segurança Nuclear, para não dar já o poder a Michel Temer. Na sua ausência seria ele o presidente do país, mesmo depois de abandonar a coligação.

Sob aclamação dos militantes e gritos da plateia como "fora PT" e "Brasil para a frente, Temer presidente", o senador Romero Jucá, da direção do PMDB, precisou de apenas três minutos para anunciar ontem em Brasília que o partido deixa o governo, numa reunião transmitida em direto pelas televisões. "A mim teria bastado apenas um minuto", disse o presidente da Câmara dos Deputados e também peemedebista Eduardo Cunha, principal inimigo de Dilma Rousseff, do PT, e opositor do governo a título individual já desde julho do ano passado.

Sem o PMDB, que dispõe de 69 deputados na Câmara, torna-se mais difícil ao PT evitar o impeachment da presidente, cuja votação está prevista para meados de abril. Caso Dilma seja destituída - ou seja, não consiga pelo menos um terço dos votos dos 513 deputados -, é Michel Temer, vice-presidente da República e presidente do PMDB, quem assume até 2018, ano de novas eleições. O partido estava ao lado do PT desde a eleição de Lula da Silva, em 2003, e antes fora parceiro de coligação do PSDB nos oito anos do consulado de Fernando Henrique Cardoso.

Temer, o grande articulador da deserção, não esteve na reunião mas foram vistos por lá Jorge Picciani, presidente do maior diretório do partido, o do Rio de Janeiro, pai de Leonardo Picciani, líder parlamentar na Câmara dos Deputados e aliado, até ver, de Dilma, além de Renan Calheiros, o presidente do Senado, que era o principal pilar governista entre os barões do PMDB.

Em leilão

Jucá disse ainda que o partido proíbe a partir de agora que os seus membros ocupem cargos a nível federal - o PMDB tem sete dos 32 ministros de Dilma. Na noite da véspera, Henrique Eduardo Alves, do Turismo, demitiu-se e nas próximas horas esperam-se mais saídas. Mas há quem resista. Katia Abreu, da Agricultura, disse que, se necessário, muda de partido e fica no governo. Temer não sai porque, segundo Jucá, não foi nomeado e sim eleito.

Além dos ministros, há ainda 600 cargos nas mãos do PMDB, que o governo vai agora leiloar por partidos indecisos.

Através do deputado Afonso Florence, o PT acusa Temer de golpe: "Posava de jurista, agora é golpista". Já António Imbassahy, do PSDB, lamentou: "É melancólico ver a presidente negociar por um votinho".

O PT tentará convencer, sobretudo, PR e PP, aliados que podem, em efeito dominó, seguir o PMDB. O PP, ao que tudo indica, não sairá do governo mas dará liberdade de voto aos deputados. Do lado do PMDB, cabe demonstrar que Dilma é passado e que a deserção, o quanto antes, é o melhor caminho para garantir lugar no governo Temer.

Na complicada matemática da Câmara, a oposição precisará de uma taxa de traição de à volta de 75% dos deputados da base aliada para conseguir os 342 votos necessários e derrubar Dilma. Passada essa fase, o Senado não deverá contrariar a decisão da Câmara. O PT, pelo contrário, conta com a fidelidade de um quarto dos membros dos partidos da sua base para continuar no governo.

Num cenário de impeachment e posse de Temer, a estabilidade não volta ao país, já que corre no Tribunal Superior Eleitoral uma ação contra Dilma e seu vice por irregularidades nas contas da campanha. Ou seja, derrubada Dilma, pode cair Temer. Nesse caso, caberia a Eduardo Cunha, réu da Lava-Jato, marcar eleições num prazo de 40 dias. Eleições que agradam a Aécio Neves, candidato do PSDB derrotado em 2014, e Marina Silva, a terceira colocada nesse sufrágio e que lidera hoje as sondagens como candidata da Rede Sustentabilidade. "Temer na presidência provocaria um bololô [confusão]", disse a ecologista no sábado à noite no Programa do Jô.

São Paulo

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