Piratas triplicam deputados e podem entrar em geringonça à islandesa

Partido da Independência venceu e ficou muito próximo do Partido dos Piratas e seus aliados. Mas como ninguém conseguiu a maioria absoluta de deputados é preciso agora negociar

O Partido dos Piratas não foi o mais votado das eleições legislativas islandesas de domingo. Mas a formação triplicou o seu número de deputados e caso o partido vencedor, o da Independência, não consiga uma coligação para governar, os Piratas e seus aliados de esquerda poderão tentar a sorte, numa espécie de geringonça à islandesa. "É um sucesso épico! Existem muitas possibilidades de coligação, temos muito trabalho pela frente", declarou, no Twitter, Smari McCarthy, um dos dirigentes dos piratas. A líder do partido, Birgitta Jonsdottir, ex-membro da WikiLeaks, festejou o resultado das eleições com os seus apoiantes e não escondeu o seu entusiasmo.

Com nenhum partido a ter conseguido a maioria absoluta dos 63 deputados no Althing, o presidente islandês Gudni Johannesson irá agora entregar o mandato a um partido para que tente formar governo. Essa formação será o Partido da Independência, que elegeu 21 deputados. Vozes do partido já indicaram que irão aceitar esse mandato do presidente. "Somos os que temos mais apoio... então eu diria que sim", declarou o líder do Partido da Independência Bjarni Benediktsson. O também ministro das Finanças islandês, que foi citado pela Reuters, disse preferir formar uma coligação de pelo menos três partidos, mas não especificou quais.

O Partido Progressista, aliado do Partido da Independência na coligação que agora cessa funções, sofreu um duro revés eleitoral, passando de 19 para 8 deputados. Este era o partido de Sigmundur Davíð Gunnlaugsson, que foi forçado a demitir-se do cargo de primeiro-ministro em abril este ano, após ver o seu nome envolvido no escândalo dos Papéis do Panamá. Porém, também o líder do Partido da Independência tem o seu nome envolvido nos documentos divulgados em abril deste ano, que listam milhares de detentores de contas offshore em todo o mundo.

Nas eleições de domingo, os Piratas e os seus parceiros de coligação totalizaram 27 deputados, que apesar de ser mais do que os 21 do Partido Independência não chega à maioria absoluta de 32. Assim, o partido liderado por Birgitta Jonsdottir teve 10 eleitos, a Esquerda--Verdes obteve outros 10, os sociais-democratas tiveram três e os centristas do Futuro Brilhante conseguiram quatro. Com os partidos do establishment a totalizar 29 deputados e os de centro-esquerda 27 o desempate pode estar nas mãos dos liberais do Renascimento, que elegeram sete deputados. Segundo o New York Times, o partido tinha rejeitado juntar-se a uma coligação com os partidos no poder, o que poderia aumentar as hipóteses de uma coligação de centro-esquerda com os Piratas e aliados.

Comentando os resultados, Birgitta Jonsdottir disse que os votos conseguidos estavam mais ou menos dentro das suas previsões. "O que quer que aconteça, criámos uma onda de mudança na sociedade islandesa", declarou no domingo à noite a uma multidão em festa com o desfecho das eleições. Grande parte dos apoiantes dos Piratas, cerca de 40%, têm menos de 30 anos de idade. Muitos têm a esperança de que se o partido conseguir chegar ao governo possa implementar uma democracia mais direta e transparente, fazendo nomeadamente aprovar a Constituição que foi redigida pelos cidadãos islandeses mas que foi bloqueada pelo Parlamento em 2013.

"O Partido dos Piratas teve realmente uma grande vitória, embora tenha falhado em ultrapassar o Partido da Independência. Apesar de tudo eles serão um interveniente muito importante ao longo da próxima legislatura, a qual poderá não durar muito tempo. Na verdade eles gostariam que isso viesse a acontecer", disse ontem, ao DN, Ragnheiður Kristjánsdóttir, professora da Universidade da Islândia. Sobre eventuais coligações, a especialista diz que a hipótese mais provável é de uma aliança de direita "entre o Partido da Independência, o Renascimento e talvez o centrista Futuro Brilhante".

Ilha do Atlântico Norte, a Islândia foi fortemente atingida pela crise financeira de 2008, tendo declarado falência e sido obrigada a nacionalizar três bancos. As manifestações contra o governo da altura multiplicaram-se e o então primeiro-ministro, Geir Haarde, do Partido da Independência, demitiu-se com o seu governo. Foi depois levado a tribunal, tornando-se o primeiro primeiro-ministro a nível mundial a sentar-se no banco dos réus por má gestão. Em 2012 foi declarado culpado de negligência mas a sentença não implicou pena e as custas judiciais acabaram por ser pagas pelo Estado. Haarde, tal como Gunnlaugsson em abril, foi vítima da fúria de uma sociedade que exige ser respeitada pelos seus governantes. E se com os primeiros-ministros foi assim, com os banqueiros não foi diferente: 29 tinham ido já parar à cadeia até maio deste ano. No auge da crise, o país, com 325 mil habitantes, chegou para a pedir para aderir à UE, mas mais tarde, face à recuperação, acabou por retirar o pedido. Entre as razões mais apontadas pelo pequeno país rico em vulcões, como o Eyjafjallajökull (que em 2010 deixou paralisada a Europa), está a exigente política de pescas da UE e as suas respetivas quotas. O motivo é simples de explicar: as pescas representam 11% do PIB da Islândia.

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