Pastor quer ser vice de Bolsonaro no lugar do General Mourão

Se o presidente se recandidatar em 2022, o militar pode ser substituído pelo evangélico que defende a cura gay e acredita que John Lennon morreu porque ofendeu Jesus.

Ao falar pela primeira vez em recandidatura, no último dia 20 de junho, Jair Bolsonaro fez todos os pré-candidatos à presidência, da direita à esquerda, analisarem os prós e os contras, movimentarem estruturas, contarem espingardas, enfim, inquietarem-se. E os pré-candidatos a vice-presidente também. Marco Feliciano, pastor evangélico de 46 anos, disponibilizou-se imediatamente para concorrer ao lado do capitão reformado no lugar do general Hamilton Mourão, atual número dois do estado brasileiro.

"Todos sabemos que o vice-presidente Mourão se indispôs com o presidente. Por isso eu digo que, em 2022, Bolsonaro terá um vice-presidente evangélico", afirmou, estimulado pela coincidência, ou talvez não, do presidente da República se ter referido aos seus planos em 2002 precisamente durante a Marcha para Jesus, evento evangélico em São Paulo.

Mas evangélicos há muitos, incluindo Magno Malta, o vocalista de banda gospel que Bolsonaro quis como seu vice em 2018. Para Feliciano, no entanto, nenhum evangélico reúne as condições que ele próprio reúne: "A dificuldade é obter um nome que una todas as correntes, como Assembleia de Deus, IURD, Batista, Quadrangular e se não temos um nome que converge todas as igrejas evangélicas, não tenho dúvidas de que tem de ser um nome que transite em todas elas, e eu não vejo quem faz isso hoje melhor do que eu", concluiu, citado pela revista Época.

"Só de evangélicos no País são 60 milhões. Seria uma união [Bolsonaro e ele] dos sonhos", disse, entretanto, ao jornal O Estado de S. Paulo. Os passos de Feliciano rumo à vice-presidência não são de hoje e não têm sido discretos: desde março vem visitando o Planalto e viajando ao lado do presidente; e em abril até protocolou impeachment de Mourão, a quem acusa de traição.

Pastor evangélico neo-pentecostal, fundador da igreja Catedral do Avivamento, um dos recordistas de votos no estado de São Paulo, Feliciano tornou-se notado a nível nacional quando, apesar do seu perfil ultra-conservador e intolerante, foi eleito presidente da Comissão dos Direitos Humanos e Minorias na Câmara dos Deputados em 2013.

Feliciano disse um dia que homossexuais não deviam usar crucifixos - "o meu Jesus não foi feito para ser enfeite de pescoço de gay, lésbica e pederasta" -, que Caetano Veloso usou "forças marginais" nas suas composições, que Lady Gaga é possuída "pelo diabo", que os membros do grupo rock brasileiro Mamonas Assassinas morreram num acidente aéreo porque os anjos mexeram no volante do avião e que os tiros que John Lennon levou foram "em nome do pai, do filho e do Espírito Santo" por um dia o músico ter dito que os Beatles eram mais famosos do que Jesus Cristo.

Ao DN, em 2015, Feliciano queixava-se de muita vezes ser descontextualizado: "Há gente a beneficiar-se da má interpretação que dão às minhas palavras: essas palavras que usaram sobre o Lennon, por exemplo, foram ditas quando eu tinha 20 anos, hoje, amadurecido, falaria a mesma coisa mas com palavras mais equilibradas, há muitas formas de dizer as coisas e o jovem escolhe sempre ir pelos atalhos".

"É como em relação à bíblia, dizem que a li 80 vezes mas a verdade é que só li 30 vezes da capa à contra capa, talvez um dia chegue às 80, para já não", riu-se.

Com mansão e coleção de carros fruto do rendimento dos seus cultos, como revelou reportagem do jornal O Globo, Feliciano nasceu pobre, em Orlândia, 400 quilómetros a norte de São Paulo. "Sou fruto de uma relação adúltera do meu pai com a minha mãe, que vivia abaixo da linha da pobreza, na pré-adolescência trabalhei na lavoura, no corte de cana-de-açúcar, laranja, algodão e café", contou ao DN naquela ocasião. "Fui também coroínha [sacristão] da igreja católica mas aos 13 anos converti-me à fé protestante-evangélica-pentecostal e desde o primeiro culto a que assisti disse para comigo "serei pastor"!".

Aos 26 anos concretizou o sonho, aos 27 tornou-se "doutor em divindade nos EUA" e hoje tem 14 filiais da sua igreja espalhadas pelo Brasil. Portugal pode ser o passo seguinte. "Amo Portugal, meu pai biológico era lisboeta, ministrei a palavra do Algarve até Aveiro, passei por Lisboa, Coimbra e Setúbal, prefiro que se abra uma igreja a que se abra um ponto de trafico de droga, logo, quem sabe se um dia, se Deus confirmar, não abrirei uma igreja em Portugal também?".

A eventual ascensão de um evangélico à vice-presidência no lugar de um militar indica que Bolsonaro, que vem falando também em colocar um protestante como juiz do Supremo Tribunal Federal, já valoriza mais a fé do que o quartel no seu governo. Para tal, contribuiu a relação conturbada com Mourão.

O vice recebeu no seu gabinete jornalistas alvo do ódio de Bolsonaro, dos seus filhos e do restante círculo íntimo do presidente e foi simpatico à ideia de que Lula da Silva, do PT, fosse autorizado a sair da prisão para ir ao enterro do irmão mais velho.

Aliás, logo após ser conhecida a decisão do deputado do PSOL Jean Wyllys de não aceitar o cargo de deputado e de optar por morar no estrangeiro (Espanha) em virtude das ameaças de morte recebidas, Mourão disse que "ameaçar parlamentares é um crime contra a democracia", apesar de Bolsonaro e um dos seus filhos, Carlos Bolsonaro, se terem regozijado pelas redes sociais pela partida de Wyllys.

Mourão defendeu ainda em entrevista que a flexibilização da posse de arma, menina dos olhos de Bolsonaro, não surtia efeito contra a violência e recebeu representantes árabes para lhes desmentir a promessa presidencial ao primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu de mudar a embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém.

Sobre o caso de corrupção envolvendo o filho do presidente e senador eleito Flávio Bolsonaro foi contundente: "a lei é para todos" e "deve-se apurar e punir", disse.

Na sequência destas atitudes e ainda antes de Feliciano se posicionar, Carlos Bolsonaro e o ideólogo da extrema-direita brasileira Olavo de Carvalho têm atacado Mourão com veemência.

"Qual foi a última contribuição das escolas militares para a alta cultura nacional? As obras do Euclides da Cunha. Depois foi só cabelo pintado e voz empostada [indireta a Mourão]", disse Olavo. "Só cagada. Esse pessoal [os militares] subiu ao poder em 1964, destruiu os políticos de direita e sobrou o quê? Os comunistas, que tomaram o poder. Eles dizem: "Livramos o país dos comunistas". Não, eles entregaram o país ao comunismo. Se tivessem vergonha na cara, confessariam seu erro, mas é só vaidade pessoal, vaidade grupal e vaidade esotérica. Os milicos [calão para militares] têm que começar a confessar os seus erros. Essa é a lei de Cristo. Primeiro, os seus pecados. Depois, os dos outros. Criaram o PT e não têm coragem de confessar", concluiu o guru de Bolsonaro, no que pode ser entendido como o mote para o presidente mudar a agulha dos militares para os evangélicos.

A relação dos presidentes e dos vice-presidentes brasileiros tem história rica desde o regresso da democracia ao país, em 1985. Desde logo, o "vice" José Sarney assumiu a presidência, dada a morte, dias antes da posse, do eleito pelo Congresso Tancredo Neves. O primeiro eleito pelo povo, Collor de Mello, em 1989, foi substituído, após impeachment, pelo seu número dois, Itamar Franco. Em 2016, Michel Temer assumiu a presidência, após a queda, também por impeachment de Dilma Rousseff.