Partidos mudam de nome por desgaste na Lava-Jato

PMDB voltou desde ontem a chamar-se MDB, para refrescar imagem. Noutros casos, ideia é usar slogans como nomes próprios

O momento do dia na convenção do Partido do Movimento da Democracia Brasileira (PMDB), realizada na terça-feira em Brasília, foi a subida de Michel Temer ao púlpito. Não porque o presidente da República tenha feito um anúncio extraordinário, mas porque foi benzido pelo babalorixá Pai Uzêda, da religião afro-brasileira Candomblé, que o sentiu "alvo de muito vodu". O evento insólito quase esvaziou o mote da convenção: a mudança de nome do partido, de PMDB para apenas MDB.

Mas Romero Jucá, presidente do partido - ou melhor, do movimento -, e primeiro dos ministros de Temer a ser demitido, em junho de 2016 por obstrução à justiça, publicou um artigo na edição de ontem do jornal Folha de S. Paulo, para não deixar cair o assunto: "O regresso da sigla MDB será bem mais do que uma mudança de nome (...), criaremos um compliance que analisará todos os métodos financeiros; isso vai garantir transparência."

Criado em 1966, o PMDB funcionou como oposição ao regime militar sob o nome MDB e a liderança de Ulysses Guimarães, Tancredo Neves e outros. Só em 1979, por exigência dos militares, passou a ter o P. Especialista, já em democracia, em usar a sua influência em troca de cargos e orçamentos nos sucessivos governos, o PMDB germinou nova casta de políticos - como Temer e Jucá e também José Sarney ou Renan Calheiros - alvo permanente dos tribunais, em particular, da Operação Lava-Jato. Foi nesse contexto que sentiu necessidade de se rebatizar.

"Mas o que menos importa para os eleitores são as mudanças de nome", disse ao portal G1 o cientista político Roberto Romano. "De que adianta mudar de nome, se não mudam os atores?", comentou ao jornal O Dia o colunista do site Congresso em Foco Antônio Queiroz. "O principal motivo é escamotear o desgaste das siglas, como os partidos perderam a ideologia há muito tempo, isto é só uma renovação de marca", sublinhou Carlos Manhanelli, especialista em marketing político, a O Estado de S. Paulo.

Os três observadores não se referiam só ao "novo" MDB: em causa, o surgimento em massa de slogans em vez de siglas, como Avante, no lugar de PTdoB, Patriota, no lugar de PEN, ou Livres, no lugar de PSL. Em entrevista em junho ao DN, Renata Abreu, líder do antigo Partido Trabalhista Nacional, hoje Podemos, dizia que se identificava com o homónimo espanhol "mas não na ideologia, apenas na forma de comunicação com as pessoas, porque hoje não há direita ou esquerda, há causas debatidas a cada instante nas redes sociais".

De facto, embora a Lava-Jato, ao investigar, condenar e prender membros de quase todos os partidos, seja considerada o principal motivo para as mudanças, também experiências estrangeiras bem-sucedidas no passado recente, como o citado Podemos, o En Marche! francês ou o Movimento 5 Estrelas italiano serviram de inspiração aos políticos - ou publicitários - brasileiros.

"Mas os métodos serão sempre os mesmos, do tempo de Sarney aos de agora, com Temer", reforçou Roberto Romano. Sarney que, tal como o atual presidente que abriu terça-feira os braços para ser abençoado pelas folhas de guiné do Pai Uzêda, se benzia com frequência com o Mestre Bita do Barão do Guaré, babalorixá renomado do Maranhão.

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