Partido dos Piratas está muito perto de conquistar a terra do gelo

O Partido da Independência, no poder, e a força liderada por Birgitta Jónsdóttir são os favoritos dos islandeses para as eleições legislativas de hoje. A ex-porta-voz da WikiLeaks diz não estar interessada em ser primeira-ministra

O Partido dos Piratas é um fenómeno de popularidade na cena política da Islândia, facto que surpreende a própria líder da formação política, Birgitta Jónsdóttir. Na sua estreia eleitoral, nas legislativas de 2013, tornaram-se na sexta maior presença no Parlamento, com três deputados. Os islandeses voltam hoje às urnas e, de acordo com as sondagens, poderão ser o segundo partido mais votado... ou até mesmo ganhar as eleições.

Uma sondagem da MMR-Market and Media Research divulgada ontem mostra que, neste momento, o Partido da Independência, atualmente no poder, está ligeiramente à frente das intenções de voto, com 24,7%, seguida do Partido dos Piratas, com 20,5%. Mas estes dados não são indicadores claros de quem vencerá as eleições legislativas antecipadas de hoje - a sondagem da Háskóli Íslands publicitada na segunda-feira e que dava a liderança da preferências dos islandeses aos piratas, com 22,6% das intenções de voto. Esta tendência de alternância entre os dois partidos tem sido uma constante ao longo dos últimos três anos de sondagens.

"Nem pensar", disse esta semana ao The Washington Post Birgitta Jónsdóttir, de 49 anos, quando questionada sobre se alguma vez pensou ver o seu partido a governar o país apenas quatro anos depois de ter sido fundado. Não se definem como sendo de esquerda ou direita, mas um movimento radical que mistura o melhor dos dois campos políticos. São também o mais proeminente dos Partidos dos Piratas existentes, da Suécia ao Reino Unido, passando pela Áustria e Estados Unidos.

Jónsdóttir é a líder e um dos três deputados eleitos pelo Partido dos Piratas nas legislativas de 2013. Poeta, programadora web e antiga ativista e porta-voz da WikiLeaks acredita que esta eleição pode ser o começo de um reiniciar que a democracia ocidental tanto precisa.

"As pessoas querem mudanças reais e percebem que temos de mudar os sistemas, temos de modernizar a forma como fazemos as leis", declarou na mesma entrevista. "Não queremos saber de onde vêm as políticas, não queremos saber se vêm do partido do governo, da oposição, ou se são nossas. Queremos inspirar os outros a juntarem-se a nós, mas queremos apoiar coisas boas seja lá de onde vêm", acrescentou.

"As pessoas estão zangadas e frustradas. Na cabeça de muitos eleitores, os Piratas são o único partido imaculado, e com isso ela ganha autoridade. Ela tem sido o rosto da oposição desde a crise financeira", declarou na semana passada à revista norte-americana The Nation Karl Blöndal, diretor adjunto do jornal islandês Morgunbladid.

O ponto central da campanha do Partido dos Piratas para a eleição parlamentar de hoje é a promulgação de uma nova Constituição - o texto foi concebido no rescaldo da crise económica por cerca de mil islandeses escolhidos aleatoriamente e escrito por um comité jurídico. Inclui normas para renacionalizar indústrias baseadas em recursos naturais e institui mecanismos para uma governação cívica. Em 2012, num referendo não vinculativo, 66% dos islandeses aprovaram o documento, mas o projeto nunca foi para a frente.

Sobre a adesão da Islândia à União Europeia, a líder dos piratas islandeses afirma que o importante é "confiar na nação" e não coloca de parte a realização de um referendo sobre o assunto. "Mas é muito importante que se fizermos um referendo como este não façamos os mesmos erros que ocorreram no Reino Unido. Temos de garantir que será uma campanha informativa", sublinhou ao The Washington Post.

Uma Islândia governada pelo Partido dos Piratas será também a Islândia que receberá Edward Snowden de braços abertos. "Disse-lhe a ele e ao advogado dele que ele deveria pedir a nacionalidade, porque aqui há mais proteções contra uma extradição para cidadãos islandeses do que para quem pediu asilo. É nossa política, como partido, conceder-lhe nacionalidade, se ele a pedir", disse ao mesmo jornal.

Caso o Partido dos Piratas ganhe as eleições de hoje, uma coisa é certa: Birgitta Jónsdóttir não quer ser primeira-ministra. O desejo da antiga porta-voz da WikiLeaks é ser presidente do Althing, o Parlamento da Islândia. Um cargo que, diz, lhe permitiria voltar a dar poder à legislatura, ou seja, aproximar a política dos cidadãos, uma das causas dos piratas.

Do seu gabinete no Althing - decorado com um cartaz que diz Free Bradley Manning, uma foto do Dalai Lama e uma bandeira preta dos piratas - Jónsdóttir adiantou à The Nation mais um plano para o seu futuro. "Não estarei aqui daqui a quatro anos", garantiu, caso não consiga levar a cabo reformas estruturais no seu próximo mandato como deputada.

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