Para Macron e Le Pen o futuro começa hoje

A economia é a prioridade do novo presidente, mas as legislativas, em junho, são o primeiro desafio a Macron. A escolha do primeiro-ministro será outro momento crucial para o líder que quer uma França mais forte na Europa. Derrotada, a líder da Frente Nacional aposta tudo também nas legislativas.

O QUE ESPERA O PRESIDENTE

Maioria de governo entre caras novas e experiência

Depois da festa ontem à noite, hoje é dia de trabalho para Emmanuel Macron. O novo presidente francês tem um mês para preparar as legislativas - primeira volta a 11 de junho, segunda a 18. A primeira tarefa é escolher o primeiro-ministro. Macron diz já ter um nome na cabeça, mas homem ou mulher, de esquerda, direita ou centro, o futuro chefe do governo terá de conseguir o difícil equilíbrio entre renovação e experiência. Será ele (ou ela) a planear a estratégia do presidente para umas legislativas inéditas, com o En Marche! a estrear-se, os partidos tradicionais - PS e Os Republicanos - em crise e uma Frente Nacional a querer afirmar-se na Assembleia. Resta saber qual a solução de Macron para garantir a governabilidade de França. E o governo paritário que prometeu.

Recuperar a economia e baixar o desemprego

Baixar os impostos para as empresas para fomentar a competitividade. Essa é uma das grandes propostas de Macron, tendo ainda previsto um plano de investimentos de 50 mil milhões de euros. Ex-ministro da Economia, ex-banqueiro, o novo presidente propõe ainda reduzir 120 mil funcionários públicos nos próximos cinco anos e cortar nas despesas do Estado. Com mais desempregados hoje - a taxa anda nos 9,7% - do que em 2012, quando Hollande foi eleito, esse é um dos maiores desafios para o novo presidente, que prevê alargar o subsídio de desemprego a trabalhadores independentes e aos funcionários que apresentem a demissão. Macron pretende manter a idade da reforma nos 62 anos, garantindo que baixar para 60 anos seria insustentável.

Garantir lugar da França na Europae no mundo

No debate, Macron resumia a sua posição em relação à Europa a "é tudo o contrário do que a senhora Le Pen disse". Europeísta convicto, o novo presidente visitou duas vezes Berlim durante a campanha, deixando adivinhar o seu empenho num eixo franco-alemão forte, numa Europa confrontada com o desafio do brexit. O novo presidente francês tem planos para uma grande reforma da zona euro, com a criação de um parlamento dos países que têm a moeda comum, com um ministro da Economia e das Finanças da zona euro. Além disso, defende a criação de um Conselho de Segurança europeu e de um Fundo Europeu de Defesa. Ou seja, uma Europa mais forte com a França a recuperar uma liderança que nos últimos anos foi da Alemanha.

O QUE ESPERA A LÍDER DA FRENTE NACIONAL

Uma Frente Nacional forte na Assembleia

Apesar de ter obtido 13,6%, que corresponderam a 3,5 milhões de votos, nas legislativas de 2012, a Frente Nacional só elegeu dois deputados: Gilbert Collard e Marion Maréchal-Le Pen, a sobrinha de Marine. Agora, a líder do partido de extrema-direita acredita que com as formações tradicionais em crise - sobretudo o PS - pode derrotar um sistema a duas voltas em que as desistências entre candidatos na segunda a prejudica. E entrar em força na Assembleia nas legislativas. Com Marine a vencer em 216 das 577 circunscrições na primeira volta das presidenciais, alguns analistas calculam que a FN possa chegar aos 40 deputados. Mas o grande receio de Le Pen é que se repita o fenómeno de 2002, quando na segunda volta das legislativas a FN teve 1,85% dos votos.

Calar críticas no partido e manter-se incontestada

Temporariamente suspensa das funções de líder da Frente Nacional, Marine Le Pen vai com certeza reassumir as rédeas do partido que o pai fundou nos anos 1970. Se os resultados das legislativas forem bons, é provável que continue a presidente incontestada do partido de extrema-direita. Mas se não forem, as poucas vozes críticas no interior da formação podem ganhar força. Depois da sua prestação no debate, Marine Le Pen foi criticada por alguns responsáveis do seu partido, em particular Julien Rochedy, o líder da juventude da FN. Mas as críticas mais fortes têm-se centrado no homem de confiança de Le Pen: Florian Philippot. Num partido familiar, uma ameaça a médio/longo prazo ao domínio de Marine pode vir da família: a sobrinha Marion Maréchal-Le Pen.

Ganhar balanço para nova tentativa em 2022

François Mitterrand só à terceira tentativa conseguiu ser eleito presidente da República. O mesmo número de tentativas que Jacques Chirac precisou para chegar ao Eliseu. Já Jean-Marie Le Pen tentou a sua sorte quatro vezes, duas antes e uma depois de deixar a França em choque ao passar à segunda volta em 2002. Não seria portanto de espantar se depois da derrota de ontem Marine Le Pen, que já fora candidata em 2012, fizesse uma terceira tentativa em 2022. Na altura terá 53 anos, não sendo a idade um problema. Resta saber se a líder da Frente Nacional consegue manter a ascensão dos últimos anos, com o partido de extrema-direita a conquistar cada vez mais votos ou se, apesar dos seus esforços para desdiabolizar o discurso do pai, esbarra de novo na frente republicana.

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