Papa anda de Honda por Nairobi antes de visita a bairro de lata

Para residentes de Kangemi, a ida de Francisco mostra que "não são esquecidos".

Antes de apanhar o avião para o Uganda, o Papa Francisco vai esta manhã ao bairro de lata de Kangemi, em Nairobi. Uma imensidão de barracas onde vivem mais de cem mil pessoas, de várias etnias e religiões. Uma delas é Melchiorre Marandu, padre jesuíta que em declarações à rádio do Vaticano explicou como a visita do Papa simboliza o seu "compromisso com os menos privilegiados". E contou que a vinda do argentino trouxe "muita alegria" aos residentes que assim sentem que "não são esquecidos".

Apontado como um exemplo de simplicidade - uma das suas primeiras ações como Papa foi ir pagar a conta do hotel onde ficara hospedado em Roma e recusou o apartamento papal, preferindo ficar a viver na Casa de Santa Marta -, Francisco voltou no Quénia a mostrar-se fiel a si próprio. Num país onde o presidente Uhuru Kenyatta se desloca em carros blindados e de vidros fumados, o Papa apostou num modesto Honda de 14 mil euros. E já junto ao estádio da Universidade de Nairobi, onde ia dizer a sua primeira missa ao ar livre da viagem, foi de um papamóvel sem vidros que saudou a multidão, apesar da chuva forte que caía e enlameava o relvado.

Uma atitude que os internautas quenianos não deixaram de saudar. "Os políticos que roubam chegam nos seus SUV e Mercedes para ouvir o papa que chegou de Honda. Líderes sem vergonha", escreveu no Twitter o utilizador Kunj Shah.

Já em cima do palco e diante de uma assistência que cantava, gritava e ululava, o Papa voltou a apelar ao diálogo entre religiões. "Demasiadas vezes, os jovens são radicalizados em nome da religião para alimentar a discórdia e o medo, destruindo o tecido das nossas sociedades", afirmou Francisco.

A missa incluiu ainda a leitura de orações por alguns líderes tribais, cujos trajes tradicionais coloridos contrastavam com o branco das vestes papais. Na sua homilia, Francisco apelou aos fiéis para "resistirem a práticas que promovam a arrogância nos homens". Uma referência pouco velada aos escândalos de corrupção que têm vindo a abalar o Quénia. O presidente Kenyatta, que assistiu à missa, remodelou o governo esta semana após vários ministros se terem visto envolvidos em suspeitas de terem aceite subornos.

Num encontro pouco depois com líderes de várias religiões, o líder da Igreja Católica recordou ainda que "o diálogo antirreligioso não é um luxo. Não é opcional, mas sim essencial". E sublinhou que o nome de Deus "nunca pode ser usado para justificar o ódio e a violência".

Uma mensagem de tolerância num país onde 80% da população é cristã (30% católicos, como é o caso do presidente Kenyatta) e que tem sido alvo frequente das milícias somalis al-Shabaab, que mataram milhares de pessoas nos últimos dois anos. Um dos piores foi o ataque a um centro comercial de Nairobi, onde morreram 67 pessoas. Antes de disparar, os atacantes perguntaram a religião das vítimas, poupando os muçulmanos.

Ambiente

Na véspera da partida para o Uganda, onde chega hoje ao fim do dia, encontrando-se com o presidente Yoweri Museveni, o Papa plantou uma árvore no parque junto ao edifício das Nações Unidas em Nairobi. No interior, aproveitou mais um discurso - desta vez em espanhol - para sublinhar a necessidade de os líderes mundiais conseguirem chegar a um acordo na Cimeira do Clima, que começa no dia 30 em Paris. E sublinhou que seria "catastrófico" se os interesses particulares prevalecessem sobre o bem comum. Proteger a "criação de Deus" é uma das prioridades do pontificado de Francisco, que em junho divulgou uma encíclica que apela a uma ação urgente para salvar o planeta.

O Papa exigiu que se aja contra a caça furtiva e a exploração ilegal de recursos minerais em África. Francisco defendeu um "novo sistema de energia" que reduza os combustíveis fósseis ao mínimo e que se repense "o atual modelo de desenvolvimento". A comunidade internacional precisa de "ouvir o grito que sobe da humanidade e do interior da própria Terra".

Esperança sem ilusões

Na República Centro Africana, última etapa desta visita papal a África, o sentimento reinante entre fiéis é de esperança. Mas ninguém parece ter muitas ilusões que a presença do Papa venha pôr fim à violência religiosa no país. "Ele não vem cá para julgar as pessoas. Pessoalmente acho que podemos tentar beneficiar dos seus conselhos", afirmou à Reuters Ahmadou Tidjane Moussa, imã da mesquita PK5.

Nos últimos três anos, a antiga colónia francesa foi palco de violentos combates entre rebeldes muçulmanos da Seleka e as milícias cristãs anti-balaka, que fizeram mais de seis mil mortos. Um sinal positivo em relação à visita de Francisco é que até as Seleka já manifestaram apoio público à vinda do Papa.

De fora da agenda de Francisco deverão ficar assuntos como os direitos dos gays ou a contraceção. É que se o Papa argentino tem mostrado alguma abertura nestas áreas, a posição oficial da igreja católica não mudou.

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