"Pactos serão tão ou mais difíceis do que antes. A diferença é que não pode haver terceiras eleições"

Entrevista a Javier Zarzalejos, secretário-geral da FAES (Fundação para a Análise e Estudos Sociais) e ex-braço-direito de José Maria Aznar na Moncloa. Esteve em Lisboa a falar de eleições espanholas no IDL-Instituto Amaro da Costa

Seis meses depois, os espanhóis preparam-se para ir novamente às urnas. De quem foi a culpa por não ter sido possível formar governo após 20 de dezembro?

É um exercício bastante estéril estar agora a pensar de quem foi a culpa, isso serão os eleitores a dizer. O importante agora é saber que estas eleições não vão versar sobre grandes questões ideológicas, mas sobre as possibilidades de formar governo e qual é a fórmula que vai permitir governar Espanha.

Mas foi isso que falhou. Ninguém conseguiu chegar a essa fórmula, mesmo o acordo entre Pedro Sánchez (PSOE) e Albert Rivera (Ciudadanos) não foi suficiente. O que pode mudar agora?

Penso que tanto Sánchez como Rivera mostraram uma fraca capacidade de compromisso e de pacto com quem podia governar, que era o PP. O que é evidente é que temos um sistema de quatro partidos que, se não houver capacidade de diálogo, colapsará. Os acordos são complicados, porque todos temos de deixar algo para trás. Mas temos de enfrentar o diálogo de uma maneira razoável e o razoável é que esse diálogo ocorra com o partido sem o qual não se poderão formar maiorias de governo sólidas, o PP.

O ex-primeiro-ministro José Maria Aznar, presidente da FAES, criticou a estratégia de Rajoy e a polarização com Podemos, que aliado à Esquerda Unida está a subir nas sondagens...

Aznar não falou especificamente da estratégia do PP, porque a polarização não é algo que se pode atribuir em exclusivo ao PP. Aznar o que fez foi mostrar a sua preocupação por uma situação tão polarizada que depois tornará muito difícil os pactos de governo e o diálogo. Às vezes, algo que pode ser bom até ao dia 26, não será tão bom no dia 27. Vai ser necessário dialogar e, no final, o importante é que o diálogo se faça sobre os pilares do sistema constitucional e não na referência de um partido que é claramente antissistema, como o caso do Podemos.

Existe preocupação no PP com essa subida do Podemos?

Eu acho que existe. Desde logo pelo que significa o Podemos e, depois, noutros setores, porque isso supõe o colapso do PSOE e a perda da supremacia socialista dentro da esquerda. Isso é preocupante. Pensar que há um PSOE que pode terminar pasokisado. O PASOK grego, com o seu apoio à Nova Democracia e ao programa de reformas e austeridade, acabou por colapsar. Esta é uma perspetiva má para o sistema.

PSOE que, segundo as sondagens, pode acabar em terceiro...

Penso que há duas coisas que se podem afirmar com bastante segurança. Uma é que o PP vai ser novamente a força política mais votada e segundo que o Podemos vai ser a primeira força da esquerda em votos, e talvez até mesmo em deputados. Esta é uma situação radicalmente nova e faz que as coisas sejam tão ou mais incertas do que foram a 20 de dezembro.

Quem vai ceder?

Penso que os pactos vão ser tão ou mais difíceis do que antes. Só há uma diferença: não pode haver terceiras eleições. Em nenhuma cabeça razoável cabe a possibilidade de ter de forçar os espanhóis a novas eleições, estou convencido de que haveria uma espécie de motim cívico. Isto abre todo um conjunto de especulações que vão desde um governo de esquerda, com Podemos e PSOE, a um governo do PP, com o primeiro-ministro investido com a abstenção do PSOE e Ciudadanos.

Acha impossível uma grande coligação entre PP e PSOE?

Sim, acho que é impossível uma coligação à alemã. O que pode haver é um governo do PP com apoios mais ou menos pontuais e a abstenção do PSOE e Ciudadanos no momento da investidura. Ou então a soma da esquerda do PSOE com o Podemos e os nacionalismos.

Mas, segundo as sondagens, esse governo de esquerda seria agora liderado por Pablo Iglesias...

É uma situação paradoxal. Vamos ter o PSOE mais débil da história, contudo, vamos ter o PSOE com uma capacidade de decisão muito importante. Seria estranho o PSOE recusar uma grande coligação com o PP e assumir uma coligação com o Podemos, sabendo que o Podemos não é só o que se vê, mas o que esconde, uma agrupação de forças políticas muito diversas. O cálculo estratégico de Pablo Iglesias é esse. Que só um PSOE que fique atrás do Podemos terá, nas palavras de Iglesias, de escolher entre apoiar o Podemos e suicidar-se politicamente apoiando o PP.

E o Ciudadanos. Que papel representa no meio disto tudo?

O Ciudadanos é um enigma, que tirou muitos votos ao PP, mas bastantes mais ao PSOE. É um partido que, em geral, teve resultados abaixo das expectativas e creio que o objetivo deles agora é manter-se à tona. O Ciudadanos luta contra si mesmo, luta contra o seu posicionamento. Luta contra um discurso político que já na campanha anterior deu sinais de ser limitado. Isto é, não se pode falar só de temas de corrupção e o caso da Catalunha, que neste momento é secundário na opinião pública espanhola. É preciso entrar noutras propostas. Estas não vão ser as eleições da corrupção do PP.

Mas a corrupção custou votos...

Sim, custou centenas de milhares de votos. Mas o eleitorado que ficou é bastante leal e muito coeso face ao avanço do Podemos. Penso que há pouco petróleo a sacar desse poço.

Rivera diz que não fará acordos com Rajoy, mas não exclui o PP. A saída de Rajoy é uma hipótese?

Não me parece razoável que um diálogo comece negando o interlocutor e Rajoy é o líder do PP e vai continuar a ser. É preciso ir com muito cuidado no momento de fazer determinadas imposições que resultem num governo instável. Penso que o eleitorado vai tomar nota.

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