Os radicais que ameaçam virar os europeus contra Bruxelas

Vitória do Partido Direito e Justiça na Polónia reflete crescente adesão a projetos críticos da UE.

A vitória por maioria absoluta do Partido Direito e Justiça (PiS) nas legislativas do passado domingo na Polónia vem reforçar a tendência no eleitorado europeu para votar em formações populistas, eurocéticas, de extrema-direita ou extrema-esquerda, que olham com desconfiança para as instituições de Bruxelas e contestam os atuais moldes da União Europeia (UE), chegando a privilegiar em alguns países movimentos neonazis e xenófobos.

Num número significativo de países da UE estes partidos eurocéticos participam ou apoiam governos ou, estando na oposição, dispõem de relevante apoio eleitoral. Caso mais significativo é a Grécia, onde 51,8% dos eleitores votaram na extrema-esquerda, comunistas, populistas e neonazis. Nas legislativas de 20 de setembro passado, o Syriza obteve 35,5%, o Aurora Dourada 7%, os comunistas 5,6% e os Gregos Independentes 3,7%. Partidos europeístas como a Nova Democracia ou os socialistas do PASOK não tiveram, somados, mais de 34,4% dos votos.

O facto de o Syriza, apesar de um forte discurso antiausteridade, estar neste momento a aplicar políticas que vão em sentido contrário, forçado a uma necessária dose de realismo, não é suficiente para esquecer a enorme popularidade do discurso contra a a austeridade e as instituições da UE. E também o problema dos refugiados - a Grécia tem sido a principal porta de entrada na UE. Só neste ano, entraram no país mais de 566 mil, até quarta-feira.

É também a desconfiança perante as instituições da UE e a questão dos refugiados que estão no centro das preocupações dos países da Europa Central e de Leste, que deu ao PiS, liderado pelo nacionalista e conservador e eurocético Jaroslaw Kaczynski, a primeira maioria absoluta no Parlamento desde o fim do regime comunista na Polónia, há 25 anos. No Parlamento Europeu, o PiS integra os Reformistas e Conservadores Europeus, liderados pelo partido de David Cameron.

Discurso anti-imigração

A questão dos imigrantes está no centro dos avanços eleitorais de partidos tão diferentes como a Frente Nacional (FN), em França, da Liga Norte (LN), em Itália, do partido Finlandeses neste país ou do UKIP, de Nigel Farage, no Reino Unido. Este último partido, além de um discurso anti-imigração, é o principal porta-voz das posições populistas e eurocéticas no seu país, posições representadas em Itália não só pela LN, que privilegia o discurso anti-imigração, mas principalmente pelo Movimento 5 Estrelas. Este grupo mantém uma aliança política com o partido de Farage no Parlamento Europeu (PE) e os Democratas suecos, um grupo populista de extrema-direita e fortemente xenófobo e anti-imigração.

Quer o UKIP quer o 5 Estrelas recusam colaborar com Marine Le Pen, tendo Farage criticado o racismo e antissemitismo da FN. A aliança do UKIP e 5 Estrelas com os Democratas suecos, hoje a terceira força política no país, com 49 deputados e 12,9% dos votos, é possível pela recusa destes em aderir ao discurso típico da FN e de partidos como os húngaros do Jobbik ou os belgas do Vlaams Belang (VB). Na Hungria, o governo conservador e nacionalista de Viktor Orbán tem-se destacado nas críticas a algumas orientações de Bruxelas.

A FN, Jobbik e VB, juntamente com o Partido da Liberdade holandês, de Geert Wilders, o FPO austríaco, que nasceu no final dos anos 50 da extrema-direita, a LN italiana e uma dissidente do UKIP, Janice Atkinson, constituíram em junho um grupo parlamentar no PE, o Europa das Nações e das Liberdades, o que veio reforçar as correntes críticas de Bruxelas (foto).

Posições partilhadas pelos Finlandeses (12,9% nas europeias de 2014 e 17,7% nas legislativas de 2015) e o Partido Popular Dinamarquês (o mais votado nas europeias de 2014, com 26,6%, e terceiro mais votado nas legislativas do ano seguinte, com 12,3%) ou a Alternativa pela Alemanha (AfD).

O primeiro integra um governo de coligação em Helsínquia, o segundo concede apoio parlamentar a um governo centrista. O que significa terem ambos a possibilidade de desempenhar um papel ativo na definição das políticas nos dois países. Só a AfD (7,1% nas europeias de 2014) não está presente no Parlamento nacional alemão, mas está em cinco parlamentos regionais. As suas principais bandeiras são a oposição à adesão turca à UE e à moeda única.

As ameaças à UE não chegam só de populistas e da extrema-direita. Além da oposição das formações comunistas, novos fenómenos, como o Podemos espanhol (presente em 14 parlamentos autónomos e no governo de várias cidades, mas em queda nas intenções para as legislativas de 20 de dezembro) e a dimensão do sucesso eleitoral do Syriza na Grécia vêm criar novos desafios à orientação e à políticas da UE.

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