Os passeios milionários de um réu da Lava-Jato

Cunha e família gastaram em hotéis, restaurantes e lojas de luxo milhares de dólares desviados da Petrobras, diz a justiça. De Paris a Veneza, passando por Cascais.

Um quebra-cabeças: Henry Kissinger, Elizabeth Taylor, Hillary e Bill Clinton, Luciano Pavarotti, Eduardo Cunha, príncipe William de Inglaterra, David Cameron, rei Abdullah II e rainha Rania da Jordânia ou Leonardo Di Caprio. Qual destes ilustres hóspedes do centenário e luxuoso Grand Hotel Dolder, à entrada de Zurique, é réu na Operação Lava-Jato? Não, não é um enigma muito difícil de resolver.

De facto, o parlamentar brasileiro Eduardo Cunha, de 57 anos, esteve com a mulher e a filha no Dolder em 2013, dois anos antes de ser eleito presidente da Câmara dos Deputados, com milhares de dólares desviados durante décadas da Petrobras, afirma a Procuradoria-Geral do Brasil. E Zurique foi apenas a primeira etapa de uma volta milionária à Europa à conta dos cofres públicos, acrescentam as autoridades.

Cunha, que foi afastado da presidência da câmara por não ter "condições pessoais mínimas para o cargo", segundo o Supremo Tribunal Federal, arrisca-se a perder o estatuto de deputado após ter sido acusado de "falta de decoro" no Conselho de Ética do organismo, recebeu quatro denúncias, em diferentes instâncias, na Lava-Jato e tem os seus bens bloqueados pela justiça, passeou-se por palácios, restaurantes padrão Michelin e lojas de grifes globais num roteiro de luxo que está a indignar os brasileiros.

Acompanhado da mulher, Cláudia Cruz, uma jornalista com carreira na TV Globo e também ré na Lava-Jato, e da filha de ambos, passou, além de Zurique, por destinos exclusivos como Veneza, Florença e Roma, em Itália, Barcelona, em Espanha, Paris, em França, e Cascais, em Portugal. Tanto a conta no Dolder, de 1043,40 dólares, como a no Baur au Lac, de 3,6 mil dólares, no dia seguinte, foram pagas por contas suíças que o deputado do PMDB e aliado do presidente em exercício Michel Temer negou ter - uma falsidade, segundo os seus pares no Congresso.

Um mês depois de Zurique, Cunha e família pernoitaram no W. Barcelona, por 3,5 mil dólares, ainda graças à conta investigada, e no mesmo mês do ano seguinte usufruíram de um périplo italiano, com passagem pelo Hotel Raphael, em Roma, Danielli, em Veneza, e Four Seasons, em Florença, gastando quase dez mil dólares.

Confrontada com estes gastos, Cláudia Cruz disse aos investigadores liderados pelo juiz Sérgio Moro que não sabia quanto o marido ganhava por mês enquanto deputado - aufere o equivalente a perto de oito mil euros -, mas que acreditava que o dinheiro resultasse, além do vencimento, de aplicações bem-sucedidas no mercado financeiro e de bons negócios na área da importação e exportação. Cunha, que é dono de oito carros de luxo, parte deles registados em nome da empresa Jesus.com, um domínio da internet que o deputado, apresentador de um programa evangélico, adquiriu, afirma ter enriquecido a exportar carne embalada para África.

Mas a viagem mais cara do deputado, que é comparado em Brasília a Frank Underwood, personagem maquiavélica da série americana House of Cards, e a Gru, protagonista do filme de animação O Maldisposto, foi realizada em 2013. No total, investiu quase 16 mil dólares em hospedagem no parisiense Plaza Athénée e 3,5 mil dólares por três refeições em dois restaurantes de três estrelas Michelin e um de uma estrela, todos visitados esta semana por uma reportagem do jornal O Estado de S. Paulo, depois de os luxos terem sido divulgados pelas autoridades.

Pelo meio da excursão à capital francesa, Cunha, mulher e filha investiram em lojas como a Louis Vuitton, Ermenegildo Zegna, Chanel, Hermès e Balenciaga mais de 20 mil dólares. Logo a seguir, a família completou o périplo com uma estada no Grande Real Villa, de Cascais, por perto de três mil dólares. Esta viagem ocorreu em fevereiro de 2013, dias depois de ter sido eleito para o terceiro cargo mais alto do Brasil, a presidência da Câmara dos Deputados, uma ascensão que precedeu a queda, a pique, pela qual passa hoje.

*) São Paulo

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