Os homens que esticaram a corda do nacionalismo catalão

Primeiro Artur Mas, depois Carles Puigdemont. À frente do governo da Catalunha são os responsáveis máximos pela execução de uma agenda que os nacionalistas dizem ser de autodeterminação e que os restantes apontam como unilateral e cada vez mais extremista. Após cinco anos de tensão com o Estado espanhol, com ou sem consulta popular, o resultado está à vista

Artur Mas, o independentista tardio ultrapassado pelos acontecimentos

No gabinete da presidência da Generalitat, que ocupou entre dezembro de 2010 e janeiro de 2016, Artur Mas exibia uma roda do leme com a inscrição "Coração quente, punho firme e pés no chão". Hoje, o rumo traçado (ou a navegação à vista) pelo capitão da Catalunha é patente.

Em termos pessoais, encontra-se impedido de se candidatar a qualquer eleição durante dois anos, após ter sido condenado, em março, por desobediência pelo Tribunal Superior de Justiça da Catalunha. Em causa, a consulta popular que levou por diante em 2014, apesar da advertência do Tribunal Constitucional. Podia ter sido mais grave: o Ministério Público pedia 10 anos de inelegibilidade. Já quanto a dinheiros caiu-lhe tudo em cima. Na sentença foi também condenado a 36 mil euros de multa, mas o pior chegou em setembro. O Tribunal de Contas condenou-o (e aos consellers, os elementos da sua equipa) a pagar 5,2 milhões de euros, a quantia que a consulta terá custado ao erário. Pouco próprio de quem se gosta de ver ao leme, declarou em tribunal que a responsabilidade do plebiscito (que teve 37% de participação) foi dos voluntários. E agora, perante a conta, pede solidariedade aos mesmos a quem despachou as culpas. "Não pode ser que tão poucos percam tudo. Ajudar um pouco é muito fácil", disse aos microfones da RAC-1.

Mas há mais números a ensombrar o futuro de Mas, em especial o número 3. Está a decorrer uma investigação sobre o financiamento ilegal da (entretanto extinta) Convergència, o chamado caso dos 3%, assim conhecido porque seria essa a percentagem dos contratos públicos que as empresas envolvidas pagariam ao seu partido em contrapartida à adjudicação dos ditos. Mas, que nega qualquer tipo de ilegalidade, alega ser vítima de uma campanha dirigida pelo governo espanhol. E, sem evitar novas analogias com os motivos marítimos, já declarou que se vê de novo na "primeira linha" da política caso o processo secessionista "chegue a bom porto".

Em Artur Mas o que surpreende os comentadores é a forma como este homem, visto como um burocrata que cresceu à sombra de Jordi Pujol - o histórico dirigente catalão entretanto caído em desgraça -, se converteu de um nacionalista moderado no líder de um processo de tensão em crescendo com Madrid (pacto fiscal, estatuto da Catalunha...), a ponto de defender a independência a partir de 2012, quando outras forças nacionalistas levaram a cabo a Diada. Jogou a sua sorte em eleições antecipadas, perdeu a maioria e só conseguiu manter-se à tona recebendo o apoio parlamentar da Esquerda Republicana da Catalunha. Em comum apenas o objetivo da independência. Em 2015 elevou a fasquia como artífice da lista Junts pel Sí, mas a vitória da aliança dos nacionalistas foi insuficiente para a formação de maioria. O acordo com o partido de extrema-esquerda CUP ditou o seu afastamento e a substituição por Carles Puidgemont. Ainda é cedo para saber se o navio de Mas vai submergir ou se está ao sabor de ventos adversos.

Carles Puigdemont, o ultra que quer passar das palavras aos atos

Na pugna pela secessão catalã de Espanha vale tudo, ou quase, para Carles Puigdemont. O atual líder da Generalitat aproveitou o décimo aniversário do Circuit, um festival gay com música de dança num parque aquático - o maior do mundo do género -, para comparar a luta dos homossexuais pelos direitos civis ao processo soberanista. Na ocasião relembrou a primeira manifestação, ocorrida há 40 anos, pela Frente de Libertação Gay da Catalunha. "Muitos arriscaram ao fazerem frente à legalidade da época. A Catalunha acreditava num Estatuto e agora mudou para decidir o seu futuro livremente."

Nascido em Amer, na província de Girona, há 54 anos, originário de uma família de pasteleiros, Puigdemont cedo despontou para o jornalismo e para o nacionalismo; aos 16 anos já escrevia para um jornal e era orgulhoso dono de uma bandeira estelada cosida pela mãe a partir de uma senyera (isto é, a bandeira independentista feita sobre o pavilhão oficial da Catalunha).

Puigdemont é um homem das palavras: frequentou o curso de Filologia Catalã, foi jornalista (em publicações em catalão e inglês). Mas não será necessariamente um homem de palavra. Em 2014, como alcaide de Girona, indignou a população ao envolver a autarquia na compra de obras de arte, numa operação que incluía peças de Picasso, Miró e Dalí. Alegou tratar-se de uma "oportunidade de desenvolvimento económico", mas em tempos de crise a ideia foi contestada nas ruas - num país assolado pelos despejos, a palavra de ordem foi "Não temos casa para pendurar quadros." O alcaide garantia que o município não ia endividar-se porque a compra ficaria a cargo da empresa de águas local, AGISSA (cujo capital pertence em 20% ao ayuntamiento e o restante a privados). Afirmou ainda que os habitantes não iriam pagar a operação através da conta da água. Mas a plataforma cívica Agua Es Vida acedeu ao contrato rubricado entre os sócios da AGISSA e, sim, não só são os consumidores a pagar a operação através dos pagamentos da água mas também os juros do empréstimo.

Que juros vão pagar os catalães com a aventura de Puigdemont ao insistir num plebiscito sem base legal, à luz das instituições espanholas e internacionais, é a questão. Em menos de dois anos, o antigo autarca de Girona e deputado ao Parlamento da Catalunha multiplicou os desacordos com Madrid e, em especial, com o governo de Mariano Rajoy. Convicto de que a vitória nas eleições autonómicas da aliança Junts pel Sí equivalia à vontade da maioria em tornar a região num país, em julho o presidente fez uma remodelação no executivo (se bem que promovida pelo vice Oriol Junqueras): rodeou-se de indefetíveis, "uma equipa de hooligans, sem distinções", como desabafou ao El País um antigo dirigente do governo catalão. Com Madrid a reagir em todos os tabuleiros à consulta popular, endureceu a retórica ao ponto de falar em "presos políticos", "repressão" e "golpe de Estado". Mais do que um filólogo, ou de um político com sentido de Estado, os tiques de pirómano são agora a sua imagem de marca.

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