"Os Estados Unidos são um país onde é possível esconder dinheiro"

Entrevista a Nicholas Shaxson, jornalista britânico e autor do livro Treasure Islands

Demissão do primeiro-ministro da Islândia e muito barulho à volta de chineses e russos. Vai ser este o resultado dos Papéis do Panamá ou haverá impacto real?
Vão ter impacto. Tem havido muitas mudanças nos últimos anos na forma de o mundo ver estes temas. A opinião pública está cada vez mais alertada sobre os paraísos fiscais e não há argumentos para vir em defesa destes. Mas a reação vai depender muito de cada país e, se é certo que nada mudará muito na Rússia ou na China, até pelo controlo dos media pelos governos, a nível internacional haverá exigência para uma maior transparência.
Daquilo que sabe dos Papéis do Panamá, há grandes surpresas em relação ao que escreveu no seu livro Treasure Islands, publicado há cinco anos?
Se olharmos individualmente não há nada muito surpreendente, nada que eu não tivesse de alguma forma já falado no meu livro. O que me surpreendeu muito mesmo foi a quantidade de informação divulgada, que é muito mais papel até do que o WikiLeaks. E isso explica também a atenção mediática imensa e essa vai ter impacto político.
Num artigo recente no Financial Times denuncia os Estados Unidos como tendo paraísos fiscais e que isso deve ser combatido. É possível ser uma grande potência económica e ao mesmo tempo um paraíso fiscal?
Sim, é possível ser a maior economia mundial e ao mesmo tempo tolerar paraísos fiscais no território. Os Estados Unidos são um país onde é possível esconder dinheiro, seja no Delaware ou no Wyoming. Por isso a OCDE está envolvida numa iniciativa que luta pela transparência dos seus membros.
Isto é tema na campanha para as presidenciais americanas deste ano? Algum candidato denuncia?
Durante a campanha fala-se sempre de fortalecer a América contra o exterior, de a defender contra o abuso dos paraísos fiscais por outros, nunca de combater o que se passa dentro de fronteiras.
Como deve a União Europeia reagir, dado ser onde a opinião pública mais pressiona os líderes a atuarem contra os paraísos fiscais.
A União Europeia tem de preparar uma resposta coletiva contra os paraísos fiscais. Criar, por exemplo, um registo centralizado de quem é dono de qual empresa. Falo do dono humano, da pessoa ou pessoas. E tornar isso público.
Isso passa por acabar com os paraísos fiscais dentro da própria União Europeia, como nas ilhas britânicas do canal da Mancha?
Claro. A Europa tem de acabar com toda a espécie de paraísos fiscais. As ilhas sim, mas também o Luxemburgo ou a Holanda.

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