Os dilemas da Aliança Atlântica na era Trump

Agenda comum de EUA e europeus no antiterrorismo e contenção da Rússia não esconde divergência sobre papel da NATO.

Se o encontro dos líderes da NATO representava antes de mais uma oportunidade de esclarecer que papel cabe à Aliança nos cálculos da administração Trump, os aliados europeus terão saído de Bruxelas com muitas perguntas sem resposta. Donald Trump lançou o alarme entre os europeus quando, na campanha eleitoral, considerou a NATO "obsoleta" ao mesmo tempo que multiplicava elogios a Putin e falava de um entendimento com a Rússia.

Responsáveis da Casa Branca e do Pentágono corrigiriam depois o presidente reafirmando o compromisso dos EUA com a NATO e Trump emendaria a mão, garantindo a 12 de abril ao secretário-geral Jens Stoltenberg que a Aliança estava tudo menos "obsoleta".

No encontro de quinta-feira em Bruxelas, Trump apontou à NATO uma agenda ambiciosa. No futuro, disse, a Aliança deverá concentrar-se na contenção da "ameaça da Rússia" e nas "fronteiras leste e sul", bem como "nas questões do terrorismo e da imigração". O presidente americano manteve-se, porém, omisso quanto a qualquer referência ao artigo V, ao compromisso de defesa coletiva da NATO, pedra fundadora da Aliança, frustrando as expectativas dos europeus e de muitos responsáveis americanos. Empenhou-se, em contrapartida, em interpelar os aliados quanto ao contributo financeiro para a Aliança. Sucessivos presidentes americanos vêm insistindo num maior contributo dos aliados para o fardo da defesa coletiva, mas Trump colocou a questão em termos duros. Recordou que os aliados "continuam a não pagar o que deviam pela sua defesa" e que a situação é "injusta para o povo e os contribuintes dos EUA". Trump foi mais longe, sugerindo que a própria meta dos 2% do PIB para a defesa acordada em 2014, na cimeira de Gales, era insuficiente e que o empenhamento dos EUA passaria a depender do contributo direto de cada aliado.

Agendas divergentes

A agenda apontada por Trump à NATO promete resgatar definitivamente a Aliança da "obsolescência". Trump remete de novo a Rússia ao papel de "ameaça", para tranquilidade dos aliados - e provavelmente a pensar no cerco doméstico sobre a sua política em relação à Rússia. O dispositivo militar montado pela NATO ao longo das fronteiras da Rússia e os jogos de guerra encenando um confronto entre a Rússia e o Ocidente no Báltico conferem à NATO uma nova raison d"être.

A atitude face à Rússia está longe de ser consensual entre os aliados. Se os países do Norte e do Leste da Aliança estão concentrados na "ameaça russa", os países do flanco sul sentem-se ameaçados pela instabilidade no Médio Oriente ou pelas incógnitas da Turquia de Erdogan. Quanto ao empenho direto da NATO no combate ao terrorismo, europeus e americanos parecem ter um entendimento diverso do papel que a Aliança deverá assumir. Washington insiste num pleno empenhamento da NATO na coligação contra o terrorismo liderada pelos EUA. Franceses e alemães respondem recordando o papel que cumprem já no combate ao jihadismo no treino de tropas no Iraque e no Afeganistão, nos céus da Síria ou, no caso da França, no Mali e no Sahel. Receiam ademais que o empenhamento formal da NATO na coligação anti-Estado Islâmico os poderia arrastar para um envolvimento no Iraque ou na Líbia, tal como estão enterrados no Afeganistão. Os europeus defendem um empenhamento simbólico com um maior envolvimento dos AWACS e outros dispositivos de vigilância da NATO nas áreas críticas.

Os propósitos de Trump não conseguiram desfazer a ideia de que olha para a Aliança na perspetiva de cálculo custo-benefício para os EUA. Daí, provavelmente, a resistência à reafirmação formal do compromisso com a segurança coletiva - na linha de uma atitude face às instâncias multilaterais e alianças permanentes que tem raízes fundas na política americana. Para além das proclamações sobre a solidariedade transatlântica, os pontos de vista dos EUA e europeus sobre a NATO, as crises a enfrentar e o papel da Aliança face às "novas ameaças" nem sempre coincidem.

Ao declarar a NATO "obsoleta", o então candidato Trump não estaria simplesmente a questionar se esta continua devidamente ajustada aos objetivos estratégicos dos EUA. A questão do orçamento da Aliança poderá assumir neste contexto outra dimensão. Os planos do Pentágono, de uma expansão da capacidade militar dos EUA, o aumento substancial com os gastos com a defesa no novo Orçamento americano, o reforço da European Reassurance Initiative, lançada em 2014, na sequência da crise ucraniana, para reforçar o dispositivo militar aliado junto às fronteiras da Rússia, e a própria euforia com que a indústria militar americana aplaudiu os contratos para fornecimento de equipamento militar à Arábia Saudita, garantidos por Trump em Riade, apontam num sentido: o acentuado reforço do músculo militar na gestão dos interesses americanos no planeta. Na perspetiva de Trump, uma NATO relevante para os interesses da América terá decerto um papel a cumprir neste processo. E aos aliados caberá desembolsar um contributo que justifique o investimento na defesa coletiva.

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