Os cinco candidatos à liderança do Partido Conservador

A 12 de julho deverá saber-se quem são os dois finalistas na corrida à sucessão de David Cameron. As rondas eliminatórias começam já na terça-feira

E depois do brexit deu-se o borexit. Boris Johnson, principal defensor da saída do Reino Unido da União Europeia, ex-mayor de Londres e agora ex-mais-do-que-provável sucessor de David Cameron à frente do partido e do governo britânico, optou por sair da corrida à liderança do Partido Conservador. A decisão foi a grande bomba política no Reino Unido, no dia em que ficaram definidos quem são os candidatos à chefia dos tories (ver textos ao lado).

Assim que Boris anunciou que não entrava na disputa, os ataques começaram a chegar, vindos de vários quadrantes. Com mais ou menos subtileza nas palavras. "Não é para todos. Há pessoas que simplesmente não os têm. Talvez ele seja um desses", afirmou Ruth Davidson, líder do Partido Conservador escocês e defensora do bremain. Rob Ford, professor de Ciência Política na Universidade de Manchester, escreveu no Twitter. "Boris criou a maior crise constitucional no pós-guerra e nem sequer se chega à frente para limpar os estragos? Que besta!"

Em Westminster, o relógio já se aproximava das 12.00, a hora-limite para apresentação das candidaturas, quando Boris fez a sua declaração: "Esta é a nossa oportunidade para voltar a pensar de forma global, para pôr os olhos no horizonte e fazer ouvir a nossa voz sem a supervisão de uma entidade supranacional. Essa é a agenda para o próximo primeiro-ministro deste país. Depois de consultar vários colegas e tendo em conta as circunstâncias parlamentares, concluí que essa pessoa não posso ser eu."

Feitas as contas, os candidatos são cinco. A partir de agora, os deputados têm a palavra. Às terças e às quintas, começando já na próxima semana, haverá uma votação, sendo eliminado o último classificado. Quando restarem apenas dois, a escolha caberá aos militantes do Partido Conservador. Se tudo correr como previsto, a 12 de julho saber-se-á quem são os dois finalistas e a 9 de setembro será anunciado o resultado final.

1. Theresa May, 59 anos, A favorita à vitória e silenciosa defensora do bremain
Ministra do Interior
Votou para ficar na UE

Passou de fininho, assim como quem anda entre os pingos da chuva, pela campanha para o referendo. Disse que defendia a permanência na União Europeia, mas nunca mostrou grande paixão argumentativa. Pouco apareceu e pouco se fez ouvir. Este silencioso passado recente é apontado, em simultâneo, como um trunfo e como um handicap. Por um lado, não criou muitos anticorpos entre os defensores do brexit. Por outro, há quem lhe aponte o dedo por calculismo e deslealdade para com Cameron. Depois de Boris Johnson ter dito que não entrava na corrida, Theresa May é a favorita para ser entronizada líder dos Tories e primeira-ministra britânica, sucedendo, no feminino, a Margaret Thatcher. Entre os seus pontos fortes está também o facto de ter sobrevivido seis anos no posto de ministra do Interior, um cargo que tem sido rapidamente fatal para os seus ocupantes. May chegou ao parlamento em 1997 e, enquanto se sentou na bancada da oposição, ocupou várias posições nos governos-sombra dos sucessivos líderes: William Hague, Iain Duncan Smith, Michael Howard e David Cameron. Entre 1977 e 1983 trabalhou no Banco de Inglaterra, tendo continuado a fazer carreira no setor financeiro antes de se virar para a política. Segundo o The Guardian, quando lhe perguntaram que disco levaria para uma ilha deserta, referiu o Dancing Queen, dos Abba, porque iria necessitar de algo que a fizesse saltar. Tudo indica que apostar na vitória de Theresa May não é meio caminho andado para a fortuna. Ontem, a casa de apostas Paddy Power pagava apenas 1,44 libras a quem apostasse uma na sua vitória.

2. Michael Gove, 48 anos, aquele que diz não ter qualidade suficiente para ser primeiro-ministro
Ministro da Justiça
Votou para sair da UE
Em segundo lugar para as casas de apostas

Quem é o homem que há menos de duas semanas, a 18 de junho, em entrevista ao The Telegraph, disse: "Para se ser primeiro-ministro deste país é preciso ser-se alguém excecional. David Cameron é uma pessoa excecional, com talentos excecionais e que desempenha muito bem as funções. Não penso que eu tenha esse nível de qualidades necessárias para o cargo."? A resposta certa é: Michael Gove, candidato a líder do Partido Conservador e a primeiro-ministro do Reino Unido. O atual ministro da Defesa e um dos três rostos mais visíveis na defesa do brexit - além de Boris Johnson e de Nigel Farage, líder dos independentistas do Ukip - foi ainda mais longe na conversa com o diário britânico. "Eu vi como ser primeiro-ministro foi um processo muito duro, mesmo para alguém com muito mais talento do que eu, como o Gordon Brown [do Partido Trabalhista]. É algo que não é para mim", acrescentou o agora candidato a primeiro-ministro. Todos esperavam que Gove desse o seu apoio a Boris Johnson - foram unha com carne na campanha do referedo -, mas o ministro da Justiça anunciou a sua candidatura referindo que não acreditava que o ex-mayor de Londres tivesse as qualidade necessárias para liderar o país. Michael foi acolhido pela família Gove quando tinha apenas quatro meses, depois de a mãe biológica o entregar para adoção logo após o nascimento. Tendo estudado Literatura Inglesa em Oxford, trabalhou como jornalista, foi editor no The Times e chegou a deputado em 2005. Entre 2010 e 2014 foi ministro da Educação. Ontem, a casa de apostas Paddy Power pagava 2,88 libras a quem apostasse uma na sua vitória.

3. Andrea Leadsom, 53 anos, da banca até ex-futura ministra das Finanças de Boris Johnson
Secretária de estado da Energia
Votou para sair da UE
Terceira favorita para as casas de apostas

"Decidi que ia ser deputada quando tinha 13 anos", confessou ao The Telegraph. "Pensei que dessa forma poderia salvar o mundo de um holocausto nuclear", acrescentou ainda, em março de 2016, na entrevista que concedeu ao diário britânico. Em meados dos anos 70, a teenager Andrea ia crescendo num mundo que vivia sob a constante ameaça de um possível conflito nuclear. Diz que se recorda do "absoluto terror" que a Guerra Fria lhe inspirava. Daí a vontade de fazer política. Para tentar tornar o mundo um local mais seguro. Por altura da conversa com o The Telegraph, a campanha sobre o brexit começava a aquecer e a secretária de estado da Energia já tinha escolhido a sua equipa. Jogava do lado dos defensores do adeus à Europa. Os ataques que desferiu à União Europeia nos vários debates em que participou e a defesa apaixonada que fez dos argumentos a favor da saída deram-lhe notoriedade. Nascida em maio de 1963, Andrea Leadsom formou-se em Ciência Política pela Universidade de Warwick, fez carreira na banca, e, em 2010, foi eleita para o parlamento britânico, cumprindo assim o sonho de adolescência. Depois de passar pelo ministério das Finanças, ocupa desde 2015 o posto de secretária de estado da Energia. Em 2013 absteve-se na votação sobre a legalização do casamento homossexual. Chegou a ser falada como a futura ministra das Finanças de um governo liderado por Boris Johnson. Nesse cenário tornar-se-ia a primeira mulher a ocupar o cargo. Para já é a terceira favorita para as casas de apostas. Ontem, a Paddy Power pagava seis libras a quem apostasse uma na vitória de Andrea Leadsom.

4. Stephen Crabb, 43 anos, o candidato do passado humilde que pode apelar aos trabalhistas
Ministro do Trabalho e Pensões
Votou para ficar na UE
As casas de apostas dão-lhe o quarto lugar

Com 43 anos, é o mais jovem de todos os candidatos. Mesmo assim fica atrás de David Cameron, que tinha 39 anos quando ascendeu à liderança do partido. Segundo o The Guardian, um dos seus pontos fortes é "ser capaz de falar de política de uma forma que soa quase a um ser humano". A seu favor jogam também as origens populares. Os pais divorciaram-se quando Stephen tinha oito anos. Ele e os dois irmãos ficaram a cargo da mãe, que viu-se obrigada a recorrer a subsídios e a ajudas da igreja e de familiares para os criar. Os analistas dizem que este passado mais sofrido pode ajudá-lo a seduzir algum eleitorado trabalhista. A juventude - que alguns apontam como um dos trunfos da sua candidatura - faz com que lhe colem facilmente o rótulo de inexperiente. Num momento crucial para o futuro do Reino Unido é algo que pode jogar contra si. A forma enérgica como defendeu o bremain ao longo da campanha para o referendo também pode ser uma desvantagem para alguém que, se for eleito, terá como principal tarefa concretizar o brexit. Em março trocou a pasta do País de Gales pela do Trabalho e Pensões, tendo sucedido a Iain Duncan Smith, que saiu do governo por alegadamente não aceitar fazer mais cortes nos benefícios sociais. Stephen Crabb chegou ao parlamento em 2005. Quando apresentou a candidatura à liderança dos Tories viu-se obrigado a desmentir que era homofóbico. Votou contra a legalização do casamento homossexual, mas hoje diz-se "contente" com a lei aprovada. Ontem, a Paddy Power pagava 17 libras a quem apostasse uma indicando o seu nome para futuro líder o partido e do governo.

5. Liam Fox, 54 anos, o ex-ministro da Defesa de Cameron que caiu em desgraça
Votou para sair da UE
Último classificado nas casas de apostas

Não é novo nestas andanças. Em 2005, foi um dos candidatos à liderança do Partido Conservador que perderam para David Cameron. Foi eliminado na segunda ronda de votações, com 25,7% dos votos, contra 28,8% de David Davis e 45,5% do agora líder demissionário. Já lá vão mais de duas décadas desde que, em 1992, reservou o seu lugar como deputado no parlamento britânico. Experiência política não lhe falta. Em maio de 2010, pela mão de David Cameron, chegou ao governo para ocupar o cargo de ministro da Defesa. Quase não aqueceu o lugar. Pouco mais de um ano depois, em outubro de 2011, foi forçado a abandonar o executivo depois de saber-se que Adam Werrity, um amigo, homem de negócios e conhecido lobista, o tinha acompanhado em 18 viagens oficiais ao estrangeiro. Na carta de demissão que então escreveu ao primeiro-ministro confessou que "erradamente tinha deixado" que responsabilidades profissionais e pessoais se tivessem confundido. Um dos traços mais vincados do seu ADN político é o euroceticismo. Foi um feroz defensor do brexit durante a campanha e diz que não há que ter pressa em ativar o artigo 50 do tratado de Lisboa. Está muito longe de ser um liberal. O rótulo de conservador encaixa-lhe bem e posiciona-se claramente na ala mais à direita no interior dos Tories. Disse que o casamento homossexual era um "absurdo" e em várias ocasiões mostrou-se também ferozmente contra a lei do aborto. Liam Fox nasceu na Escócia, em setembro de 1961, e estudou Medicina na Universidade de Glasgow. Ontem, a Paddy Power pagava 21 libras a quem apostasse uma na sua vitória.

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