"Os alemães vão ter de se habituar à extrema-direita"

Jacques Schuster é editor de política nacional e comentador principal do Die Welt. Trabalha neste jornal há 19 anos. Já passou pelas publicações Frankfurter Allgemeine Zeitung, Süddeutsche Zeitung, Tagesspiegel e Die Woche.

O que está em jogo nas eleições do próximo domingo?

É uma pergunta difícil porque, ao contrário do que aconteceu noutros países europeus, estas eleições na Alemanha são bastante previsíveis. Todos sabem que Angela Merkel vai vencer. Por outro lado, é para já uma incógnita a constituição da coligação que vai formar o governo ou qual vai ser a terceira força política. Isto é um risco. Imaginemos que o resultado é uma coligação CDU e SPD e que a terceira força é o Alternativ für Deutschland [AfD, Alternativa para a Alemanha, partido de extrema-direita], então eles serão os líderes da oposição. Significa que depois de todos os discursos do/a chanceler, a resposta virá da extrema-direita. Parece-me que os alemães não vão estar muito confortáveis com isso, também por causa do nosso passado, mas vão ter de se habituar.

A grande crítica feita ao AfD é a pouca consistência demonstrada ao longo dos últimos meses. Dentro do partido há quem seja contra o euro, mas há também quem o defenda. O mesmo acontece com o casamento gay, por exemplo. Isso não parece estar a dissuadir o eleitorado. Esta divisão interna é expectável depois do dia 24?

Há dois partidos dentro do mesmo partido. Os antissistema, que não estão habituados a estrangeiros, nem a refugiados, nem ao liberalismo, nem ao capitalismo. Em resumo, são contra o sistema e este é um partido que os parece representar. É nesta ala que estão os fanáticos, os racistas e os de extrema-direita. Depois, do outro lado, os conservadores que estão contra Angela Merkel. Esta fação é maioritariamente democrática. Mas mesmo estes também jogam com os mesmos argumentos, como o racismo e a quebra de tabus, porque sabem que os eleitores vão gostar.

Nas últimas sondagens, o SPD [Partido Social-Democrata] aparece em segundo lugar nas intenções de voto, muito afastado da CDU [União Democrata-Cristã]. Estes resultados parecem ter vindo a piorar, já que na altura em que Martin Schulz avançou os dois partidos apareciam lado a lado. O que pode explicar isto?

Penso que quando Martin Schulz decidiu avançar, o receio com a crise dos refugiados era grande e todos os que tinham medo viram no SPD uma alternativa a Angela Merkel. Depois começaram a perceber que o partido não tinha mudado. O SPD não reconheceu, não se apercebeu de que a sociedade alemã se tornou mais conservadora, mais "de direita moderada". Depois da crise dos refugiados e dos ataques terroristas, a população quer sentir-se segura, mais protegida. Na minha opinião, o SPD está mais conservador, mas apenas nas suas próprias políticas: segurança social, mais direitos para os trabalhadores, mais apoios para os desempregados. Mas essa não é a vontade da maioria da sociedade alemã. Outro motivo que pode explicar essa descida dos números do SPD é o facto de que Angela Merkel, apesar de ser CDU, representa as políticas de esquerda do SPD. Está muito mais à esquerda do que estava Helmut Kohl.

Em Portugal, as esquerdas juntaram-se para formar governo. Na Alemanha esse cenário não é expectável?

Não, isso não vai acontecer. A grande dúvida é se o AfD vai liderar a oposição, se isso acontecer vai ser terrível para nós. Nem sequer sabemos quem irá para o Bundestag [câmara baixa do Parlamento alemão], conhecemos alguns líderes do partido, mas a liderança no Alternativa para a Alemanha é muito frágil. Há membros horríveis nesta força política. O que pode acontecer é que as divisões internas sejam tão grandes que o partido se fracione e passem a existir dois partidos. Por outro lado, atualmente a política na Alemanha é bastante previsível, as decisões de Angela Merkel são expectáveis. Por isso, penso que pode ser possível gerir uma legislatura com o AfD a liderar a oposição.

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