Oposição quer venezuelanos na rua e Maduro disposto a falar com o Diabo

Estados Unidos e União Europeia não reconhecem Assembleia Constituinte eleita no domingo. Bolívia e Rússia colocam-se ao lado do regime. Em Portugal, assunto divide geringonça, com governo e PCP com atitudes opostas

Nas últimas horas, o governo de Nicolás Maduro tem sido fustigado com uma tempestade de duras críticas internacionais e acusado por vários países e por organizações como a União Europeia (UE) e as Nações Unidas (ONU) de excesso de violência e de subversão dos processos democráticos.

O presidente venezuelano levou a sua avante e, no domingo, organizou eleições para eleger uma Assembleia Constituinte, uma espécie super-órgão legislativo, com capacidade para esvaziar de poderes o parlamento no qual atualmente a oposição está em maioria. Dez pessoas morreram nos confrontos com as forças de segurança.

Segundo o Conselho Nacional Eleitoral (CNE), 8,1 milhões votaram para a Constituinte. Os números da oposição são distintos. De acordo com os dados da Mesa de Unidade Democrática (MUD) apenas 12% dos eleitores (cerca de 2,5 milhões) terão ido às urnas.

"Acabou-se a sabotagem da Assembleia Nacional. A Constituinte chegou para pôr ordem. Pela paz dos venezuelanos sou capaz de tudo, até de falar com o Diabo se for necessário", afirmou Nicolás Maduro depois de divulgados os primeiros resultados. O presidente regozijou-se com o dia eleitoral. "Foi a maior votação da revolução bolivariana em 18 anos. O povo deu uma lição de coragem e de valentia. O que vimos foi admirável", sublinhou Maduro.

Tendo em conta que a MUD recusou participar no ato eleitoral, o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) e os seus aliados políticos conquistaram todos os 545 lugares em disputa para a Assembleia Constituinte. De acordo com Diosdado Cabello, vice-presidente do PSUV, a nova Assembleia irá reunir-se no mesmo palácio onde funciona o parlamento e deverá iniciar funções numa questão de horas.

"Não reconhecemos este processo fraudulento, para nós é nulo, não existe", afirmou Henrique Capriles durante o dia de domingo. Depois de ter suspendido os protestos devido à "brutal" repressão das forças de segurança, a oposição venezuelana apelou a mais manifestações durante esta semana.

Perante as dez pessoas que morreram no domingo, a UE condenou "o excessivo e desproporcionado uso da força por parte das forças de segurança" e sublinhou que uma Assembleia Constituinte eleita em condições "duvidosas" não pode ser parte da solução. "Não iremos reconhecer esta eleição. É óbvio que o atual regime está a tentar agarrar-se ao poder. É preciso ir para eleições já", sublinhou Antonio Tajani, presidente do Parlamento Europeu.

Espanha fez igualmente questão de garantir que não irá reconhecer a Constituinte. E também as Nações Unidas, através do Alto Comissariado para os Direitos Humanos, condenaram a Venezuela, acusando o governo de Maduro de atuar de forma violenta e de continuar a "violar o direito de reunião pacífica".

O governo português, através do ministério português dos Negócios Estrangeiros, emitiu um comunicado onde "lamenta profundamente a evolução dos acontecimentos na Venezuela" e sublinha que se revê na declaração emitida pela UE. Já o PCP saudou o "ato de afirmação democrática" da Venezuela nas eleições de domingo e exigiu que o governo português tenha "respeito pela soberania" do país.

O governo dos EUA está a ponderar impor sanções sobre o setor venezuelano do petróleo, depois de - nas palavras de Nikki Haley, a embaixadora de Donald Trump nas Nações Unidas - terem considerado as eleições para a Assembleia Constituinte uma "farsa". No entender da Casa Branca, a jogada política de Maduro tem como intenção reforçar e cimentar um regime político que Washington considera uma ditadura. De acordo com a Reuters a administração norte-americana - apesar de querer punir o governo venezuelano - estará a ponderar com cuidado as sanções a adotar para não dificultar ainda mais a vida às populações e também para não prejudicar os interesses económicos dos EUA. Nesse sentido, a medida mais radical, que passaria por deixar de importar petróleo venezuelano, não estará em cima da mesa. "Iremos continuar a adotar fortes medidas contra os arquitetos do autoritarismo na Venezuela", reiterou o Departamento de Estado norte-americano em comunicado. "Um porta-voz do imperador Donald Trump disse que eles não irão reconhecer os resultados. Por que diabo havemos de nós importar-se com o que diz Trump?", questionou Maduro.

Canadá, Colômbia, Brasil, Chile, Argentina e Peru também foram bastante duros nas críticas que endereçaram ao presidente Maduro por aquilo que consideram uma violação das normas democráticas. A Bolívia, por seu turno, colocou-se ao lado de Maduro, criticando os outros países por aquilo que consideram uma "submissão" aos EUA. Também a Rússia pediu contenção à comunidade internacional nas críticas ao regime de Maduro.