Onda de ataques sexuais em Colónia deixa a polícia na mira do governo

Autarca da cidade enfureceu opinião pública com código de conduta para mulheres. Extrema-direita tem aproveitado facto de atacantes serem de origem árabe e norte-africana para criticar política de refugiados de Merkel

"A polícia não pode trabalhar assim", disse ontem o ministro do Interior alemão, Thomas de Maizière, criticando a maneira como as forças de segurança de Colónia têm lidado com os ataques contra cerca de uma centena de mulheres levados a cabo por homens, alegadamente de origem árabe e norte-africana, nas festas de ano novo junto à catedral da cidade.

As forças policiais de Colónia reconheceram ter, pouco antes das agressões, evacuado a praça devido ao perigo do fogo-de-artifício, mas as agressões ocorreram mais tarde. No dia seguinte, a 1 de janeiro, a polícia emitiu um comunicado no qual sublinhava que a noite havia decorrido sem incidentes. "Não é possível que a praça tenha sido evacuada e que em seguida se tenham verificado" as agressões, no mesmo local, e que a polícia "espere as queixas" das vítimas para reagir, lamentou o ministro do Interior alemão. "Exijo urgentes esclarecimentos", sublinhou Maizière.

Um homem contou à BBC como a sua mulher e a filha de 15 anos foram rodeadas por uma multidão e ele não conseguiu ajudá-las: "Os atacantes agarraram os seios delas." "Eles sentiram que estavam a controlar a situação e que podiam fazer o que quisessem com as mulheres que estavam na rua a festejar. Eles tocaram-nos em todo o lado", relatou à televisão alemã uma das mulheres que estavam no local.

Ontem soube-se que a polícia já identificou três suspeitos relacionados com os ataques, adiantou ontem o ministro do Interior do governo estadual da Renânia do Norte-Vestefália. Ralf Jaeger acrescentou, porém, que ainda não tinham sido feitas detenções e que esperava um "relatório muito detalhado" da polícia ainda nesta semana.

Na terça-feira, a polícia de Colónia explicou que 90 mulheres denunciaram ter sido roubadas, ameaçadas ou molestadas sexualmente nas celebrações de ano novo junto à catedral da cidade por jovens, entre os 18 e os 35 anos, do sexo masculino, na sua maioria alcoolizados. A polícia descreveu estes acontecimentos como "uma nova dimensão no crime".

O líder da polícia de Colónia afirmou que os alegados atacantes parecem ser de origem "árabe ou norte-africana", levando os grupos de extrema-direita a atribuir as culpas aos refugiados e a criticar mais uma vez a política de acolhimento do governo de Angela Merkel.

"Não deve haver uma suspeita generalizada mas, ao mesmo tempo, também nenhum tabu", considerou Thomas de Maizière, sublinhando ser necessário saber se os autores "chegaram recentemente ou se estão há muito tempo" na Alemanha. "Isto não é sobre as origens [das pessoas], mas sobre aquilo que fizeram", afirmou, por sua vez, o ministro alemão da Justiça Heiko Mass, advertindo que associar este assunto à questão dos refugiados "não é mais do que exploração".

O partido eurocético e anti-imigração Alternativa para a Alemanha (AfD), que tem subido nas sondagens, já veio dizer que a chanceler deve considerar a hipótese de fechar as fronteiras. "Senhora Merkel, a Alemanha é "colorida e cosmopolita" o suficiente para si depois desta onda de crimes e ataques sexuais?", questionou, através do Twitter, Frauke Petry, o líder do AfD.

Merkel também foi questionada pelas cerca de 150 pessoas que se juntaram em frente à catedral de Colónia para protestar contra a violência sobre as mulheres. "Senhora Merkel onde estás? O que tens a dizer? Isto assusta-nos" era uma das mensagens dos cartazes empunhados pelos manifestantes.

Mais segurança para o Carnaval

A chanceler alemã falou na terça-feira com a presidente da Câmara de Colónia a quem expressou a "sua indignação sobre estes ataques e agressões sexuais repugnantes". Angela Merkel disse a Henriette Reker que tudo deverá ser feito para "encontrar os perpetradores o mais depressa possível e puni-los, independentemente das suas origens ou passado".

Após uma reunião do gabinete de crise, Reker enfureceu a opinião pública ao concentrar-se na forma como as mulheres devem comportar-se e não nos atacantes. A autarca explicou que as mulheres devem adotar um "código de conduta" de forma a prevenir futuros ataques e onde é sugerido que se mantenham um braço de distância de desconhecidos ou fiquem sempre junto ao seu grupo de amigos. Reker - que foi esfaqueada em outubro, ficando gravemente ferida, aparentemente por causa do apoio aos refugiados - prometeu um reforço policial nas ruas já a pensar no Carnaval da cidade, o mais famoso da Alemanha.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG