Onda de ataques serve discurso do medo de Trump

Candidato republicano aproveitou explosões e ataque à facada do fim de semana para criticar Obama e Hillary. Ex-primeira dama aposta na vasta experiência para convencer.

Uma bomba que faz 29 feridos no bairro nova-iorquino de Chelsea, seis engenhos explosivos encontrados em Elizabeth, Nova Jérsia, um deles acabando por explodir quando o tentavam detonar, e um homem que esfaqueia nove pessoas num centro comercial do Minnesota antes de ser abatido pela polícia. Neste fim de semana, o terrorismo voltou a atacar nos EUA, com o Estado Islâmico a «assumir que o ataque no Minnesota foi da responsabilidade de um dos seus "soldados". A 50 dias das presidenciais, o assunto depressa entrou na campanha. E se Hillary Clinton optou pela prudência, o republicano Donald Trump aproveitou para culpar a rival democrata e o presidente Barack Obama. E isso pode valer-lhe votos.

"Ao minimizar a ameaça [do Estado Islâmico] a Administração Obama colocou-nos a todos em risco e isso só vem lembrar-nos que precisamos de uma nova liderança na luta contra o terrorismo radical islâmico", afirmou o porta-voz de Trump. O próprio milionário escrevera logo no Twitter a recordar que "Sob a liderança de Obama e Clinton os americanos experimentaram mais ataques em casa do que vitórias lá fora. Chegou a hora de mudar o guião", até porque a situação "só vai piorar". Pouco depois da explosão em Nova Iorque, quando as autoridades ainda não tinham confirmado a sua origem, Trump não hesitara em afirmar: "Uma bomba rebentou pouco antes de eu sair do avião", sublinhando ser hora de "sermos duros".

Praticamente ao mesmo tempo, Hillary mostrava-se bem mais cautelosa, preferindo deixar "a investigação decorrer" e "voltar a falar quando tiver mais factos". Ontem, a candidata democrata recordou que é "a única nesta corrida que já esteve envolvida na difícil decisão de combater terroristas no terreno". A ex-primeira dama, que foi secretária de Estado de Barack Obama entre 2009 e 2013 reafirmou ainda: "Sejamos vigilantes, mas não tenhamos medo. Não nos podemos virar uns contra os outros". E deixou o alerta: "Temos um nomeado republicano à presidência que incita ao ódio e à violência, como nunca se viu antes".

Com a realidade a vir dar razão a Trump quanto à bomba em Nova Iorque, o professor Tim Sieber, da universidade de Boston, explica ao DN que o republicano "aposta muito no receio do público em relação à desordem e aos perigos vindos de fora para fazer mal aos EUA". E, nesse cenário, o candidato republicano apresenta-se como "o líder forte e decidido, que não tem medo de recorrer à agressão contra o inimigo",refere o académico, para o qual a reação de Hillary Clinton pode prejudicá-la.

Nas últimas semanas, as sondagens mostraram Trump a recuperar e depois a ultrapassar Hillary. O último estudo do Los Angeles Times dá sete pontos de vantagem ao candidato republicanos sobre a rival democrata: 48% contra 41%. Realizada junto de 2465 pessoas, esta sondagem reflete já as reações à pneumonia diagnosticada à ex-primeira dama após o seu desmaio nas cerimónias do 11 de Setembro.

Mário Avelar, que conhece bem a zona de Elizabeth (onde se deu uma das explosões), por ter dado aulas na universidade de Rutgers, contou ao DN como ao ver a reação de Hillary Clinton a sentiu como "o discurso de uma pessoa sensata. Mas com a realidade a confirmar que se tratava de uma bomba, o professor catedrático de Estudos Anglo-Saxónicos na Universidade Aberta admite que a candidata democrata "sem entrar no radicalismo emocional de Trump devia ter dito mais qualquer coisa".

Apesar de toda a sua experiência em política externa - sobretudo perante um Trump que não tem nenhuma -, Hillary não tem conseguido impor-se como única candidata capaz de lidar com a ameaça terrorista. Para Mário Avelar, isso deve-se em grande parte ao "aproveitamento" que o milionário tem feito de "situações emocionais" como a que se viveu após os ataques do fim de semana. Um clima propício para um discurso como o de Trump que no passado defendeu banir todos os muçulmanos de entrarem nos EUA.

Menos certezas tem Luís Nuno Rodrigues. O diretor do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE-IUL recorda ao DN que após ameaças ou ataques terroristas "a opinião pública tende a manifestar uma atitude de menor tolerância para com o outro" e isso "poderia à primeira vista ser favorável para a candidatura de Donald Trump". Mas nessas alturas, os estudos mostram que os americanos também tendem a dar "maior peso à qualidade de liderança" e aqui "apesar da postura mais contundente de Trump, no capítulo da experiência Hillary bate aos pontos o candidato republicano".

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