OMS vai à China investigar origem da covid-19, mas Pequim aponta o dedo a Espanha

Esta semana assinalam-se os seis meses da identificação do novo coronavírus por parte das autoridades chinesas, que alegam agora que podem ser apenas um elo na correia de transmissão e defendem que a Organização Mundial de Saúde deve investigar todos os países.

No último dia de 2019, a China reportou à Organização Mundial de Saúde (OMS) a existência de um surto de pneumonia viral de origem desconhecida na cidade de Wuhan, mas foi preciso esperar pelo dia 9 de janeiro para que as autoridades de saúde de Pequim confirmassem que em causa estavam um novo coronavírus. Seis meses depois, a covid-19 já foi detetado em mais de 11 milhões de pessoas e matou mais de 530 mil.

Esta semana, a OMS vai enviar uma equipa para a China para identificar a origem do novo coronavírus, mas Pequim indica que apesar de a investigação começar no país, não significa que tenha sido ali a origem.

"A China é apenas um elo na cadeia de transmissão do vírus e a OMS tem que ir a mais países, como Espanha que relatou a existência do coronavírus em amostras de águas residuais recolhida em março de 2019, para uma investigação mais abrangente da origem do vírus", escreveu o jornal chinês Global Times (associado ao governo chinês), citando um perito do Primeiro Hospital da Universidade de Pequim, Wang Guangfa, que colaborou com a primeira equipa a OMS enviou para a China em fevereiro.

Em causa está um estudo da Universidade de Barcelona, publicado no site Medrxiv.com (onde são publicados estudos que ainda não foram sujeitos a validação pelos pares), que concluiu precisamente que o novo coronavírus foi detetado em águas de esgotos de Barcelona numa amostra de 12 de março de 2019, quase um ano antes de o primeiro caso ser detetado oficialmente em Espanha (fevereiro de 2020).

O estudo é sobre uma análise de várias amostras de águas em 2020, contendo uma pequena referência à amostra de dia 12 de março de 2019 (que tinha sido congelada). E a suposta presença do novo coronavírus -- outros especialistas duvidam da conclusão e falam na possibilidade de uma contaminação da amostra -- não significa que Espanha tenha sido a origem.

"Barcelona é o centro de negócios e comércio, além de um destino popular para eventos em massa, reunindo visitantes de muitas partes do mundo", lê-se no estudo, sugerindo que essa poderia ser a origem da amostra positiva. "É contudo provável que situações semelhantes possam ter ocorrido em várias outras partes do mundo, com a circulação de casos não identificados de covid-19 na comunidade", acrescenta.

Os cientistas têm descoberto a presença do covid-19 em águas residuais muito antes de os casos terem sido identificados nos países, com este estudo a alegar que este tipo de análises deve ser tido em conta no futuro, para evitar novos surtos. Em Itália, por exemplo, há registo do vírus em Milão e Turim em meados de dezembro, dois meses antes de o país ter sido obrigado a fechar por causa do covid-19.

A China tem estado debaixo de ataque por alegadamente ter escondido a existência do novo coronavírus, com países como os EUA ou a Austrália a exigirem uma investigação independente sobre a origem do vírus -- há quem alegue também que foi fabricado num laboratório de Wuhan (o laboratório em causa nega e os peritos defendem que o vírus é de origem natural).

"Identificar a fonte do coronavírus deve ser baseada na negociação e envolver múltiplos países", disse Zeng Wang, epidemiologista chefe do Centro para a Prevenção e o Controlo de Doenças da China, citado pelo Global Times. "Primeiro, qualquer prova sobre a origem deve ser recolhida globalmente e depois ordenada de acordo com a data da ocorrência e depois equipas devem ser enviadas para os países envolvidos para identificação científica e pesquisa", acrescentou

"Não interessa em que país a identificação científica começa, desde que envolva todos os países e seja conduzida de maneira justa", disse ainda.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG