Obama "impressionado" com energia e reformas de Macri

Presidente dos EUA elogiou ontem em Buenos Aires o homólogo argentino e disse esperar ser possível "reconstruir a confiança e a fé" perdidas entre os dois países nos últimos anos

Um dos objetivos da visita de Barack Obama à Argentina é virar a página nas relações entre Washington e Buenos Aires, marcadas nos últimos anos pela retórica anti-EUA da ex-presidente Cristina Kirchner. Não deixa por isso de ser curioso que o jantar de gala oferecido ontem pelo atual chefe de Estado argentino, Maurício Macri, ao seu homólogo norte-americano tenha lugar no Centro Cultural Néstor Kirchner, inaugurado em 2015 por Cristina em homenagem ao falecido marido e presidente.

No menu do jantar estava uma torre de truta fumada e legumes, seguida de cordeiro assado com batatas dominó. Para sobremesa havia um vulcão do tradicional doce argentino, dulce de leche. O jantar foi o culminar de um longo dia para Obama, que chegou a Buenos Aires já passava da uma da manhã (mais três horas em Lisboa), depois de uma visita histórica a Cuba.

O dia de Obama começou com uma reunião com Macri, que está há pouco mais de cem dias na Casa Rosada. Na conferência de imprensa, o presidente argentino destacou a importância da visita: "Espero que seja o começo de uma nova etapa de relações inteligentes, maduras, que têm como única preocupação melhorar a qualidade de vida dos nossos povos." Antes elogiara Obama: "A sua liderança foi inspiradora para a maioria dos dirigentes."

Obama respondeu dizendo que os EUA estão prontos para trabalhar com a Argentina nesta "transição histórica", dizendo-se "impressionado" pela energia de Macri e por ele ter aplicado tão rapidamente as reformas económicas que prometera na campanha. "Sob a liderança de Macri, a Argentina está a recuperar o papel de líder na região", disse. "Espero que possamos reconstruir a confiança e a fé que se perderam entre os dois países. Esta é uma mensagem não só para a Argentina, mas para todo o hemisfério", lembrou.

Sob a liderança de Macri, a Argentina está a recuperar o papel de líder na região

Nos últimos 12 anos, as relações estiveram marcadas pela liderança de Néstor e Cristina Kirchner. O próprio Obama considerou, numa entrevista à CNN, as polícias da ex-presidente como "antiamericanas". George W. Bush foi o último líder dos EUA a visitar a Argentina. Esteve em Mar del Plata, por ocasião da Cimeira das Américas de 2005, que ficou marcada pela rutura do projeto da Área de Livre Comércio das Américas, impulsionado por Washington. "Alca al carajo", disse o então líder venezuelano, Hugo Chávez, ao lado de Kirchner.

Ontem, EUA e Argentina assinaram acordos de cooperação em matéria de segurança, comércio e luta contra o narcotráfico. Obama destacou o princípio de acordo de Buenos Aires com os "fundos buitre [abutre]", fundos de capital de risco que compraram dívida argentina após o default de 2001 a preços baixos e recorreram aos tribunais de Nova Iorque para obrigar os argentinos a pagar por inteiro. Kirchner recusou sempre negociar.

Ditadura

Macri e Obama falaram aos jornalistas na Sala Branca da Casa Rosada e não na sala de imprensa, onde há um cartaz de homenagem a Rodolfo Walsh, jornalista montonero (grupo de guerrilha urbana) que foi assassinado na ditadura (1976--1983). A visita do presidente dos EUA foi criticada por ocorrer no 40.º aniversá rio do golpe militar, que foi apoiado pelos norte-americanos.

Na semana passada, Washington anunciou a desclassificação dos documentos secretos referentes aos anos da ditadura. Macri agradeceu esse gesto, dizendo ser importante para os argentinos conhecer a verdade. Também o Vaticano anunciou que vai abrir os arquivos da Igreja desse período negro da história argentina, com mais de 30 mil mortos e desaparecidos. Hoje, Obama vai prestar homenagem às vítimas, antes de viajar para a Patagónia, para uma visita privada com a família.

Ontem, Obama visitou a Catedral Metropolitana de Buenos Aires, para homenagear San Martín, o "libertador" e "pai da pátria argentina" e as 84 vítimas mortais do atentado contra a associação judaica AMIA, em 1994. A primeira-dama, Michelle Obama, esteve com a homóloga argentina, Juliana Awada, e falou da importância da educação para as jovens. "Cá tiveram uma presidente e agora têm uma vice-presidente. São marcos que ainda não alcançámos no nosso país", disse a primeira-dama norte-americana.

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