Raul Castro diz desconhecer casos: "Mostrem lista de presos políticos"

Encontro entre os presidente cubano e americano marcado pelas perguntas dos jornalistas relativamente aos presos políticos

A questão dos prisioneiros políticos em Cuba foi o momento mais quente da conferência de imprensa conjunta de Barack Obama e Raul Castro, esta tarde de segunda-feira, em Havana. Questionado por jornalistas americanos sobre direitos humanos e a existência destes detidos, Raul Castro deu a entender desconhecer a sua existência. Já Obama falou na necessidade de coexistir com "um regime diferente".

"Creio que a questão dos direitos humanos não deve ser politizada", afirmou Raul Castro, contra-atacando com as questões sociais com que se batem muitos americanos: "Acredita que há um direito mais sagrado do que o direito à saúde, para que nem uma criança morra por não ter acesso a uma vacina? Em Cuba, todas as crianças nascem num hospital e são registadas no mesmo dia", disse, numa clara referência à inexistência de um sistema nacional de saúde nos EUA. "Temos muitos direitos. O direito à saúde, o direito à educação... O direito de as mulheres receberem o mesmo que os homens [pelo mesmo trabalho]".

"Não é correto perguntar-me sobre prisioneiros políticos em geral", afirmou Castro. Já antes tinha reagido de forma acalorada a outra questão sobre o assunto, desafiando o jornalista a dar-lhe "uma lista de nomes de presos políticos". "Dê-me um nome e ele será libertado esta noite", afirmou.

Barack Obama, por seu lado, defletiu a questão, lembrando que há vários países com quem os EUA mantêm uma relação diplomática normal e com quem existem divergências relativamente aos direitos humanos: "Tenho grandes diferenças com os chineses acerca de direitos humanos. Vou brevemente ao Vietname e também tenho grandes diferenças com eles", disse o Presidente americano.

"Não podemos forçar a mudança em nenhum país", acrescentou. "Eu tenho fé nas pessoas. Acho que se me encontrar com os cubanos aqui, eles vão reconhecer que pessoas são pessoas, pelo que penso que a mudança irá ocorrer".

Obama revelara antes alguma atrapalhação quando a questão lhe foi inicialmente colocada. Disse que tivera uma "franca conversa relativamente à democracia e aos direitos humanos". E acrescentou: "O nosso ponto de partida é que temos dois sistemas diferentes, dois sistemas diferentes de governo e de economia. E temos décadas de diferenças".

"Estamos a avançar e não a olhar para trás. Não vemos Cuba como uma ameaça para os Estados Unidos", sublinhou.

Obama fez mesmo questão de dizer que o embargo económico "vai acabar". "Só não sabemos quando", uma vez que é necessária a aprovação por maioria do Congresso e por maioria qualificada do Senado. Mas voltou a argumentar que "não faz sentido continuar a fazer uma coisa que durante 50 anos não resultou".

Exigências de Castro e agradecimentos de Obama

Durante a conferência de imprensa, o Presidente cubano pediu a Barack Obama o fim do embargo económico e a devolução do território de Guantánamo a Cuba. O seu homólogo americano fez questão de dizer que "o futuro de Cuba será decidido pelos cubanos". E anunciou que as próximas negociações sobre os direitos humanos naquele país se realizará em Havana.

Raul Castro afirmou "reconhecer a posição do presidente Obama e da sua administração relativamente ao embargo e os seus repetidos apelos ao Congresso para que este seja levantado".

Castro considerou as medidas tomadas pela administração americana "positivas mas insuficientes". O presidente cubano disse que descreveu a Barack Obama a forma como o embargo "tem prejudicado as famílas cubanas".

Também pediu aos EUA o "regresso do território ilegalmente ocupado da base de Guantánamo".

A finalizar, agradeceu a Obama a visita e disse que o seu governo continuará "a trabalhar para a criação de uma nova forma de relação". "Destruir uma ponte é fácil, a sua reconstrução sólida pode ser um trabalho longo e difícil".

De seguida, o Presidente Barack Obama agradeceu à forma como ele, a sua família e a comitiva - que "inclui 40 membros do Congresso", fez questão de realçar - estão a ser recebidos em Havana. "É um novo dia", disse Obama. "Trago comigo a amizade do povo americano", afirmou.

Fazendo questão de dizer que "o futuro de Cuba será sempre decidido pelo povo cubano", Obama ainda elogiou as enormes conquistas" que o país conseguiu em áreas como a educação e a saúde.

No entanto, realçou que há trabalho a fazer nas áreas dos direitos humanos. Pelo que, anunciou, o próximo encontro entre Estados Unidos e Cuba sobre direitos humanos realizar-se-á em Cuba.

Obama enumerou os avanços na relação entre os dois países já obtidos este ano - da abertura do serviço de correios à troca de estudantes, por exemplo - esperando que haja cada vez mais "americanos a visitar Cuba nos próximos anos".

As novas regras, disse Obama, permitem que a moeda americana seja utilizada de forma mais ampla, mais acesso a dólares nas transações internacionais. "Tal como continuamos a apelar ao Congresso para levantar o embargo a Cuba, encorajo o Presidente Castro para eliminar algumas restrições" às empresas em Cuba.

O Presidente americano também anunciou que está a trabalhar para levar a Internet a Cuba, algo que um país necessita "para ter sucesso no século XXI".

Conversa de circunstância

O presidente norte-americano Barack Obama passou esta segunda-feira do turismo para os assuntos de Estado na sua histórica viagem a Cuba, ao encontrar-se com o presidente Raúl Castro. Os dois líderes reuniram-se a partir das 15h00, e, enquanto apertavam as mãos fizeram conversa de circunstância.

De acordo com o The Guardian, Raúl Castro perguntou a Obama o que achou de Havana, ao que o presidente norte-americano respondeu que ontem ele e a família haviam feito "um belo passeio". Obama terá ainda elogiado o jantar.

Quando Barack Obama e Raúl Castro se encontraram cara a cara, no Palácio da Revolução, em Havana, - onde Castro e o seu predecessor, o seu irmão mais velho Fidel Castro, têm liderado a resistência cubana à pressão norte-americana nas últimas décadas - ouviram-se os hinos nacionais dos Estados Unidos e de Cuba. Depois, os dois líderes mundiais assistiram à guarda de honra.

Este é o quarto encontro entre Obama e Castro, e espera-se que seja o mais substancial de todos.

Uma visita presidencial norte-americana ao coração do poder cubano seria impensável antes da aproximação entre Obama e Raúl Castro há 15 meses, quando acordaram pôr fim à disputa da era da Guerra Fria que durou cinco décadas e que se prolongou mesmo após o colapso da União Soviética.

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