Obama diz hola! a Havana com direitos humanos na bagagem

Presidente começou ontem a primeira viagem de um chefe de Estado à ilha em quase 90 anos. Hoje reúne-se com Raúl Castro

Depois de ter respondido por carta ao convite de Ileana Yarza para beber um café e de ter entrado num sketch da televisão cubana com o humorista Pánfilo, Barack Obama chegou ontem à tarde a Havana para a primeira visita oficial de um presidente americano à ilha em quase 90 anos. Nas 48 horas que vai passar em Cuba, Obama terá tempo para assistir a um jogo de basebol, fazer turismo pelas casas coloniais de Havana Velha e, claro, reunir-se com Raúl Castro. Na bagagem do presidente americano, além do reforço das trocas comerciais, estará a questão dos direitos humanos. O embargo, esse, é que continua sem fim à vista.

Eram 16.20 (mais quatro horas em Lisboa) quando o Air Force One aterrou no Aeroporto José Martí. Obama, acompanhado pela mulher, Michelle (de vestido florido), pelas filhas, Malia e Sasha, bem como por uma delegação do Congresso, acabara de escrever no Twitter: "Que tal Cuba? Acabei de aterrar, entusiasmado por me encontrar com e falar diretamente com o povo cubano." À sua espera tinha uma vasta comitiva, entre a qual o ministro dos Negócios Estrangeiros cubano, Bruno Rodrígues Parrilla. Mas não Raúl Castro. Sob uma chuva que o obrigou a segurar o chapéu para proteger Michelle, Obama saudou as pessoas antes de entrar na sua limusina presidencial e blindada, conhecida como A Besta.

A imagem do avião presidencial americano a aterrar em Havana era algo que até há pouco os cubanos não imaginavam ver e só tornada possível pela decisão de Obama de pôr fim a meio século de política isolacionista em relação à ilha. Agora, quer tornar a aproximação irreversível. Mesmo se o embargo, apenas levantável pelo Congresso dominado pelos republicanos, vai continuar para já em vigor.

Nos últimos dias, as ruas da capital cubana encheram-se de cartazes com os rostos de Obama e Raúl Castro e de turistas a tirar fotografias com esta imagem icónica. Refletindo os sentimentos contraditórios que a visita de Obama provoca nos cubanos, a polícia de Havana deteve dezenas de manifestantes que participavam no protesto semanal das Damas de Branco, organização criada por mulheres de prisioneiros políticos.

Em Miami, a comunidade cubana também protestou contra a ida de Obama a Cuba. Segundo El Nuevo Herald, centenas de exilados cubanos desfilaram por Little Havana com cartazes e bandeiras cubanas.
Jantar de Estado.

Depois de em dezembro de 2014 Obama e Raúl Castro terem surpreendido o mundo ao anunciar o início da normalização das relações entre EUA e Cuba, esta visita de Obama - que deixa a Casa Branca em janeiro do próximo ano - é vista como mais um passo na aproximação entre os velhos inimigos da Guerra Fria. Hoje à noite, e depois da receção oficial na Praça da Revolução e de um encontro em que irão discutir a situação dos direitos humanos e formas de melhorar a vida dos cubanos (está prevista uma conferência de imprensa), Raúl Castro oferece um jantar de Estado a Obama no Palácio da Revolução.

Pelo meio, o presidente americano deve ainda ter um encontro com empresários cubanos e americanos para analisar oportunidades de negócio. No sábado, o governo cubano assinou um acordo com a cadeia Starwood, que em breve abrirá dois hotéis em Cuba.

Amanhã, último dia da visita, Obama deverá dirigir-se ao povo cubano no Gran Teatro de Havana, prometendo um discurso que irá abordar a tumultuosa relação dos EUA e Cuba e será transmitido em diretor pela rádio e televisão nacionais. Nesse dia, o presidente americano tem ainda encontro marcado com membros da sociedade civil e dissidentes cubanos, antes de um momento de descontração a ver o jogo de basebol entre a seleção cubana e os Tampa Bay Rays.

De fora da agenda ficou um encontro com Fidel Castro. O histórico líder cubano, que em 2006 passou o poder ao irmão Raúl, mantém-se ativo, apesar dos 89 anos. E ainda ontem encheu páginas dos jornais cubanos, quando estes publicaram fotos do seu encontro com o presidente venezuelano, Nicolás Maduro.

Embargo resiste

Troca de prisioneiros, reabertura das embaixadas, levantamento das restrições às viagens, incentivos aos negócios, são muitos os passos que se deram nos últimos 15 meses para normalizar as relações entre EUA e Cuba, contornando o embargo. Mas ainda há obstáculos pelo caminho. O embargo é dos maiores, com o Congresso dominado pelos republicanos a travar qualquer tentativa de pôr fim ao bloqueio comercial.

E se Washington continua a ter dúvidas quanto ao respeito pelos direitos humanos do regime cubano, Havana também tem exigências. Uma é a devolução da base naval de Guantánamo a Cuba e o fim do "financiamento de programas de "mudança de regime"", como afirmou ao DN a embaixadora de Cuba em Portugal, Johana Tablada de la Torre. O governo cubano critica ainda o apoio dos EUA aos dissidentes cubanos, bem como aos programas de rádio e televisão anticomunistas.

"São muitos anos de desconfiança e não vamos mudar assim o nosso sistema, os nossos valores", explicou à Reuters Ileana Valdes, uma enfermeira de 55 anos. Para Alberto Hernandez, vendedor de rua, Obama "vem, dá uma volta num carro vintage, fuma um charuto e vai-se embora" sem resolver nada.

Nos EUA também há quem critique a viagem de Obama, acusado de estar a fazer demasiadas concessões aos cubanos a troco de muito pouco. Uma atitude que os inimigos do presidente democrata relacionam com o seu desejo de deixar um legado forte em termos de política externa quando deixar a Casa Branca, já em janeiro.

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