"O tuitar atraiçoa o senhor Trump e diz coisas contra os mexicanos"

Entrevista a Ernesto Zedillo, que foi presidente do México entre 1994 e 2000. Esteve em Lisboa, para uma palestra na Universidade Europeia, cujo tema foi o populismo e a globalização.

Como presidente mexicano, Ernesto Zedillo coincidiu com o democrata Bill Clinton na Casa Branca e não faltam fotos dos dois a sorrir. Mais complicada é a sua opinião sobre Donald Trump, a quem chama de raro caso de "populista não tropical". Mesmo assim - e depois de ter estado em Lisboa na Universidade Europeia para uma conferência sobre populismos e globalização -afirmou ao DN considerar o venezuelano Nicolás Maduro "o campeão mundial do populismo".

Sei que sendo um antigo presidente mexicano e vivendo nos Estados Unidos o questionam muitas vezes sobre Donald Trump e o muro. Mas tenho de lhe perguntar: mudou para os mexicanos a perceção dos Estados Unidos desde a eleição de Trump?

Bem, dada a linguagem que usou o então candidato Trump para com o México e os assuntos bilaterais, é natural que isso tenha tido um efeito negativo na opinião de muitos mexicanos sobre o senhor Trump e também sobre os Estados Unidos. Não nos devemos esquecer de que no México, por razões históricas, sempre houve um certo antiamericanismo, que creio que nas últimas décadas se tinha atenuado por causa da interdependência, por causa da abertura, mas agora regressa em consequência de o candidato Trump ter usado expressões más e o presidente Trump infelizmente de tempos em tempos voltar a elas.

Insiste em falar no candidato Trump quando se refere aos ataques aos mexicanos como gente violenta. Isso quer dizer que, depois da tomada de posse, Trump já fala de outra forma?

Está um pouco mais moderado. Mas infelizmente o tuitar atraiçoa o senhor Trump em alguns momentos e chega a dizer de novo coisas contra os mexicanos, impróprias para um presidente.

Na conferência que deu em Lisboa falou muito dos populismos. Para si, Trump é mais um exemplo?

Sim, muito claramente. É aquilo a que eu chamo um populista não tropical, do Norte, o que é algo extraordinário. Nunca pensei que isto viesse a passar-se nos Estados Unidos.

Quando fala de populismo não tropical está a admitir que é mais comum o populismo abaixo do Rio Grande?

Sim.

Mas curiosamente não no México?

Tivemos alguns presidentes que se aproximaram do populismo, prometendo coisas que talvez não fossem realizáveis e, sobretudo, querendo atribuir aos estrangeiros problemas que nós criámos.

Está a falar de políticos do PRI, do seu próprio partido?

Sim, como não? Estivemos no poder 70 anos seguidos. E não vou apontá-los porque as pessoas sabem quem foram. Não tivemos um populismo à la Perón ou à la Getúlio Vargas, como tiveram os argentinos e os brasileiros, mas tivemos presidentes que cortejaram o populismo ainda que nunca tenham caído na tentação de promover a reeleição, e isso foi muito bom, porque apesar da dominação do PRI, a cada seis anos mudávamos de governo.

Essa tradição de um só mandato, que existe no México e noutros países latino-americanos, não é contraproducente? Por exemplo, Sebastián Piñera regressa agora no Chile depois de um primeiro mandato entre 2010 e 1014. E Michelle Bachelet tinha feito o mesmo. Um só mandato é uma forma importante de evitar perpetuação no poder?

Acredito que a não reeleição é algo muito bom. Mas sempre pensei que mandatos de quatro anos são muito curtos. Mas mais de seis anos é algo muito mau. Ter a mesma pessoa oito anos ou dez anos a governar não é bom.

No seu caso, ao fim dos seis anos como presidente entre 1994 e 2000, não sentiu necessidade de outro mandato?

Nunca. A única razão porque eu voltaria à vida política seria para me opor a qualquer tentativa de mudar as regras da reeleição. Porque isso seria fatal para a democracia. E esta recente reciclagem de presidentes na América Latina não é boa. É preciso que outros governem.

Voltando ao tema do populismo na América Latina, considera que Nicolás Maduro é o expoente atual?

É o campeão mundial, com os resultados que estão à vista. A Venezuela é uma tragédia económica, política e humana. A dor causada ao povo é imensa.

Vê alguma diferença entre Maduro e o seu patrono Hugo Chávez ou este último teve apenas a vantagem de governar com o preço do petróleo em alta?

Acho que todos os populistas, mesmo quando governam com o preciosíssimo petróleo a preço alto, são maus. E acabam mal. Se revisitar a história da América Latina, não houve nenhum líder populista bem-sucedido. E alguns até acabaram por se suicidar.

Já que referiu Vargas, como vê a situação atual no Brasil, muito marcada pela mistura entre justiça e política, quando no tempo de Lula houve progresso, com a sua capacidade de governar à esquerda sem ser populista?

O presidente Lula foi mais moderado do que prometia ser. Teve a grande sorte de os preços das matérias-primas, que o Brasil exportava, estarem a níveis muito altos. E isso foi bom mas também mau, porque travou a necessidade de se aprofundar uma reforma que tinha sido iniciada no tempo de Fernando Henrique Cardoso. Foi uma espécie de anestesia que impediu que o sistema político brasileiro avançasse para fazer aquilo que é preciso para o país cumprir o seu potencial. O período Lula acabou por ser uma oportunidade perdida, como aconteceu também no meu país. Tivemos o preço do petróleo muito alto durante anos e o Estado esqueceu-se de aprofundar as reformas fiscais para diminuir a dependência dos rendimentos petrolíferos. Conseguimos reduzir a importância do petróleo como produto de exportação mas não conseguimos despetrolizar as finanças públicas.

Dada a sua convicção de que os governantes só devem ficar um mandato, como vê a hipótese de Lula ser candidato a presidente em 2018?

É uma má ideia. Já disse a alguns presidentes, alguns que são meus amigos, que é uma má ideia em qualquer país.

Falando do México, o mais populoso dos países de língua espanhola, uma das economias do G20. Com todos estes atributos, porque é que se ouve tanto falar de violência, dos narcotraficantes? Dá ideia de que é como o Brasil, sempre com o futuro adiado. É assim, ou o país tem progredido?

Se falarmos do México, ou do Brasil, e compararmos os indicadores sociais de há 50 anos com os de hoje, o progresso é evidente. Tanto o México como o Brasil são hoje países de rendimento médio. Dito isto, obviamente que permanecem desafios. Penso que especialmente no caso do México a principal barreira para prosseguirmos o desenvolvimento é a debilidade do Estado de direito. E uma das manifestações disso é o difícil que tem sido combater o crime organizado. Por outro lado, este crime ligado ao tráfico de drogas tem que ver muitíssimo com a política que temos seguido para lidar com o tema. E que é uma política que basicamente seguiu a dos Estados Unidos. O foco penal e proibitivo para tratar o tema das drogas está provado historicamente que é errado. Por uma decisão do Estado de ver as drogas não como um problema de saúde pública mas como um problema criminal, o próprio Estado criou as condições para um mercado negro onde se movimenta muito dinheiro e onde há gente com incentivo para agir à margem da lei.

Há margem para o México fazer diferente sendo esse o foco do vizinho?

Não e é por isso que tem de ser tratado a nível da comunidade internacional..

Há um ano estive na Califórnia, onde os mexicanos são muito apreciados pelo seu trabalho. Mas um desses mexicanos disse-me que bastava passar a fronteira de San Isidro para haver uma mudança de mentalidade, até no respeitar do limite de velocidade. É esta mudança de mentalidade à entrada nos Estados Unidos que explica o sucesso dos emigrantes mexicanos?

O pensamento não muda, mas simplesmente - e estamos a falar de um estereótipo - aqueles que não acatam as regras, e são uma minoria, sabem que nos Estados Unidos se violarem uma regra é mais provável que tenham de prestar contas.

Mas acredita que o sistema americano cria mais oportunidades para os mexicanos terem sucesso?

Bem, o sistema mexicano também permite o sucesso. Há muita gente de sucesso no México. Se a vida lhes dá oportunidades de ser competitivos podem ter igual ou até mais êxito no México do que nos Estados Unidos. O que se passa é que temos muitas situações ainda de injustiça em que as pessoas não têm as mesmas oportunidades de educação. E, claro, os Estados Unidos são um país muito mas rico do ponto de vista económico e oferecem mais oportunidades em algumas atividades ou profissões.

Disse no início que os mexicanos têm muitas razões de queixa dos Estados Unidos. Estava a falar da perda do Texas e da Califórnia no século XIX?

Isso e outras coisas.

Para si, mexicano, dá-lhe gosto ver como a cultura dos Estados Unidos é hoje tão influenciada pela língua espanhola e pelos imigrantes mexicanos?

Dá-me gosto que nos Estados Unidos haja influência cultural de muitos países. É admirável o melting pot. E por isso é fascinante ver não só o contributo dos mexicanos, como a influência irlandesa, alemã, africana. Claro que a influência mexicana é muito importante, não só porque uma parte da história dos Estados Unidos é mexicana, mas também pelas vagas migratórias. E isso enriqueceu muito a cultura dos americanos e a maioria deles desfrutam muito disso.

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