O trineto índio do Portuguese Joe que foi do Pico para o Canadá

Luke Marston esteve em Portugal nesta semana e quer trazer para Lisboa uma escultura que una a sua dupla herança cultural.

Quando era miúdo, Luke Marston costumava ouvir as histórias de José Silva, aquele trisavô conhecido como Portuguese Joe, que deixou a ilha do Pico num baleeiro em meados do século XIX e um dia chegou à costa do Canadá em busca de ouro, tendo acabado por casar-se com duas índias. A segunda era a trisavó de Luke. "Apesar de ser índio, sempre soube que tinha ascendência portuguesa", conta o escultor ao DN diante de uma maquete da sua obra Shore to Shore, que há dois anos inaugurou no Stanley Park de Vancouver em homenagem a esta dupla herança. Agora quer trazer para Lisboa uma escultura semelhante, para assinalar os 150 anos do Canadá e celebrar essa integração pregada pelo primeiro-ministro Justin Trudeau e de que Joe é exemplo.

"A minha mãe e a minha tia, a irmã mais velha dela, sempre me contaram histórias do trisavô pioneiro, vindo do Pico, essa grande ilha dos Açores", recorda Luke numa das salas da Embaixada do Canadá em Lisboa, em plena Avenida da Liberdade. Eram histórias de Portugal, algumas que o tempo tornara fantasiosa. "Houve uma altura em que alguém chegou a dizer que o Joe vinha de um castelo e eu pensei. "O quê?"", ri-se Luke, enquanto arregaça mais as mangas, deixando ver a ponta de uma tatuagem: uma águia com símbolos tribais.

Confrontado com a história daquele que para ele é apenas Joe - "great-great-grandfather [trisavô em inglês] não dá jeito nenhum numa conversa" -, Luke decidiu que queria homenagear o antepassado português. Mas também a trisavó Kwatleematt. Conhecida como Lucy, a índia salish foi a segunda mulher de Joe Silvey (um inglesamento de José Silva), que antes tinha sido casado com Khaltinaht, neta do chefe Kiapilano (ver texto ao lado). Depois de anos embarcado num baleeiro, o açoriano chegou à Colúmbia Britânica à procura de ouro, tendo acabado por abrir um saloon, antes de se dedicar à pesca, tendo sido pioneiro na técnica da rede de cerco.

Foi precisamente a pesca que inspirou Shore to Shore - ou Costa a Costa. A escultura com cinco metros de altura tem no seu centro uma reprodução de um isco usado para pescar bacalhau. Foi esse isco que Luke decidiu "adaptar e usar quase como um totem para registar a história da minha família", conta.

Foram necessários cinco anos para completar o projeto que hoje pode ser visto no Stanley Park, em Vancouver, e teve financiamento dos governos canadiano, português, dos Povos das Primeiras Nações e da família de Silvey através de Luke.

Colocada sobre uma base em calçada portuguesa, a estátua de madeira coberta de bronze inclui ainda as figuras de Joe Silvey e das duas mulheres, Khaltinaht e Kwatleemat.

A inspiração para a obra levou Luke até ao Pico. "Uma das principais razões para irmos lá foi ver a Calheta [de Nesquim], ver de onde Joe vinha", conta o escultor. Mas não foi o único motivo por detrás da primeira visita de Luke a solo português. O outro foi arranjar a pedra para a base em calçada portuguesa em Shore to Shore. Agora que visitou Lisboa pela primeira vez, Luke não deixa de se espantar por ter encontrado aquelas mesmas pedrinhas um pouco por toda a capital portuguesa. "Há iguais por toda a Lisboa! Não fazia ideia", exclama.

Prestes a regressar ao Canadá, Luke espera voltar em breve. Se conseguir luz verde da Câmara, irá trabalhar na nova escultura no Canadá, enviando-a depois em peças separadas que serão cobertas de bronze e montadas em Lisboa - um processo que o escultor quererá acompanhar. Quanto a uma eventual localização para a obra, tanto Luke como o embaixador do Canadá em Lisboa, Jeffrey Marder, admitem que "ainda é cedo". A obra, a concretizar-se, iria inserir-se numa série de iniciativas desenvolvidas pela embaixada para assinalar os 150 anos do Canadá - entre as quais já no dia 4 de março um concerto da cantora canadiana Tammy Weis na Casa Fernando Pessoa.

Filho de artistas, Luke cresceu a ver os pais, também escultores, lutar pelo reconhecimento da arte indígena. E se as histórias do trisavô Portuguese Joe e até de um avô que andava pelas ruas a cantar uma canção em português marcaram a sua infância, reconhece que o lado índio - salish, uma das tribos daquilo a que os canadianos chamam Primeiras Nações - é dominante.

Baú das Primeiras Nações

Foi para representar todas as Primeiras Nações do Canadá que Luke, a pedido do governo, criou um baú de madeira que se tornou símbolo da luta pelo reconhecimento dos direitos dos índios no Canadá. "No Canadá existiam colégios internos para índios. Governo e Igreja Católica trabalharam em conjunto para criar este sistema de escolas baseado no modelo americano", explica. O objetivo era a assimilação total dos povos nativos ou, como diz o escultor: "Queriam tirar o índio de dentro da criança." Tempos negros, portanto, pelos quais o primeiro-ministro da altura, Stephen Harper, pediu desculpas em 2008, tendo estabelecido uma Comissão da Verdade e Reconciliação.

Depois de percorrer todo o Canadá, o baú encontrava-se no Museu Nacional dos Direitos Humanos em Winnipeg. Mas com o fim dos trabalhos da comissão, deverá agora mudar-se para um edifício onde ficarão arquivados os milhões de documentos e testemunhos recolhidos nos últimos sete anos.

Para Luke, uma coisa é certa, "houve compensações financeiras, mas é preciso fazer mais". E acredita que Trudeau pode ser a pessoa certa para apoiar os direitos dos indígenas. "Como todos os políticos, fez promessas que não pode cumprir", admite, dando como exemplo a construção do oleoduto que o primeiro-ministro aprovou após dizer que não o faria. Mas "sinto que ele é sincero quando fala dos índios".

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