O regresso triunfal de Evo Morales à Bolívia, um ano após ter sido obrigado a sair

Organização espera uma caravana de 800 carros, que vai percorrer mais de mil quilómetros.

O ex-presidente boliviano Evo Morales cruzará hoje a fronteira argentina por terra, para iniciar um "regresso triunfal" à Bolívia, com uma caravana de 800 carros que percorrerá mais de mil quilómetros até a zona "cocalera" de Cochabamba, onde iniciou sua carreira política.

O ex-presidente (2006-2019), de 61 anos, regressa um dia depois da posse do seu herdeiro político Luis Arce, que foi seu ministro da Economia, e horas antes de se completar um ano do dia de sua renúncia à presidência boliviana. Morales renunciou a 10 de novembro de 2019, depois de semanas de contestação em relação ao resultado das eleições e após perder o apoio das Forças Armadas, saindo da Bolívia um dia depois.

"Este é um regresso triunfal. Morales é um líder indiscutível a nível mundial", disse à AFP Huelvi Mamani, um dos encarregados da segurança do megaevento de boas-vindas, em Villazón, local de partida da caravana, já em território boliviano. "Esperamos milhares de pessoas. Em Villazón, somos quase 50 mil habitantes e vamos todos", alegou.

O ex-presidente boliviano e o atual presidente argentino, Alberto Fernández, estão desde a noite de domingo em La Quiaca, extremo norte da Argentina, na fronteira com a Bolívia. Morales chegou vindo de Buenos Aires e Fernández de La Paz, onde participou na tomada de posse de Arce, eleito em 18 de novembro com 55,1% dos votos na primeira volta.

Por volta das 10:00 (13:00 em Lisboa), Evo Morales e Alberto Fernández serão protagonistas de uma cerimónia, na qual o líder boliviano fará a despedida formal do país, onde ficou onze meses, desde 12 de dezembro, depois de passar um mês no México sob a tutela do presidente mexicano, Andrés Manuel López Obrador.

"Quando eu tinha muitos problemas para sair de Chimoré, em Cochabamba, Alberto Fernández telefonou diversas vezes para outros presidentes amigos. O irmão presidente argentino salvou a minha vida", disse Evo Morales em conferência neste fim de semana, antes de viajar para a fronteira.

Após a cerimónia do lado argentino, os dois protagonistas vão atravessar juntos a fronteira e, do lado boliviano, na cidade de Villazón, Evo Morales terá outro ato, desta vez o de regresso ao lar. Centenas de organizações sociais darão as boas-vindas a partir das 11:00 (14:00 em Lisboa).

Depois do evento, por volta das 16:00 de Lisboa, uma caravana com mais de mil veículos vai começar uma travessia por metade do território boliviano, atravessando três departamentos (Potosí, Oruro e Cochabamba) e dezenas de municípios.

Em pelo menos cinco cidades (Atocha, Orinoca, Uyuni, Oruro e Chaparé), Evo Morales vai parar para fazer novos atos nos quais vai reforçar a ideia de que "a democracia foi reinstalada na Bolívia".

A chegada ao destino final, Chimoré (Cochabamba), está prevista para quarta-feira, dia 11, exatamente um ano depois de Morales sair do país.

Morales abandonou a Bolívia um dia após renunciar ao cargo de presidente, após três semanas de protestos e greves contra uma fraude eleitoral, apontada pela Organização dos Estados Americanos (OEA), auditora do processo, e depois de ter perdido o apoio dos sindicatos, da Igreja e das Forças Armadas.

Evo Morales, no entanto, disse ter sido vítima de um "golpe de Estado" apoiado pelos Estados Unidos.

"Dedicar-me-ei à agricultura. Fico a sonhar em ter piscinas de criação de peixes. E, com certeza, terei outra atividade que será partilhar com os jovens a minha experiência sindical e em gestão pública. Tenho a obrigação de partilhar essa experiência de luta. E cuidarei do irmão presidente Luis Arce seja como auxiliar ou como militante", indicou.

No dia 26 de outubro, logo após a vitória nas urnas do seu candidato, a Justiça Penal boliviana decidiu anular a ordem de detenção e o processo judicial contra Evo Morales nos casos de sedição e terrorismo. A decisão abriu as portas para Morales voltar sem ser preso.

Para o ex-presidente, os processos por fraude eleitoral, sedição, genocídio, terrorismo, financiamento e incitação pública a delinquir e até violação são parte de uma "guerra suja".

"Tenho cerca de 30 processos, mas nenhum por corrupção. A História me julgará. Embora não tenham permitido que um indígena continue no Governo, não estamos arrependidos, não somos vingativos", garantiu Evo Morales.

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