O pragmático entre o gestor e o político

O novo chanceler fez carreira no mundo empresarial. Desde 2010 era o presidente da companhia de comboios

No ano passado, no auge da crise dos refugiados que assolou a Europa, o então presidente da companhia nacional de comboios, colocou as locomotivas à disposição dos migrantes, ajudando-os na viagem, por território austríaco, entre a Hungria e a Alemanha.

Essa atitude valeu-lhe aplausos. Mas também um processo em tribunal. O Partido da Liberdade (FPÖ) acusou-o de envolvimento em "tráfico de seres humanos", ao permitir que "pessoas não registadas tivessem atravessado o país de forma não controlada". Esse homem chama-se Christian Kern é o novo chanceler austríaco, nomeado pelo Partido Social Democrata (SPÖ) para substituir Werner Faymann, que se demitiu na sequência do descalabro eleitoral na primeira volta das presidenciais.

"Não é possível concluir se Kern está mais para a esquerda ou mais para a direita dentro do seu partido. Mas isso é uma vantagem. Até agora trabalhava como gestor de uma grande empresa e irá tentar combinar os valores clássicos da social-democracia com uma tentativa de estimular a economia. Irá mover-se no mesmo espaço de Tony Blair. Não é um Bernie Sanders nem um Jeremy Corbyn. Não é um revolucionário social, mas sim alguém com uma visão muito pragmática e que tem noção de que é preciso estimular a economia", explica ao DN o analista político Thomas Hofer.

Kern tem 50 anos. Filho de um eletricista e de uma secretária, cresceu num bairro operário de Viena e, antes de se dedicar à Gestão, estudou Jornalismo e Comunicação.

Apesar de ter feito quase toda a carreira no mundo empresarial, a política não é estranha a Kern. Já lá vão 32 anos desde que se filiou no SPÖ e, na primeira metade dos anos 90, foi porta-voz e chefe de gabinete do então líder da bancada parlamentar do partido.

A BBC sublinha-lhe a reputação de "excelente profissional" e de alguém que anda sempre impecavelmente vestido. A Deustche Welle chama-lhe um "fazedor de coisas" e um "mix perfeito" entre um político e um homem de negócios.

"Precisamos de tanto mercado quanto for possível, mas também de estado na dose necessária", disse Kern na primeira vez que se dirigiu ao Parlamento, ao sublinhar a necessidade de aliar investimentos públicos e privados.

É alguém com experiência no mundo económico e traz uma lufada de ar fresco que, pelo menos para já, parece contagiante", sintetiza em declarações ao DN o politólogo austríaco Christoph Hofinger.

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