O possível efeito boomerang da moção de Sánchez contra Rajoy

Moção de censura do PSOE contra o governo do PP é debatida na quinta e na sexta-feira e votada nesse último dia. Sánchez não tem apoios suficientes. Independentistas pressionam

A moção de censura do PSOE contra o governo do primeiro-ministro Mariano Rajoy, do PP, vai ser debatida na quinta e na sexta-feira. E votada nesse último dia.

Caso consiga vê-la aprovada, o líder dos socialistas, Pedro Sánchez, irá finalmente chegar à Moncloa, mas terá de pagar um elevado preço para corresponder aos mais variados tipos de exigências dos partidos regionais que apoiariam a moção contra os populares.

Caso não consiga vê-la aprovada, Sánchez será o alvo de um efeito boomerang da sua própria moção, havendo já vozes que defendem a sua demissão da liderança da oposição caso falhe o objetivo de retirar o poder a Rajoy.

Essa não seria, porém, a primeira vez que o faria desde que chegou a secretário-geral em julho de 2014. Demitiu-se em outubro de 2016, por ser contra a viabilização por via da abstenção de novo governo PP, mediante o impasse político criado pela falta de maioria absoluta em duas eleições legislativas em Espanha em menos de um ano. Em maio do ano passado voltou a ser eleito líder dos socialistas espanhóis. E agora, um ano depois, põe de novo em jogo o seu futuro político.

À boleia da sentença do caso de corrupção Gürtel, em que o PP foi multado e figuras como o ex-tesoureiro do partido, Luis Bárcenas, foram condenadas a duras penas, Sánchez resolveu anunciar uma moção de censura ao governo. Em parte instigado pelo líder do Podemos, Pablo Iglesias, que no próprio dia da sentença afirmou: "Pedro Sánchez conhece perfeitamente a disponibilidade do Podemos."

No dia seguinte, já Sánchez anunciara a moção contra Rajoy, Iglesias veio sublinhar que a apoiava "sem condições", ou seja, nem sequer exigiria ir para o governo. Mas ontem, depois de ter sido relegitimado como líder do Podemos por 68,42% dos militantes que votaram num referendo interno a propósito do caso da vivenda de 600 mil euros que adquiriu com a namorada, Iglesias mudou um pouco o discurso. "A última palavra, como sempre acontece no Podemos, será dos inscritos e das inscritas, que decidirão durante esta semana", anunciou o líder do Podemos no Twitter. Assim, num referendo-relâmpago, realizado quinta-feira pela internet, o Podemos colocará aos militantes a seguinte pergunta: "Apoias que o Podemos apoie a moção de censura do PSOE para retirar o PP de Mariano Rajoy do governo?". O que deixa Sánchez sem saber, até essa altura, se conta ou não com o apoio do Podemos de Iglesias.

Com o do Ciudadanos de Albert Rivera já sabe que não conta. O partido não quer Sánchez como chefe de um futuro governo pós-Rajoy e exige que fique prevista a convocação de novas legislativas. Isto porque o Ciudadanos, apesar de ter a sua génese na Catalunha, lidera as intenções de voto a nível nacional nas sondagens. O Ciudadanos poderia, em teoria, apresentar uma moção de censura alternativa, se conseguisse apoios (o número de deputados necessários para isso é de 35 e o partido só tem 32).

Sánchez, para ser bem-sucedido, precisaria que a sua moção tivesse 176 votos favoráveis pelo menos. Os socialistas têm só 84 deputados (85 com o da Nova Canárias). A estes poderia somar 71 do lado do Unidos Podemos (Esquerda Unida, Podemos e Compromís), 9 da ERC, 8 do PDeCAT, 5 do PNV e 2 do EH Bildu.

Entre as exigências dos partidos regionais contam-se as do PDeCAT sobre a liberdade dos chamados "presos políticos"ou o reconhecimento do direito dos catalães à autodeterminação. O PNV, que foi chave para aprovar o Orçamento, recusa o que pede o Ciudadanos: a convocação de novas eleições. A equação adivinha-se difícil.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG