"O Podemos queria ultrapassar PSOE e Sánchez não viu"

Deputado, diplomata, professor universitário e colaborador em vários media, José Ramón García-Hernández analisa o momento do PP e as vantagens de Mariano Rajoy em relação aos outros candidatos às eleições de dia 26

Depois de meses sem chegar a um acordo de governo, estas segundas eleições eram a melhor solução para o Partido Popular?

Durante meses não vimos negociações mas sim teatro. O problema era que os partidos que negociavam não conseguiam deputados suficientes para formar governo. Tudo era um embuste e uma mentira. Mas estas segundas eleições são uma péssima opção para nós porque há meses oferecemos uma boa solução, que era a grande coligação. A única pessoa que deve dar explicações é Pedro Sánchez. O Podemos queria ultrapassar o PSOE mas Sánchez não reparou nisso.

O PP encontra-se agora mais debilitado ou mais reforçado?

Mais reforçado. As pessoas repararam que fazemos o que dizemos.

E a imagem de Rajoy?

Também sai reforçada. Ele foi sincero com as possibilidades reais e apresentou a opção mais generosa para um governo que desse lugar a grandes reformas. Rajoy só fala de criar empregos enquanto os restantes estão mais preocupados com as cadeiras que querem ocupar.

O que perdeu Espanha ao longo destes seis meses?

A incerteza política criou incerteza económica e houve investimentos que deixaram de entrar no país e projetos que não se fizeram. Houve um bloqueio dos líderes jovens que esqueceram que a política é a aceitação do outro para o bem comum.

Os partidos falam em deixar de lado as linhas vermelhas para poder chegar a um acordo. No que é que o PP não aceita ceder?

O PP é alheio às linhas vermelhas que lança o Podemos. Em política temos de ter abertura. Mas há coisas que nunca vamos apoiar, que são contrárias à Constituição. O PP nunca vai, por exemplo, pôr em risco a unidade de Espanha.

E em que é que o partido está disponível para negociar?

Em tudo o que seja uma melhoria para a vida dos espanhóis. Devemos chegar a entendimentos sobre coisas concretas. Seria inverosímil que Sánchez quisesse ser primeiro-ministro sem ter ganho.

Um governo minoritário do PP implicaria muitos riscos?

Era uma opção difícil. O sistema constitucional espanhol põe mais pressão sobre a tomada de posse e a votação do Orçamento do Estado do que sobre o resto da legislatura, onde permite muitos acordos.

Esperam recuperar muitos votos em relação a 20 de dezembro?

Isso todos queremos saber. As sondagens dizem que o PP vai subir, mas não se sabe se também na divisão dos deputados.

A campanha está bipolarizada? Mariano Rajoy ou Pablo Iglesias?

A mudança em Espanha aconteceu em 2011, quando começámos a criar empregos. As sondagens dizem que o partido mais votado vai ser o PP e depois o Podemos. Não está bipolarizada, mas não parece que existam outras opções.

Pedro Sánchez ajudou à subida do Podemos de Pablo Iglesias?

É certo que Pedro Sánchez ajudou muito a formação de Pablo Iglesias, provavelmente com outro líder socialista o PSOE estaria mais forte. E muitas pessoas do partido eram favoráveis à grande coligação. Mas existe também uma grande mobilização da esquerda e da extrema-esquerda porque encontram aqui uma grande oportunidade.

O PP mudou há um ano uma parte da sua estrutura. Sentiram os resultados dessas mudanças?

Reforçar a comunicação era uma das coisas que faltava fazer. O PP tinha coisas muitos boas para comunicar mas não sabia como fazê-lo. O nosso vice-presidente de Comunicação, Pablo Casado, está a brilhar muito acima dos outros e isso ajuda também muito o PP. Rajoy, no debate televisivo dos quatro líderes, comunicou muito melhor do que a oposição estava à espera. Rajoy também reforçou a sua comunicação e ele também não é tão mau como os adversários faziam crer. Ele é bom e por isso no PP ninguém ficou admirado com o seu bom desempenho no debate. A oposição, sim, ficou admirada. Na campanha para as legislativas de 20 de dezembro só participou em debates com os candidatos de partidos com representação parlamentar: Ciudadanos e Podemos não estavam. Mariano Rajoy não tinha medo, tinha sim respeito.

Em seu entender, quais são então os pontos fortes de Rajoy?

Conhecimento, experiência, seriedade, capacidade de diálogo, liderança e saber resolver os problemas com sucesso. Em relação aos outros candidatos, aprender no governo pode sair muito caro aos espanhóis, nunca administraram um só euro público nenhum deles. Fora da política não encontrariam um posto de trabalho de gestão.

Quais são os principais desafios para Mariano Rajoy voltar a chefiar o governo?

O emprego, a coesão social, o estado de bem-estar, as reformas da saúde e da educação. E a inserção de Espanha no mundo da globalização e o desafio demográfico. Temos ainda de contar com o problema nacionalista.

Problema que poderia estar já resolvido com um novo governo?

Estamos a comprovar que existe na Catalunha uma coligação contranatura: Junts pel Sí. A maioria dos catalães quer continuar a fazer parte de Espanha.

Em Madrid

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