O picoense que faz diferença no Capitólio de Boston

Chegou com 14 anos à América e não sabia falar inglês. Mas o pai emigrara porque queria que os filhos aproveitassem as oportunidades do novo país e Tony Cabral não só se fez professor como desde 1990 é representante estadual no Massachusetts

O majestoso Capitólio do Massachusetts, em Beacon Hill, bem no coração de Boston, é o ponto de encontro combinado com Tony Cabral. É a terceira vez que visito a cidade e conheço bem a zona, mesmo que a última estada tenha sido em 2004 e então o edifício do século XVIII, de tijoleira e com cúpula dourada, estivesse coberto por uma faixa a celebrar um título dos Red Sox, a equipa local de basebol que quebrou um jejum de quase um século. A festa estava para ser dupla nesse novembro, pois o bostoniano John Kerry, candidato democrata, parecia capaz de derrotar George W. Bush nas presidenciais, mas não aconteceu e o republicano foi reeleito. Uma derrota de um homem do Massachusetts pela segunda vez para um Bush.

Como conta Tony Cabral, "em 1988 o candidato democrata era Michael Dukakis, um grande homem. Teria dado um grande presidente dos Estados Unidos, mas perdeu para Bush pai. Eu era um dos organizadores da campanha aqui na Nova Inglaterra, não só no Massachusetts como nos estados vizinhos".

A carreira política do luso-americano começou, pois, naquele final dos anos 1980, também com derrotas pessoais e, depois, a vitória em 1990, com a reeleição como representante estadual a repetir-se desde então a cada dois anos. Mas comecemos do início, com Tony Cabral sentado no seu gabinete a contar-me como foi chegar aos Estados Unidos adolescente e sem saber inglês: "Nasci nos Açores, no Pico, vim para cá com 14 anos com os meus pais. Ninguém falava inglês." No gabinete, fotos várias, com os filhos, com o nobel José Ramos-Horta, com Dukakis também.

Peço ao político que desfie então essa emigração familiar, no final dos anos 1960. "O meu pai tinha uma irmã mais velha que vivia nos Estados Unidos há 50 anos. O pai do meu pai, o meu avô Cabral, tinha já estado nos Estados Unidos duas vezes, sempre como pescador. Na segunda vez, quando regressa aos Açores, essa minha tia fica cá com uma irmã da minha avó. E um irmão da minha avó também vivia cá. Por isso a ligação", sublinha. Será essa tia, que viveu em Boston, depois na Califórnia e por fim em Bristol, cidadezinha de Rhode Island, que faz a petição para unificação familiar, a famosa carta de chamada.

A decisão da aventura americana foi do pai, Manuel Cabral júnior, para criar oportunidades para os filhos. "Ele era mecânico em Portugal, especialista em diesel. Um dos melhores do Pico. Ele tinha um jogo de ferramentas americano melhor do que o da oficina onde trabalhava. Tinha sido enviado pela minha tia. Estava-se num regime de ditadura em Portugal. Na década de 1960, Portugal não dava oportunidades a ninguém. Repare que ele vem com 59 anos, um homem cheio de energia, cheio de vontade, mas já com 59 anos. E traz de início os filhos solteiros, no fim viemos todos, nove irmãos, e ainda cunhados e sobrinhos. Naquela idade já não era para ele, era para nós. Ele era antissistema e até lhe recusaram durante anos o passaporte", conta Tony Cabral, lembrando-se também do desafio que foi para a mãe, Vitória.

Nascido em 1955, Tony Cabral podia em teoria ter ido ainda parar à Guerra no Ultramar. Não se podia saber na altura. Dependia do que ele estudasse em Portugal e de quantos anos o conflito colonial durasse. Mas garante que não foi essa a razão principal da ida para a América, até porque "um irmão mais velho fez tropa em Angola". Somos interrompidos por uns instante. Apresenta-me um dos seus colaboradores, Alves Medeiros, com raízes em São Miguel. E depois fico a conhecer ainda outra luso-americana também a trabalhar aqui com o político. É Jéssica Pinho, cuja família veio de São João da Madeira.

Voltamos às memórias. "Aterrar aqui não foi fácil. Os amigos ficaram lá. Não conhecia ninguém. E na família ninguém sabia falar inglês. A minha própria tia, quando chegámos a casa dela, já falava um português difícil para nós de entender. Metade daquilo já era inglês", relembra Tony Cabral, entre risos. E prossegue: "Não cheguei àquela América das cidades grandes. Bristol não era Nova Iorque. Chegámos à noite ao aeroporto de Boston, depois foi uma hora de carro até casa e só na manhã seguinte é que comecei a observar a América. Sítio pequeno e bonito. À beira-mar. Para mim foi bom. Era qualquer coisa de familiar. Nos Açores vivíamos a 50 metros do mar, na Madalena. Em Bristol, fomos aprender inglês. Chegámos em agosto e logo a seguir fomos para a escola. Uma prima comprou-nos roupa americana. Umas calças de ganga. Como os cowboys. Para não estar muito fora do ambiente. E comprou também uns sapatos sem atacadores. Mas roupa não era tudo. Tinha de ter objetivos e espírito forte. Havia outros portugueses na escola, mas a maioria eram italianos e irlandeses."

A escola correu bem a Tony Cabral, que fez questão de aproveitar as oportunidades, como o pai queria. Depois do liceu seguiu-se a universidade. "Estudei na hoje chamada UMass Dartmouth. Sempre quis ser professor desde criança. Estudei Línguas e Estudos Sociais e posso lecionar História e Sociologia."

Quando chegou à América, apanhou a época dos protestos contra a Guerra do Vietname. Tornou-se democrata. "Sempre gostei de política. O meu pai falava muito de política em casa. Votou no Humberto Delgado em 1958", explica o representante estadual do Massachusetts, que depois da universidade se fixou em New Bedford, cidade que em tempos foi capital baleeira e hoje é um bastião da comunidade portuguesa nos Estados Unidos. Em tempos, Tony Cabral até tentou ser eleito mayor da cidade, mas perdeu. "É a democracia."Em 1988 dá-se o tal envolvimento na campanha presidencial de Michael Dukakis. Antes já o tinha apoiado na candidatura a governador. Fala do greco-americano com admiração. "Teria sido um presidente fantástico. Foi o melhor governador que tivemos. Somos amigos. Quando me vê é Tony para cima e Tony para baixo. Tem vindo aqui apoiar propostas minhas. Como o reforço dos transportes públicos", relata Tony Cabral, que tem grande orgulho no trabalho legislativo que produz, como uma lei que obriga a Igreja Católica a reportar as denúncias de assédio sexual, uma resposta aos escândalos que afetaram Boston e que o filme Spotlight mostrou.

"Um representante estadual pode ter mais impacto no dia-a-dia do que o presidente, ou seja, na qualidade da escola, no haver ou não comboio e muito mais", diz o político enquanto me mostra o hemiciclo. Entra um pequeno grupo. Uma mulher cumprimenta Tony Cabral. É uma colega da bancada democrata, que mostra o Capitólio a uma comitiva de eleitores da sua zona. "Fazemos muito isto aqui nos Estados Unidos. É uma forma de a política estar próxima das pessoas", explica o político luso-americano.

O voto português conta muito no sucesso de Tony Cabral. É uma base importante. "Mas não se pode ganhar eleições só com voto da comunidade portuguesa", diz o próprio, adiantando que "os luso-americanos votam na sua grande maioria democrata. Talvez se eu fosse republicano não ganhasse. Há alguns portugueses que tiveram sucesso na vida e tornaram-se republicanos. Mas eu sou democrata porque é o partido que vai ao encontro das minhas ideias, que representa a classe trabalhadora e média. Defende também as causas justas, igualdade racial, igualdade de homens e mulheres. É assim há décadas."

Nas últimas presidenciais apoiou Hillary Clinton, "uma candidata muito qualificada e que merecia ganhar". Espera que Donald Trump, o vencedor das eleições de 2016, seja controlado nos seus excessos pelo resto da administração, em especial no que diz respeito à política externa. E continua confiante na América "terra das oportunidades".

Pai de Mark, já adulto, Tony Cabral tem uma filha de 9 anos de um segundo casamento. E Vitória, como a avó, tem ajudado o pai nas campanhas. "Nos eventos de angariação de fundos ela vai ao microfone apresentar-me", conta o político. A menina, cuja mãe é americana com remota costela portuguesa, duas vezes por semana vai à escola da comunidade. "Está entusiasmada. Gosta de aprender português. E em casa, quando queremos que a mãe não saiba de algo, falamos em português", conta, entre risos. Despedimo-nos. Mas três dias depois, numa ida a New Bedford, cruzo-me com Tony Cabral no restaurante Inner Bay. Vê-se que está ali em casa.

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