O mau momento de Moçambique não afasta interesse português

Marcelo Rebelo de Sousa chega a Maputo, no início deste mês, quando Moçambique mantém várias frentes de crise.

Se há algo a que os portugueses e os moçambicanos se acostumaram é a um trânsito frenético de visitas dos respetivos dirigentes políticos, e ao mais alto nível. Cavaco Silva assistiu, em janeiro de 2015, à posse de Filipe Nyusi como presidente de Moçambique. Seis meses mais tarde, Nyusi realizou a primeira visita de Estado fora do continente a Portugal.

Ainda antes de o ser, o atual Presidente português esteve em Maputo no final de 2015 e, mais uma vez, Nyusi voou para Lisboa para assistir à posse, em março, de Marcelo de Rebelo de Sousa - que, por sua vez, volta a Maputo a 4 de maio, agora como Chefe do Estado, para uma visita de quatro dias a um país que considera a sua "segunda pátria".

Filho de Baltazar Rebelo de Sousa, governador da então província ultramarina de Moçambique, o Chefe do Estado viveu parte da sua juventude na antiga Lourenço Marques e esta visita, segundo fonte diplomática, sinaliza não só esse "lado afetivo" como uma das "principais prioridades" da política externa portuguesa. Entre a sua última passagem por Maputo, em dezembro de 2015, para participar numa conferência internacional, e a que se avizinha muito mudou em Moçambique e não para melhor.

Além do agravamento dos confrontos entre as Forças de Defesa e Segurança e o braço armado da Renamo no centro de Moçambique, o metical entrou em queda livre, a inflação não para de subir, as exportações caíram, a ajuda externa também, tal como o investimento estrangeiro, incluindo o português - um valor de 73,7%, em linha com a média dos restantes países.

Apesar da excelência do relacionamento político, proclamada em todas as circunstâncias pelas duas diplomacias, a atual conjuntura de pesadelo, a que se soma uma crise de dívida pública de desfecho imprevisível, leva a que pareça já muito distante a noite de 9 de julho, quando Nyusi jantou com os representantes das 12 maiores empresas de capitais portugueses em Moçambique (juntas, valem quase mil milhões de dólares de investimento nos últimos cinco anos).

"Vocês são os campeões na promoção do investimento em Moçambique", afirmou o presidente moçambicano, antes de o seu país começar a enfrentar a valorização do dólar e a queda dos preços das matérias-primas e de as confrontações com a Renamo chegarem a tal ponto que a circulação em dois troços da principal estrada do país apenas se realiza sob escolta militar.

"Não há dois dias iguais"

Apesar da forte queda do investimento, as principais empresas de capitais portugueses em Moçambique não dão sinais de desistência e, pelo contrário, mantêm-se otimistas, embora preocupadas. "Temos apreensões sobre este momento, mas também achamos que há condições para o resolver e não vamos mudar a nossa atitude em relação ao investimento", comentou à Lusa Pedro Moura, presidente da comissão executiva da Portucel Moçambique, pertencente ao grupo The Navigator Company (antiga Portucel-Soporcel).

Este é o maior investimento português em Moçambique, num total de 2,3 mil milhões de dólares, implicando a plantação de 350 mil hectares de eucaliptos para a produção de energia e pasta de papel, a partir de 2023, visando a proximidade com os mercados asiáticos.

A este negócio, segundo Pedro Moura, "não foram indiferentes as relações culturais" entre os países, acabando por se tornar simbólico para a diplomacia lisboeta, mas também exemplo do espírito do investidor português, que "é talvez o que melhor pode compreender a situação de Moçambique e sentir-se disposto a prosseguir".

Embora o projeto se desenvolva na Zambézia e em Manica, duas das províncias mais afetadas pela crise entre o governo e a Renamo, o responsável da Portucel valoriza o trabalho prévio "muito forte" com autoridades locais e tradicionais, e que leva a que "as operações continuem a correr bem", ainda que sujeitas a constrangimentos na circulação de bens nas zonas de conflito.

Este é também um problema sentido por Fernando Oliveira, administrador delegado da Sumol--Compal em Moçambique, envolvendo o aumento do risco na distribuição dos seus produtos para todo o país e, claro, de custos.

"Deveria haver uma alternativa de transporte marítimo num país com uma costa de três mil quilómetros", afirma o empresário. Tal como persistem problemas estruturais na qualidade do abastecimento de energia e de comunicações, condições críticas para o sucesso da fábrica inaugurada em 2013 em Boane, arredores de Maputo, e que, segundo o programa provisório, será visitada pelo Presidente português.

Com uma quota de mercado de 35%, os volumes de vendas da Sumol-Compal subiram 15 vezes desde que começou a exportar em 2009 para Moçambique, onde, à semelhança de outras empresas portuguesas, pretende expandir o seu negócio para outros países da região, como já acontece com a África do Sul, Zimbabué e Madagáscar. Ao abrir em Moçambique a segunda fábrica fora de Portugal, num investimento de dez milhões de euros, o grupo apostou numa "economia emergente e com um potencial enorme" e no fator demográfico de uma população crescente e jovem, a que se soma o bónus da língua.

"Os valores da nossa comunicação são muito bem compreendidos pelos moçambicanos", enfatiza Fernando Oliveira, considerando, por outro lado, que a operação num país emergente faz com que "não haja dois dias iguais" e exige uma superação constante de dificuldades logísticas "complexas e caras".

Para o investidor, se a balança comercial moçambicana se normalizar e houver estabilidade a todos os níveis, tudo o resto acontecerá, esperando que a "fraca industrialização" de um país habituado a consumir produtos da África do Sul seja uma oportunidade de a empresa se constituir como pioneira e que "o sucesso traga mais sucessos".

Aguentar para vencer

Apesar do discurso de resiliência e após a crise em Portugal ter feito emergir Moçambique como alternativa, assiste-se agora a uma redução do número de portugueses no país, acusando a incapacidade de as pequenas e médias empresas lidarem com as várias frentes de crise.

Vários portugueses estão a deixar os negócios que tinham em Moçambique, porque o país não está a conseguir o crescimento que se esperava e em Portugal, ainda que moderado, está a registar-se algum", comenta fonte diplomática.

Salientando que as relações políticas não são de todo afetadas por esta conjuntura, a mesma fonte assinala que é precipitado atribuir uma única causa à retração do investimento, como a vaga de raptos, a instabilidade política e militar e a crise económica. "São muitas crises e todas juntas são inimigas dos negócios", declarou, lembrando que a 133.ª posição de Moçambique no ranking do Banco Mundial Doing Business também indicia a urgência de amplas reformas.

Apesar de a vaga de raptos ter desacelerado neste ano, um empresário português permanece em cativeiro há semanas, mas os efeitos da criminalidade organizada, envolvendo avultados pedidos de resgate, "mandou muita gente embora", refere Elsa Santos, empresária do imobiliário e residente em Moçambique há mais de duas décadas. O investimento quase parou, descreve, os preços das casas de gama média, dantes muito inflacionados, começaram a cair, traduzindo uma forte descida da procura e a partida de muita gente. Mas, no caso dos portugueses, acha que a motivação está mais "lá do que cá".

Também um dos dois centros de negócios que mantém em Maputo teve uma queda de ocupação de multinacionais e outras empresas e um terceiro, que pretende abrir em Pemba, encontra-se vazio porque os megaprojetos do gás na bacia do Rovuma estão atrasados e, com eles, a economia de um país inteiro.

"Moçambique já passou por pior e acredito que, quando o preço do petróleo subir, tudo vai crescer de novo", acredita Elsa Santos, nascida há 57 anos em Moçambique, mantendo hoje as duas nacionalidades, à semelhança de 30% da comunidade portuguesa na área consular de Maputo.

É hoje razoavelmente claro que o eldorado nunca existiu e também que a diferença entre ir e ficar é aguentar ou não o embate dos primeiros e verdes anos.

Fernando Rodrigues chegou a Moçambique há três anos e meio e já ultrapassou o prazo de dois que a veterana Elsa Santos estima para se consolidar uma adaptação a uma realidade bastante diferente do imaginário de quem chega.

Proveniente de Vila Nova de Famalicão, Rodrigues aterrou em Maputo na senda de uma experiência em África, através da Visabeira, e entretanto transitou para a Icelegend, uma empresa de dimensões mais modestas com origem em Mozelos, Santa Maria da Feira.

Engenheiro eletrotécnico, especializado em manutenção e estruturas especiais para hotelaria, chegou quando o país ainda experimentava uma euforia económica, mas que, afinal, continua a ser um incógnito mercado de futuros.

Desde o ano passado, foi vendo a situação económica a deteriorar-se, os clientes a apostarem mais na manutenção do que na aquisição e o seu núcleo de amizades desfazendo-se em várias despedidas.

Aos 32 anos, Rodrigues não tenciona ir para lado nenhum, contra as circunstâncias, mas também em nome do otimismo: "Quem aguentar este período difícil vai sair-se bem", assegura, "porque este país vai dar a volta por algum lado e depois já não volta para trás".

Jornalista da Lusa em Maputo

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