O juiz espanhol que joga à paciência com Puigdemont

Juiz do Supremo Tribunal espanhol lidera investigação contra ex-líderes catalães, sobretudo contra o ex-presidente da Catalunha Carles Puigdemont, refugiado na Bélgica

Sério, muito trabalhador e de trato agradável. É assim que quem o conhece define Pablo Llarena, o juiz responsável pela investigação contra os líderes catalães acusados de rebelião, entre eles o ex-presidente da Generalitat Carles Puigdemont (atualmente refugiado na Bélgica).

O magistrado tem entre mãos este caso inédito na justiça espanhola e cada movimento que faz surpreende. "É tão inteligente que ninguém está à espera das suas decisões", afirma ao DN Nati Villanueva, jornalista do diário ABC que faz a cobertura de assuntos de Justiça.

Exemplo disso foi a retirada do mandado de detenção europeu contra Puigdemont e quatro dos seus ex-conselheiros, para evitar que fosse a justiça belga a decidir sobre que crimes eles devem ou não ser investigados. "Llarena voltou a surpreender quando decidiu não aplicar de novo o mandado europeu contra Puigdemont quando este viajou recentemente até à Dinamarca", acrescenta Villanueva. Segundo as fontes jurídicas consultadas pelo DN, "cada decisão que toma é juridicamente muito hábil".

Nascido em Burgos, Castela e Leão, em 1963, os seus pais eram advogados. A mãe de Llarena foi a primeira mulher no Colégio de Advogados de Burgos. Ao crescer num ambiente tão jurídico, desde muito novo sabia que queria estudar leis. Licenciado em Direito pela Universidade de Valladolid, começou o seu percurso judicial em 1989 e, no ano seguinte, acedeu à categoria de magistrado por concurso.

Foi titular de um Julgado de Primeira Instância e Instrução em Torrelavega (Cantábria) e Burgos e juiz de instrução em Barcelona (entre 1992 e 1998). Depois integrou a Audiencia Provincial, que presidiu até 2011, quando foi nomeado para o Supremo Tribunal em janeiro 2016. Foi eleito por 16 votos em 21 para ocupar uma vaga de magistrado na Segunda Sala do Supremo.

Pablo Llarena faz parte da Associação Profissional da Magistratura (APM), muito conservadora, onde foi porta-voz entre 2013 e 2015. Defendeu a reforma do ministro da Justiça espanhol, Rafael Catalá, a qual permitiu encurtar os prazos de instrução penal para agilizar os processos.

"Llarena não esteve envolvido em nenhum escândalo. É discreto e não costuma participar em conferências ou atos públicos", sublinha a jornalista do ABC. Por agora não faz declarações. Trabalha de forma séria e responsável e as pessoas que lidam com ele afirmam que mantém boa relação com os colegas e gosta de conversar. "Não é radical nem sectário, ouve todos", afirma ao DN uma fonte do PSOE.

Llarena está muito familiarizado com o que se passa na Catalunha, onde residiu 19 dos 28 anos que leva na carreira judicial. Por isso conhece bem a pressão do setor independentista. Vive agora entre as duas principais cidades espanholas e a sua mulher, Gema Espinosa, diretora da Escola Judicial, reside em Barcelona. O casal tem dois filhos.
As fontes jurídicas consultadas coincidem em considerar que o juiz Llarena está a conduzir a instrução de forma muito discreta e sem que sejam passadas informações para a imprensa. "Só presta contas do seu trabalho ao presidente da Sala do Penal", referem. É igualmente falado o seu procedimento nos interrogatórios, uma vez que "não levanta a voz e faz que as pessoas se sintam muito confortáveis", acrescentam.

É importante sublinhar que tudo o que está a acontecer é novo na Justiça espanhola e Llarena está a inovar. Ninguém parece discutir as suas ordens. Tal como destacou há dias o procurador-geral espanhol, Sánchez Melgar, "nunca encontrei nos meus muitos anos de percurso profissional um foragido que sabemos onde está e quais são os seus movimentos". Referia-se a Carles Puigdemont.

O ex-presidente do governo catalão - e cabeça de lista da Junts per Catalunha nas eleições autonómicas antecipadas de 21 de dezembro - pode ser preso se entrar em Espanha. O Ministério Público acusa-o de crimes como rebelião, sedição, peculato por causa do referendo ilegal de 1 de outubro sobre a independência da Catalunha. Aguarda-se para breve a acusação de Llarena contra os ex-líderes catalães. E a consequente reativação do mandado de detenção europeu contra Puigdemont. Este insiste em ser investido presidente catalão à distância, mas tanto a Justiça como o governo espanhol do PP de Mariano Rajoy recusam totalmente a ideia.

Se decidir inabilitar Puigdemont e os restantes políticos refugiados na Bélgica, Llarena pode também vir a abrir um precedente. Tais figuras ficariam impedidas de ocupar cargos públicos e, em última análise, isso poderia frustrar qualquer plano B de Puigdemont que passasse, por exemplo, por se fazer eleger eurodeputado nas europeias de 2019. É um verdadeiro jogo de paciência, calculismo ao pormenor, aquele que está em curso entre Puigdemont e Llarena. Resta saber quem ganhará.

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