O homem voador vai cruzar o Canal da Mancha

Aplaudido por Emmanuel Macron, o "soldado voador" fez sensação durante as comemorações do Dia da Bastilha. Agora Franky Zapata vai atravessar o Canal da Mancha no dia em que se comemora a primeira travessia aérea.

Trinta e sete minutos foi quanto tempo durou a viagem pioneira entre a povoação de Baraques em Sangatte (rebatizada Blériot-Plage em 1936) e um campo ao pé do castelo junto ao porto de Dover. O autor do feito, Louis Blériot, respondeu com sucesso ao desafio do jornal Daily Mail, que oferecia mil libras ao primeiro que sobrevoasse o Canal de Inglaterra -- nome dado pelos britânicos ao Canal da Mancha.

Nesta quinta-feira, outro francês vai prestar homenagem ao primeiro homem a fazer a travessia aérea entre França e Inglaterra e, ao mesmo tempo, levar a sua invenção, literalmente, a outros voos. Desta vez o percurso vai ser realizado no Flyboard desenhado e pilotado por Franky Zapata. Deverá demorar 20 minutos e inclui um reabastecimento de combustível já em águas territoriais inglesas, quando a viagem de 35 quilómetros estiver a meio.

Em 1909, o feito de Louis Blériot lançou as bases da aeronáutica moderna: o prémio e a fama deixaram para trás as dificuldades financeiras e o nome pelo qual era conhecido, o "homem que cai sempre". O modelo Blériot XI -- que para a viagem até Dover recebeu uma bolsa de ar para possibilitar uma amaragem e que transportou as muletas do aviador, com um pé queimado graças a uma queda -- passou a ser produzido em quantidade, tendo abastecido a Força Aérea francesa, mas também exportado para o Reino Unido e Rússia.

Em 2019, o marselhês Franky Zapata espantou o mundo com um espetáculo futurista durante a parada militar das comemorações do 14 de Julho. "Soldado voador", "Duende Verde", "Homem foguete" foram alguns dos epítetos que recebeu, ao demonstrar as capacidades do Flyboard. O presidente francês exultou com a demonstração e nesse dia a ministra das Forças Armadas, Florence Parly, destacou a importância desta tecnologia. "Não é um gadget porque vai permitir testar utilizações diversas. Por exemplo, uma plataforma logística ou uma plataforma de ataque, como se vai ver, o efeito surpresa é significativo."

Uma ameaça chamada burocracia

Para trás ficaram dificuldades do inventor e antigo campeão do mundo de jet-ski. Depois de em 2011 ter inventado um hoverboard aquático com propulsão via moto de água, inspirado no filme Regresso ao Futuro, Franky Zapata apresentou em 2016 o Flyboard. Mas no ano seguinte as autoridades impediram-no de prosseguir os testes porque o veículo voador não era homologado. Com convites no estrangeiro, Zapata acabou por ver o seu trabalho reconhecido pelo governo, que investiu mais de um milhão de euros no projeto. A invenção foi mostrada no ano passado numa exposição de inovações da indústria da Defesa.

Durante uma demonstração das forças especiais, o Flyboard foi utilizado como plataforma para um atirador furtivo em apoio aos comandos que tinham atacado a partir de embarcações no Sena. Esta plataforma voadora equipada com cinco motores a jato de ar, que voa a uma altura máxima de 150 metros e alcança os 140 quilómetros por hora, é de interesse para as forças especiais francesas, que a consideram "potencial de aplicação em operações especiais em áreas urbanas".

Ainda assim, a burocracia francesa voltou a ser um obstáculo para Franky Zapata. A autoridade marítima da Mancha e do Mar do Norte emitiu um "aviso desfavorável" à viagem do flyboard, tendo alegado a "perigosidade" da região e o seu intenso tráfego marítimo. "Voei a 30 metros do Presidente da República e não consigo evitar um barco no mar? Isso é um disparate", reagiu.

Esse aviso proibia o abastecimento em águas francesas, pelo que a ideia inicial de dois abastecimentos teve de ser alterado para apenas um. "Foi necessário mudar todos os planos e desenvolver mochilas de querosene maiores à última hora. Haverá apenas um abastecimento, do lado inglês, a 18 km da costa francesa, onde aterrarei num barco e trocarei de mochila. Na terça-feira à noite, a autoridade marítima levantou a proibição, mas é tarde demais", explicou Zapata numa conferência de imprensa na quarta-feira.

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