O dia em que descobrimos que os nossos pais eram espiões russos

Durante anos Donald Heathfield, Tracey Foley e os seus dois filhos viveram o sonho americano. Depois, uma rusga do FBI revelou a verdade: eles eram agentes da Rússia de Putin. Os filhos contam a história, numa reportagem do Guardian, da qual o DN publica hoje a primeira parte

Tim Foley fez 20 anos no dia 27 de junho de 2010. Para comemorar, os pais levaram-no, e ao seu irmão Alex, a almoçar a um restaurante indiano relativamente perto de casa em Cambridge, Massachusetts. Ambos os irmãos nasceram no Canadá, mas na última década a família viveu nos EUA. O pai dos rapazes, Donald Heathfield, tinha estudado em Paris e na Universidade de Harvard, e agora tinha um cargo de chefia numa empresa de consultoria com sede em Boston. A mãe, Tracey Foley, que tinha passado muitos anos ocupada com a criação dos filhos, trabalhava agora como agente imobiliária. Para aqueles que os conheciam, eles pareciam uma família americana comum, embora com raízes canadianas e uma propensão para viagens ao estrangeiro. Os dois irmãos eram fascinados pela Ásia, um dos destinos de férias favoritos, e os pais encorajaram sempre os filhos a sentirem curiosidade pelo mundo: Alex tinha apenas 16 anos, mas tinha acabado de voltar de um intercâmbio de estudantes de seis meses em Singapura.

Após um almoço de bufete, os quatro voltaram para casa e abriram uma garrafa de champanhe para brindar à entrada de Tim na sua terceira década. Os irmãos estavam cansados; tinham tido uma pequena festa em casa na noite anterior para celebrar o regresso de Alex de Singapura, e Tim tinha planeado sair mais tarde. Após o champanhe, ele subiu para mandar uma mensagem aos amigos sobre os planos para essa noite. Bateram à porta, e a mãe de Tim disse-lhe que deviam ser os seus amigos que tinham vindo mais cedo para lhe fazer uma surpresa.

À porta ela encontrou outro tipo de surpresa totalmente diferente: uma equipa de homens armados, vestidos de preto, segurando um aríete. Entraram em casa a correr, gritando "FBI!". Outra equipa entrou pelas traseiras; os homens subiram as escadas a correr e aos gritos para que todos pusessem as mãos no ar. No andar de cima, Tim tinha ouvido bater e os gritos, e o seu primeiro pensamento foi que a polícia poderia estar atrás dele por ser menor e ter bebido: ninguém na festa da noite anterior tinha 21 anos e a polícia de Boston levava a legislação do álcool a sério.

Quando saiu para o patamar percebeu de imediato que o FBI estava ali por algo muito mais grave. Os dois irmãos assistiram, atónitos, aos seus pais a serem algemados e levados em carros pretos separados. Tim e Alex foram deixados para trás com alguns agentes que disseram que precisavam de começar uma pesquisa forense de 24 horas em toda a casa; eles tinham preparado um quarto de hotel para os irmãos. Um dos homens disse-lhes que os seus pais haviam sido presos por suspeita de serem "agentes ilegais de um governo estrangeiro".

Alex presumiu que tinha havido algum engano - a casa errada ou uma confusão devido ao trabalho de consultoria do pai. Donald viajava frequentemente em trabalho; talvez isso tivesse sido confundido com espionagem. Na pior das hipóteses, talvez ele tivesse sido enganado por um cliente internacional. Mesmo quando os irmãos ouviram no rádio, alguns dias depois, que tinham sido apanhados dez espiões russos em todos os EUA, numa operação do FBI chamada Histórias de Fantasmas, continuaram com a certeza de que tinha havido um erro terrível.

Mas o FBI não tinha cometido um erro, e a verdade era tão estranha que custava a crer. Os pais, além de serem na realidade espiões russos, eram russos. O homem e a mulher que os rapazes conheciam como mãe e pai eram realmente pais deles, mas os seus nomes não eram Donald Heathfield e Tracey Foley. Estes eram canadianos que tinham morrido há muito tempo, em crianças; as suas identidades foram roubadas e adotadas pelos pais dos rapazes.

Os seus verdadeiros nomes eram Andrei Bezrukov e Elena Vavilova. Tinham nascido ambos na União Soviética, passado pelo treino do KGB e mandados para o exterior como parte de um programa soviético de agentes profundamente infiltrados, conhecidos na Rússia como os "ilegais". Depois de uma carreira de combustão lenta na construção de um passado norte-americano comum, os dois eram agora agentes ativos do SVR, a agência de espionagem externa da Rússia moderna e sucessora do KGB. Os dois, juntamente com outros oito agentes, tinham sido traídos por um espião russo que havia desertado para o lado americano.

A acusação do FBI que expunha os seus crimes em detalhe era um catálogo de clichés de espionagem: entregas de informações em sítios pré-combinados, entregas pessoais disfarçadas, mensagens codificadas e sacos de plástico cheios de notas de dólar novas. As imagens do avião que transportava os dez a aterrar no aeroporto de Viena, para serem trocados por quatro russos que estavam detidos nas prisões russas sob a acusação de espionagem para o Ocidente, faziam regressar as memórias da guerra fria. A comunicação social teve um dia em cheio com o aspeto de "Bond-girl" de Anna Chapman, de 28 anos, uma dos dois russos presos que não tinham fingido ser de origem ocidental; ela trabalhava como agente imobiliária internacional em Manhattan. A Rússia não sabia se devia ficar envergonhada ou envaidecida: os seus agentes tinham sido apanhados, mas que outro país conseguiria pensar em montar uma operação de espionagem tão complexa e difundida como esta?

Para Alex e Tim, a geopolítica por trás da troca de espiões era a menor das suas preocupações. Os dois tinham crescido como canadianos comuns e agora descobriam que eram filhos de espiões russos. Tinham pela frente um longo voo para Moscovo e uma viagem emocional e psicológica ainda mais longa.

Quase seis anos depois da rusga do FBI, encontro-me com Alex num café perto da estação ferroviária de Kiev em Moscovo. Ele é agora oficialmente Alexander Vavilov; o seu irmão é Timofei Vavilov, embora muitos dos seus amigos ainda usem Foley, o antigo apelido deles. Alex tem 21 anos, a sua aparência ainda de menino é compensada por uma postura grave e uma indumentária séria: um pulôver preto de decote em V sobre uma camisa branca. A suave cadência norte-americana e a aspiração cuidadosa das consoantes finais dão-lhe o sotaque impossível de localizar daqueles que foram educados internacionalmente - em Paris, Singapura e nos EUA. Hoje em dia, ele fala o russo suficiente para encomendar o almoço, mas não é de maneira nenhuma fluente. Está a estudar numa cidade europeia e está aqui para visitar os pais; Tim trabalha em finanças na Ásia. (Por questões de privacidade, os dois irmãos pediram-me para não revelar detalhes sobre a sua vida profissional.)

Desde 2010 que eles tomaram a decisão consciente de evitar a comunicação social. Alex explica que concordaram em falar comigo agora porque estão a travar uma batalha judicial para reconquistar a sua cidadania canadiana, que lhes foi retirada há seis anos. Eles acreditam que é injusto e ilegal que tenham de responder pelos pecados dos pais, e decidiram contar a sua história pela primeira vez.

Enquanto comemos khachapuri, um pão georgiano recheado com queijo fundido, Alex relembra os dias após a rusga. Ele e Tim ficaram acordados até de madrugada no quarto do hotel que o FBI lhes tinha arranjado, tentando entender o que estava a acontecer. Quando voltaram para casa no dia seguinte descobriram que tinham sido levados todos os equipamentos eletrónicos, documentos e fotografias. O mandato de busca e apreensão do FBI lista 191 itens removidos da residência Foley/Heathfield, incluindo computadores, telemóveis, fotografias e medicamentos. Até levaram a PlayStation dos dois irmãos.

As equipas de jornalistas mantinham-se vigilantes no exterior da casa; os irmãos ficaram lá dentro com as cortinas fechadas, sem os seus telemóveis e computadores que tinham sido apreendidos. Na manhã seguinte, Tim conseguiu escapulir-se para ir à Internet na biblioteca pública e tentar encontrar um advogado para os pais. Todas as contas bancárias da família tinham sido congeladas, deixando os rapazes apenas com o dinheiro que tinham nos bolsos e com o que conseguiram pedir emprestado aos amigos.

Os agentes do FBI levaram-nos a uma audiência preliminar em Boston, onde os pais foram informados das acusações. Houve um breve encontro com a mãe dentro da prisão. Alex conta-me que não perguntou à mãe quais eram as acusações que pendiam sobre ela e o pai. Isto parece-me surpreendente e pergunto-lhe se ele não estava ansioso por perguntar?

Eles eram uns jovens inteligentes e promissores. Foi-lhes perguntado se queriam ajudar o seu país e eles responderam afirmativamente

"A situação era esta: eu sabia que se fosse testemunhar em tribunal quanto menos soubesse melhor. Eu não queria perturbar a minha opinião com nada. Eu não queria fazer perguntas, porque era óbvio que havia pessoas a ouvir", diz ele. Um grupo ruidoso de mulheres está a celebrar um aniversário na mesa ao lado, e ele levanta a voz. "Recusei deixar-me convencer de que eles eram realmente culpados de alguma coisa, porque percebi que o caso, provavelmente, se iria arrastar por muito tempo. Eles estavam a enfrentar uma pena de prisão perpétua e se eu fosse testemunhar teria de acreditar sem qualquer sombra de dúvida que eles eram inocentes."

A família estava a planear umas férias de verão de um mês em Paris, Moscovo e Turquia; a mãe disse-lhes para fugirem do circo da comunicação social e apanharem um avião para a Rússia. Depois de uma escala em Paris, Alex e Tim embarcaram num avião para Moscovo, sem saber o que os esperava à chegada. Eles nunca tinham estado na Rússia antes. "Foi um momento realmente aterrorizante", recorda Alex. "Estamos sentados no avião, temos algumas horas para matar e não sabemos o que nos espera. Ficamos ali sentados e pensamos, pensamos."

Quando os irmãos desembarcaram foram recebidos à porta do avião por um grupo de pessoas que se apresentaram em inglês como sendo colegas dos pais. Disseram aos irmãos para confiarem neles, e levaram-nos para fora do terminal, para uma carrinha.

"Mostraram-nos fotografias dos nossos pais na casa dos 20, de uniforme, fotografias deles com medalhas. Foi nesse momento que pensei, 'OK, isto é real". Até àquele momento recusei-me a acreditar que alguma coisa daquilo era verdade", diz Alex. Ele e Tim foram levados para um apartamento e foi-lhes dito que ficassem à vontade; um dos seus acompanhantes passou os dias seguintes a mostrar-lhes Moscovo; levaram-nos a museus, até ao ballet. Um tio e um primo que os irmãos não faziam ideia que existiam fizeram-lhes uma visita; apareceu também uma avó, mas ela não falava inglês e os rapazes não sabiam uma palavra de russo.

Ainda passaram alguns dias até os pais chegarem, depois de terem admitido numa audiência no tribunal em Nova Iorque, a 8 de julho, que eram cidadãos russos. Uma troca estava já iminente e eles chegaram a Moscovo, via Viena, a 9 de julho, vestidos ainda com os macacões cor de laranja de prisioneiros que lhes tinham sido dados na América. A minha cara deve mostrar algo do meu espanto: como é que um rapaz de 16 anos processa uma cadeia de acontecimentos tão extraordinária?

Alex sorri ironicamente. "Uma típica crise de identidade da adolescência, certo?"

O pai de Alex e Tim nasceu Andrei Olegovich Bezrukov, na região de Krasnoyarsk, no coração da Sibéria. Desde o seu regresso a Moscovo, em 2010, ele deu apenas meia dúzia de entrevistas à comunicação social russa, relativas, principalmente, ao mais recente trabalho que tinha feito como analista de geopolítica. Os detalhes sobre o seu passado, ou o de sua mulher, Elena Vavilova, são escassos.

Alex conta-me o que sabe sobre o recrutamento dos seus pais, com base no pouco que eles lhe disseram: "Eles foram recrutados juntos, como casal. Eles eram jovens inteligentes e promissores. Foi-lhes perguntado se queriam ajudar o seu país e eles responderam afirmativamente. Eles passaram por anos de treino e preparação".

A reportagem prossegue amanhã

Jornalista do Guardian