O Brasil está nas mãos de cinco homens-bomba

Depois de escapar à tangente ao Tribunal Eleitoral, Michel Temer ainda depende do silêncio de três prisioneiros. Se assinarem o acordo de delação premiada, Eduardo Cunha, Lúcio Funaro e Rocha Loures podem derrubar o presidente. Mas Lula da Silva corre o mesmo risco se Antonio Palocci e Guido Mantega falarem.

Eduardo Cunha: Vinte anos de informações acumuladas

O ex-presidente da Câmara dos Deputados que liderou a derrocada de Dilma Rousseff e consequente subida ao poder do velho aliado Temer, embora preso desde outubro, ainda hesita em assinar acordo de delação premiada com a Lava-Jato. No entanto, pode mudar de ideia a qualquer momento, dada a dimensão do seu cadastro: foi condenado a mais de 15 anos por corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas na operação liderada por Sérgio Moro, é réu num esquema de corrupção na Caixa Económica Federal e ainda está sob investigação por ter recebido subornos da construtora Odebrecht, por liderar uma quadrilha que desviava dinheiro de uma hidroelétrica e por, enquanto deputado, ter favorecido um banco e ameaçado o presidente de outro. Para não passar o resto da vida na cadeia, Cunha pode a qualquer momento decidir falar dos segredos que acumulou em mais de 20 anos de atribulada vida pública. Começando, claro, por explicar se é verdade que recebia mesada da empresa JBS, com o aval de Temer, para se manter em silêncio, como se deduz da gravação do delator Joesley Batista.

Lúcio Funaro: O corretor que fez do crime o seu modus vivendi

Definido pelo procurador-geral da República Rodrigo Janot como "alguém que fez do crime o seu modus vivendi", além de "personagem antiga dos noticiários criminais" e ainda "um operador com larga experiência em negócios ilícitos", Funaro é o braço direito de Cunha, ao lado de quem está detido num estabelecimento prisional de Curitiba. Implicado em dezenas de escândalos de corrupção, do mensalão ao petrolão, passando por outros sem tanta repercussão internacional, Funaro é oficialmente um corretor de valores. Ao contrário do "padrinho", tem intenção de se tornar delator para aflição do próprio Cunha, que pode ter a sua situação agravada, de Moreira Franco, ministro próximo da presidência com que também se relaciona, e de Temer, o chefe do Estado em pessoa. Para tal, segundo fontes da Lava-Jato, já terá até estabelecido um roteiro de informações, com datas, valores e métodos de atuação documentados em análise nos gabinetes dos procuradores do Ministério Público.

Rodrigo Rocha Loures: Pressionado pela mulher grávida a assinar delação

Mais conhecido como "homem da mala", depois de ter sido filmado pela polícia a receber um saco com 500 mil reais entregue por um operacional do delator Joesley Batista, Loures é o homem-bomba por definição. Se decidir contar que agiu a pedido de Temer e que parte do dinheiro que transportava se destinava ao presidente, derruba a República num estalar de dedos. Dos cinco homens que podem explodir o Brasil, foi o último a ser preso, apenas na semana passada, como alvo, ao lado do próprio Temer, de um inquérito que apura crimes de corrupção, de organização criminosa e de obstrução da justiça. Considerado pelo presidente da República como o seu homem "da mais estrita confiança", segundo as palavras do próprio Temer em gravação feita no porão da sua residência oficial por Joesley Batista, o ex-deputado Loures ainda mede os prós e os contras de delatar. O seu advogado nega que ele tenha essa intenção, mas o seu núcleo familiar, sobretudo a mulher, grávida de oito meses, pressiona-o nesse sentido.

Antonio Palocci: Farto da prisão, guru económico do PT pode falar

Palocci foi guru económico da era PT no poder, na qualidade de fio condutor entre o partido com raízes no sindicalismo e os representantes do grande capital. Por causa de dois escândalos em que se viu envolvido, acabou por se demitir tanto do governo de Lula, no qual desempenhava as funções de ministro das Finanças, como no de Dilma, em que ocupava a estratégica função de ministro da Casa Civil - primeiro-ministro, na prática. Em privado, os dirigentes do PT - e também os principais nomes da banca brasileira -confessam que rezam a todos os santos pela manutenção do seu silêncio. Mas Palocci e os seus advogados, depois de verem o empresário Joesley Batista denunciar meio mundo e escapar para Nova Iorque quase sem punição pelos seus inúmeros crimes, parecem inclinados a colaborar. Até porque, segundo relatos de Curitiba, é dos presos mediáticos o que pior se tem adaptado à prisão, onde está desde setembro.

Guido Mantega: Ex-ministro foi citado por toda a gente

Sucessor de Antonio Palocci no cargo de ministro das Finanças ainda com Lula, Guido Mantega manteve-se até quase ao fim do interrompido consulado de Dilma Rousseff, tornando-se assim o mais longevo dos titulares brasileiros da pasta das Finanças na era democrática. O seu nome tem sido citado em delações coletivas - da Odebrecht e da JBS, por exemplo - e individuais na qualidade de elo entre as grandes empresas com as quais lidava enquanto ministro e as campanhas do PT, de Lula e de Dilma. Segundo a revista Época, o economista nascido em Génova mas radicado no Brasil desde criança já teria feito saber a operadores da Lava-Jato que está disposto a contar o que sabe em troca da sua liberdade, para inquietação de Lula, presidente de 2002 a 2010 e candidato a regressar ao Planalto em 2018. Também Renato Duque, o ex-diretor da Petrobras nomeado para a petrolífera estatal para cuidar dos interesses do PT preso há dois anos, tira o sono ao antigo sindicalista.

* em São Paulo

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