"O Brasil corre o risco de fascismo e Sergio Moro faz parte disso"

Entrevista à presidente do Partido dos Trabalhadores (PT), Gleisi Hoffmann.

Preso em Curitiba e fora da circulação política, Lula da Silva nomeou Gleisi Hoffmann, a presidente do PT, como sua única porta-voz oficial. Ao DN, a senadora, que foi ministra da Casa Civil (o equivalente a primeira-ministra) de Dilma Rousseff entre 2011 e 2014, revela o estado de espírito de Lula, reforça a sua condição de preso político, diz que com Jair Bolsonaro, do PSC, o Brasil corre o risco de voltar ao fascismo e que o juiz Sergio Moro faz parte de um esquema que visava derrubar Dilma Rousseff e impedir a candidatura do ainda líder nas sondagens. Natural de Curitiba e casada com Paulo Bernardo, que foi ministro de Lula e de Dilma, Gleisi e o marido foram ambos indiciados na Lava-Jato. De origem alçemã e licenciada em Direito, a senadora garante que o PT tem passado por "uma autocrítica na prática", ao mudar a forma de financiamento das suas campanhas eleitorais, e vê difícil a união da esquerda na primeira volta. "Mas não impossível à segunda."

Como porta-voz de Lula, tem mantido contacto com ele. Como definiria o seu estado de espírito?

Lula está muito preocupado com o país. Como ele diz, está "desconjurado" com o estado da economia e da política. Perguntou-me: "Eles tiraram a Dilma para fazer isso com o Brasil?" e "eles prenderam-me para fazer isso com o Brasil?". Lula refere-se ao aumento do desemprego, da fome e da miséria e à diminuição do poder de compra do salário mínimo. O estado de espírito dele é esse: indignação com as injustiças do Brasil e das injustiças para com ele próprio. Mas continua com força e responsabilidade para saber qual é o seu papel.

Mantém que a prisão de Lula foi arbitrária e injusta? E política?

Sim. Arbitrária porque foi apressada, injusta porque não deixou Lula defender-se com todos os recursos que tinha à disposição, incluindo em segunda instância e política porque não observou o que dizia a Constituição nesses casos. Porquê prender Lula depois de um julgamento de segunda instância? Num processo sem provas, sem ter sequer o crime definido e sem sequer nenhuma justificativa sobre qual era o risco que ele oferecia ao país estando solto?

Fernando Henrique Cardoso, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, fez aquela distinção que tem sido muito usada no Brasil: disse que Lula da Silva não era um preso político e sim um político preso. Não tem razão?

Claro que não. Aí é um problema político do próprio Fernando Henrique Cardoso. Ele não consegue ver o que está acontecendo no Brasil. E penso também que tem muitos ciúmes de Lula.

Mas o que distingue a prisão de Lula da Silva das do ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha, do ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral e de outros condenados na Lava-Jato?

As provas nos processos e nos autos. Qual é a prova contra Lula? Quais as escutas contra o presidente? Quais as malas de dinheiro, as joias, as contas na Suíça? Nenhuma. Acusam-no de receber um apartamento que não é dele nem por doação nem por escritura. Como é acusado então de corrupção passiva? Não há objeto desse crime.

O impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e a prisão de Lula da Silva são, na opinião do PT, faces da mesma moeda?

São faces da mesma moeda, sim. Aliás, Lula sempre dizia que se não o prendessem e o tirassem da circulação política não fechariam o golpe. Desde que tiraram a Dilma do cargo, começaram a tirar direitos dos trabalhadores, por isso, não podem agora deixar voltar ao poder um governo progressista e popular.

O Brasil corre o risco de se radicalizar à direita?

O Brasil corre o risco de se radicalizar à direita, de fascismo, como vemos através da candidatura do [Jair] Bolsonaro.

E o juiz Sergio Moro é parte disso?

E o Moro é parte disso: é um juiz parcial que tomou uma decisão baseada em atos políticos, o próprio Ministério Público, orientado por ele, disse que não tinha provas mas que tinha convicções. Isso é muito grave para um Estado democrático de direito. O que nos dá força é que o povo brasileiro continua querendo votar no Lula, com quase o dobro do segundo colocado nas pesquisas.

A senhora e outros membros do PT também são alvos na Lava-Jato. Não concorda com quem pede mais autocrítica ao partido?

Estamos fazendo uma autocrítica na prática: se há algo que o partido não fez quando esteve no poder foi a reforma política, por isso usamos os mesmos meios para o financiamento eleitoral das nossas campanhas, o que causou todos os nossos dissabores. Agora, não há nenhuma acusação contra mim, contra algum membro do partido ou contra Lula de contas no estrangeiro, de malas de dinheiro, de enriquecimento ilícito. Todas as acusações se referem a financiamentos de campanha eleitoral, que estamos agora mudando, por isso falo em autocrítica na prática.

O partido tem dito que Lula é plano A, B e C do PT nas eleições, mas concorda que a esquerda deve unir-se em torno de uma candidatura?

Deve unir-se em torno de um projeto. O ideal, sim, seria em torno de uma candidatura, no entanto acho difícil numa primeira volta. Mas não considero isso impeditivo de uma união na segunda volta. Por isso nós vamos inscrever Lula como candidato em agosto, vamos defender a sua candidatura e tentar viabilizá-la de todas as formas possíveis, até porque acreditamos na sua inocência e ele é o preferido do povo brasileiro.

O PSB, que chegou a cogitar o nome de Joaquim Barbosa como candidato, é, ao lado de PT, PSOL ou PCdoB, parte dessa esquerda?

O PSB é parte dessa frente política que nós fizemos em defesa da democracia, da soberania e dos direitos do povo brasileiro.

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