O anti-Putin que denuncia "os ladrões e os aldrabões"

Alexei Navalny define-se como nacionalista e democrata. Já foi condenado sete vezes. Tem 40 anos e dois filhos. É atualmente a principal figura da oposição ao presidente russo

Ficou em segundo lugar nas eleições para a presidência da Câmara de Moscovo, com 27,3% dos votos, em 2013, logo atrás do candidato apoiado pelo Kremlin, Serguei Sobianine, que teve 51,3%. Tenciona ser candidato às presidenciais de 2018 se tiver sucesso no recurso da sentença em que foi condenado no início de 2017 por alegado desvio de fundos e abuso de confiança. De qualquer forma, prossegue a recolha das 300 mil assinaturas para a formalização da candidatura - há uns dias já reuniria cerca de 250 mil nomes.

Após o assassínio de Boris Nemtsov em fevereiro de 2015, Alexei Navalny, de 40 anos, é a última grande figura ativa na oposição política ao regime de Vladimir Putin e à hegemonia na sociedade do partido que este dirige, o Rússia Unida. Formado em Direito, estudou na antiga Universidade Patrice Lumumba e em Yale, nos Estados Unidos. Começou a tornar-se notado como blogger, denunciando nos seus comentários situações de corrupção, o favorecimento de pessoas e empresas próximas do círculo do poder.

Para Alexei Navalny, a grande maioria de detentores de cargos públicos são "ladrões e aldrabões", como o disse numa entrevista, em 2011, que se tornou bastante popular. A ponto de a expressão "ladrões e aldrabões" ter entrado na gíria popular como sinónimo de governo.

Navalny foi conselheiro do governador da região de Kirov e integrou, entre 2012 e 2013, o conselho de administração da companhia aérea Aeroflot, parcialmente detida por Alexander Lebedev, um dos oligarcas mais ricos da Rússia e opositor de Putin. Ainda em 2012, quando diferentes grupos decidiram escolher uma direção coordenadora para a oposição, Navalny foi o mais votado, tendo ficado à frente de Nemtsov, que fora vice-primeiro-ministro sob a presidência de Boris Ieltsine, e de um opositor que entretanto abandonou a Rússia, Garry Kasparov.

Se Navalny é visto com simpatia no Ocidente pelo discurso anticorrupção, antiautoritário e anti-Kremlin, as suas posições nacionalistas e xenófobas não deixam de provocar um franzir de testas em muitos.

O partido Iabloko, oposição liberal, expulsou-o em 2007 depois de se ter declarado "inquieto com o problema da imigração". Segundo Navalny, "50% dos crimes graves são da responsabilidade de estrangeiros". Na mesma ocasião, acrescentava uma história pessoal para provar o seu ponto de vista: "no meu prédio, as mulheres têm medo de sair à rua" de noite.

"Sei isso porque tenho de ir buscar a minha mulher ao metro se for depois das 20.00." Yulia e Alexei casaram-se em 2000. O casal tem um filho adolescente, Zahar, e uma rapariga, Dasha. Vivem em Moscovo.

Filho de pai russo e mãe ucraniana, fundou o Partido do Progresso após a expulsão do Iabloko e desde 2005 participa em iniciativas de grupos nacionalistas. Não hesita em reivindicar este rótulo político a que liga o vocábulo democrata.

Em 2014, após a anexação da Crimeia, declarou que este território "será sempre russo e nunca mais fará parte da Ucrânia", ao mesmo tempo que admitia ter aquela constituído uma "flagrante violação do direito internacional". Navalny defende a imposição de sanções aos aliados e colaboradores próximos do presidente russo.

Preso a intervalos regulares - já foi condenado sete vezes - ou forçado a períodos de prisão domiciliária, assim como o irmão Oleg, Alexei Navalny recorre principalmente às plataformas digitais para as suas campanhas, sendo bastante popular entre a juventude.

Aliás, esta era largamente maioritária na manifestação do passado domingo em Moscovo, de que Navalny foi um dos organizadores, tendo acabado por ser detido e condenado a 15 dias de prisão e a uma multa de 20 mil rublos (cerca de 320 euros).

O elemento mobilizador do protesto que decorreu igualmente em muitas outras cidades russas foram as revelações da investigação da Fundação de Combate à Corrupção (FBK, na sigla em russo), criada por aquele, sobre o património gigantesco acumulado pelo atual primeiro-ministro Dmitri Medvedev.

Da investigação foi feito um vídeo que teve mais de 13 milhões de visualizações até ao início da semana, mas foi globalmente ignorado pela grande maioria dos media russos.

A manifestação na capital contou com a presença de cerca de oito mil pessoas, segundo números da polícia citados nos media russos, o que a torna o mais concorrido ato de protesto desde o desfile após o assassínio do opositor Boris Nemtsov, a 27 de fevereiro de 2015, e a seguir às de 2012 na sequência de presidenciais e regionais consideradas fraudulentas.

Segundo a FBK, nas ruas de Moscovo estiveram 30 mil manifestantes e mais de 150 mil em todo o país. Uma mobilização considerada importante atendendo à atmosfera política que se vive na Rússia.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG