O ano um do liberal francês que não procura ser amado

Emmanuel Macron venceu as eleições há um ano. O ex-ministro de François Hollande garante que o caminho das reformas é para prosseguir doa a quem doer

Emmanuel Macron costuma dizer que "tarde é tarde de mais". No entanto, é o próprio a reconhecer que a sua fúria reformista não pode dar resultados ao fim de um ano na presidência. Mais do que uma vez afirmou que a economia vai começar a sentir as mudanças ao fim de 18 meses a dois anos.

"Eu quero este país aberto à disrupção e aos novos modelos" afirmou na entrevista à Forbes norte-americana deste mês, que o chama de "líder dos mercados livres". Anunciou a simplificação dos impostos e, entre outras mudanças, o IRC vai baixar sete pontos, para 25%; o chamado exit tax, criado no consulado de Nicolas Sarkozy, vai ser abolido. É um imposto sobre as mais-valias de quem tem mais de 800 mil euros de capital e que vai mudar o domicílio fiscal para o estrangeiro. Macron justifica-se: "Quando uma pessoa quer casar-se não deve dizer "se te casares comigo não és livre de te divorciares"."

Já em vigor está o fim do imposto sobre as grandes fortunas e a substituição da progressividade por uma taxa fixa, o que aliviará os endinheirados e deixa os cofres do Estado com menos 4,5 a 5 mil milhões de euros. "O presidente dos ricos", reagiu o Libération. "A injustiça fiscal é um dos marcos mais indiscutíveis da presidência de Macron", dizem por sua vez Dominique Plihon e Vincent Drezet, autores do livro L"imposture Macron - Un business model au service des puissants (A impostura Macron - Um modelo de negócios ao serviço dos poderosos).

Neste quadro de reformas mais do agrado das empresas do que dos sindicatos, foi aprovado em setembro um código do trabalho que facilita os despedimentos e os contratos a termo. Os indicadores parecem acompanhar o homem que quer a França na liderança da revolução digital e tecnológica. A taxa de desemprego desceu de 9,4% para 8,9% e o clima de confiança dos negócios mantém-se nos níveis mais altos dos últimos dez anos. Mas os economistas alegam que o crédito se divide com as políticas postas em prática por François Hollande antes do fim do mandato e o facto de se registar um crescimento económico mais robusto na Europa.

Em documentário a transmitir na France 3 na segunda-feira, o antigo banqueiro de investimento promete continuar o caminho reformista. "O ritmo e a intensidade que prevalecem hoje vão permanecer enquanto a mudança não for tangível", diz o presidente, citado pelo Journal du Dimanche.

Quanto à relação com os eleitores, Emmanuel Macron é lapidar: "Nunca se deve tentar ser amado." E explica depois: "A partir desse momento uma pessoa torna-se refém, entra-se num jogo de espelhos, do olhar do outro. É uma armadilha terrível."

Prova da resistência à sua política, dezenas de milhares de pessoas juntaram-se ontem em Paris e Bordéus na defesa do Estado social. Mas Macron diz não temer as reações, sejam quais forem as consequências. "Vamos conseguir fazer as reformas. Talvez nalguns casos sejam organizadas greves que durem semanas ou meses. Mas não vou abandonar ou diminuir a ambição reformista porque não há outra escolha", diz à Fortune.

Se a isto juntarmos várias tiradas de Macron aos manifestantes, sejam operários sejam reformados (numa delas chamou os opositores do código do trabalho "preguiçosos e cínicos"), compreende-se por que não falta quem o apode de autoritário. Até no campo dos seus simpatizantes. É o caso de Brice Couturier, jornalista que escreveu o livro Macron, un président philosophe: "Se a filosofia é liberal, económica e socialmente o método é autoritário." Ao Nouveau Magazine Littéraire, sustenta: "A propensão a decidir sozinho não é estranha ao contexto em que foi eleito. Em 2017, o país esteve quase ameaçado por uma guerra civil pela corrente populista, de um lado Marine Le Pen e do outro Jean-Luc Mélenchon. Em tais situações, a França cria com frequência um homem providencial, cujo exercício do poder leva a um governo tingido de autoritarismo."

Frente externa

Se no campo interno Macron deu mostras de hiperatividade, não descurou a sua afirmação no exterior. Ao dizer a Trump que o unilateralismo, as guerras comerciais e a depredação ambiental não são o caminho, ou ao aliar-se com o presidente dos EUA e a primeira-ministra britânica num bombardeamento a alvos sírios; ao proclamar que o Irão nunca terá armas nucleares; mas também ao querer novas pontes, seja com a China, seja ao propor um eixo estratégico Paris-Nova Deli-Camberra.

E, claro, a Europa. Com a União Europeia numa crise de identidade e com Berlim a meio de um governo de gestão, Macron propôs a sua visão "audaz" de reformas em Bruxelas, que vão da defesa ao ambiente, do digital à economia, a pôr em prática em dez anos.

Principais momentos

14 de maio
> Aos 39 anos é o mais novo presidente a tomar posse em França e o oitavo da V República, uma semana após ter sido eleito

13 de julho
> Cala as críticas dos militares, que se queixam do corte orçamental de 850 milhões de euros. "Eu sou o vosso chefe." Dias depois, o chefe do Estado Maior das Forças Armadas, Pierre de Villiers, demite-se

15 de setembro
> Numa cerimónia que mimetiza as assinaturas dos presidentes dos EUA na Casa Branca, Macron promulga, no Eliseu, a lei da moralização da vida política. Na primeira grande reforma acaba, por exemplo, com a prática dos políticos contratarem familiares

26 de setembro
> Vai à Sorbonne enunciar o que deve ser a "refundação" da União Europeia, seja com um orçamento comum de Defesa, seja com um ministro das finanças da zona euro, por exemplo

25 de abril
> Durante a primeira visita de Estado na era Trump - que fica marcada por alguns momentos de surpreendente afeto -, Macron defende perante os congressistas um mundo de "forte multilateralismo" e que lute contra o aquecimento global

1 de maio
> Em entrevista à Forbes anuncia o fim do exit tax, um imposto à mais-valias dos milionários que se mudem para o estrangeiro

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