Novo ataque ao turismo. Desta vez foi a Al-Qaeda no Burkina Faso

Balanço fala em 23 mortos de 18 nacionalidades. França e EUA ajudaram na operação. Dois dos cinco jihadistas eram mulheres

"Estive sempre a olhar para o meu relógio, mas não fazia sentido nenhum, porque parecia andar muito devagar. Pareceu tanto tempo, porque a cada minuto estavas à espera que aparecesse alguém para ajudar e salvar-te... ou matar-te", relatou à Reuters uma eslovena que estava no restaurante Cappuccino durante o ataque reivindicado pela Al-Qaeda do Magrebe Islâmico que terminou ontem de manhã em Uagadugu, a capital do Burkina Faso. Esta mulher é um dos cerca de 150 reféns libertados, tanto do restaurante como do hotel Splendid. Pelo menos 23 pessoas de 18 nacionalidades morreram.

O ataque começou pelas 19.45 locais de sexta-feira (mesma hora de Lisboa), com muitas explosões e tiros por parte dos jihadistas, e só terminou ontem, graças a uma operação das tropas do país e outras forças de segurança locais, que contou com a colaboração de forças especiais francesas e agentes dos serviços secretos dos Estados Unidos, segundo os media locais.

O hotel de luxo Splendid é utilizado por funcionários da ONU e por ocidentais, sensivelmente os mesmos frequentadores do Cappuccino, localizado em frente ao hotel. Os dois ficam uma zona central da cidade e relativamente perto do aeroporto internacional.

Gabriel Mueller, um trabalhador humanitário austríaco hospedado num outro hotel, descreveu à Reuters o ambiente em torno do Splendid como um "verdadeiro banho de sangue". "Toda a gente estava em pânico e deitada no chão. Havia sangue por todo o lado, eles estavam a matar as pessoas à queima roupa", contou à CNN Yannick Sawadogo, um sobrevivente.

Quatro jihadistas, incluindo duas mulheres, foram mortos no ataque, referiu uma fonte das forças de segurança à AFP. Um quinto acabou por fugir e entrou no bar Taxi Brousse, localizado ao lado do hotel Iby e do Cappuccino, de acordo com três testemunhas que deixaram o local.

O secretário de Estado das Comunidades, José Luís Carneiro, disse à Lusa que não há registo de portugueses mortos ou feridos neste ataque da Al-Qaeda do Magrebe Islâmico, organização que também reivindicou o ataque ao hotel Radison Blu em Bamako, a capital do Mali, a 20 de novembro.

Católico num país muçulmano

A presidente da Comissão da União Africana, Nkosazana Dlamini Zuma, classificou o ataque de ontem como "cobarde" e "desprezível", destacando a necessidade de melhorar os esforços africanos e internacionais para fazer frente "à crescente ameaça do terrorismo e extremismo em África". Zuma lamentou o facto de isto ocorrer quando o Burkina Faso começa "uma nova era de democracia, justiça, reconciliação e desenvolvimento, com o apoio dos países da região e da comunidade internacional".

O presidente burquinense, Roch Marc Christian Kaboré, assumiu funções em dezembro, um mês depois de ter sido eleito à primeira volta. Católico, num país maioritariamente muçulmano, é o primeiro presidente não interino em 49 anos sem passado militar.

A União Europeia, por seu turno, reiterou a sua determinação em utilizar "todos os instrumentos" para lutar contra o terrorismo ao lado do Burkina Faso e de outros países do Sahel. A chefe da diplomacia da UE, Federica Mogherini, recordou também que os cidadãos do Burkina Faso expressaram em novembro com o seu voto pacífico "a sua determinação de viver em paz e com estabilidade".

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